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Crítica | Sequestro Relâmpago

por Bruno dos Reis Lisboa Pires
118 views (a partir de agosto de 2020)

Encantador ver como há uma renovação considerável no cenário brasileiro de cinema, mesmo em meio às tendências que buscam homogeneizar a maneira de se filmar no nosso país. Filmes sempre limpos, estáticos, que geralmente tentam exprimir afeto a partir de narrativas higienizadas e sem “epiderme”, nas palavras do cineasta Claudio Assis. Da marginalidade, surgem cineastas que buscam uma luz no fim do túnel e inovam, formalmente ou tematicamente, distanciando-se da inclinação que nosso cinema vem vivendo, sendo esses os que se destacam futuramente, justamente por não ser mais do mesmo. O que tem surgido de mais interessante nos últimos anos são filmes de gênero que miram longe da maneira americana de filmar, que resgatam a brasilidade e a aproximam duma temática universal, como foi o caso de As Boas Maneiras, um longa de terror passado durante as festas de São João, e o mais recente Sequestro Relâmpago, filme de crime situado em São Paulo que expõe a cidade como órgão que promove a desigualdade de classes e a única maneira de comprimi-la é via violência.

O artifício do filme é desordenar a paranoia social da sociedade grande mudando as regras do jogo o tempo inteiro. O longa trata de Isabella, uma mulher abastada, que, a caminho da casa do namorado, é sequestrada por dois bandidos, Matheus e Japonês, que alongam o sequestro até as dez da manhã do dia seguinte. Ao invés de explorar a violação da figura feminina, a diretora Tata Amaral opta por expor o amadorismo dos sequestradores e com isso intuir os momentos de alta e baixa tensão entre os três protagonistas. O filme sabe transitar muito bem entre os momentos descontraídos onde os rapazes provocam humor das situações extraordinárias provocadas pelas suas trapalhadas e entre momentos de tensão onde a vida de Isabella está em jogo ou até quando o sequestro está próximo de ser desmanchado.

Isabella está o tempo todo tentando se safar, não apenas com sua astúcia, mas convencendo-os que ela e eles estão do mesmo lado, são a massa trabalhadora explorada pelos 1% que detêm mais da metade do dinheiro do mundo. Com isto estabelecido muitas vezes essa máxima estabelecida por ela chega a ser aceita pelos dois sequestradores, que se aproximam da moça e quase tornam-se amigos, mas a distância social entre ela e os criminosos fala mais alto, retomando o jogo de brutalidade que é perdido muitas vezes ao longo do filme. O filme passa-se quase que inteiramente em uma viagem de carro por São Paulo pelas paisagens mais diversas da cidade, revelando o contraste social incapaz de dar chance a qualquer empatia deles por Isabella. São Paulo é um abismo social onde cada quilômetro rodado revela uma nova injustiça e chega a quase justificar o sequestro

O filme por alguns momentos parece chegar perto de um momento de conciliação, mas a divergência coletiva propagada ao longo do filme só pode ser resolvida na bala.  Incapazes de aproximar-se do status de Isabella, apenas tocar o terror pode ser a resposta para desigualdade cavada por mãos sujas de sangue ao longo dos anos. Se por algumas horas Isabella, Matheus e Japonês puderam sentar-se em um bar para beber e jogar sinuca, foi só para esclarecer o que já estava claro: o trio não pertence ao mesmo mundo e jamais irá. São Paulo é grande demais, mas ainda assim não o suficiente para caber os três e todo nosso histórico de desigualdade.

Sequestro Relâmpago – Brasil, 2018
Direção: Tata Amaral
Roteiro: Tata Amaral, Henrique Pinto, Marton Olympio
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Sidney Santiago, Daniel Rocha, Linn da Quebrada, Projota
Duração: 85 min.

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