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Crítica | Deadly Hands of Kung Fu #29, 31 e 33

por Davi Lima
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Nessa última sessão de compilados do título de histórias em quadrinhos Deadly Hands of Kung Fu estão contemplados: o real último momento de Shang Chi, o Mestre do Kung Fu no Volume 1 dessa série na última edição com número #33, sendo o Volume 2 lançado 37 anos depois (1977 – 2014) com novas histórias de um Shang Chi mais moderninho; o crossover, ou duelo forçado, entre Punho de Ferro e Shang Chi na edição #29, marcando o encontro dos personagens dentro da linha editorial, em vista que Danny Hand foi tomando o espaço de Shang Chi nas edições; o team-up, ou crossover mesmo, da gangue improvisada com os heróis Tigre Branco, Valete de Copas, Punho de Ferro e Shang Chi na edição #31, que contém o gancho de continuação da edição #29. E como sempre, vale mencionar a ausência da edição brasileira referente a edição americana #31.

Para Matar o Salvador

To Slay the Savior

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O que mais impressiona nessa edição de Deadly Hands of Kung Fu é a elaboração política e dramática para que o duelo forçado por mercenários da I.R.A entre o Shang Chi e o Punho de Ferro aconteça. O roteirista Doug Moench cria dois discursos para encontrar os dois personagens de artes marciais da Marvel. Com o Mestre do Kung Fu os recordatórios são falados em primeira pessoa, enquanto com Danny Rand há uma associação de uma locução em terceira pessoa. Isso não serve apenas para diferenciar os personagens e o que os leva a se encontrarem com os mesmos mercenários num cenário de luta, e sim para conectar os dramas de cada com uma narrativa própria, como mundos separados que se colidem, mesmo com eles sendo amigos e compartilharem a mesma ideia que o antagonista mascarado é louco. Esses discursos criam um suspense, com Danny procurando Colleen Wing e Shang Chi tentando salvar um tal de Winston Neville para ajudar a Scortland Yard.

O percurso até a surpresa dos dois personagens juntos um tem misto de aleatoriedade com planejamento. Durante a leitura, com os dois personagens caminhando pelos esgotos  de Londres, imagina-se que os dois vão se encontrar, mas as adições do roteiro com recheio de narração cria dispersões suficientes para haja uma armadilha narrativa para o óbvio encontro de Punho de Ferro e Shang Chi. Ao mesmo tempo, dentro da história os protagonistas lutam com membros do Si-Fan – uma organização contra o pai de Shang Chi, Fu Manchu – nos esgotos, assim como o mercenário líder diz esperar a chegada de Danny Rand após atrair Shang Chi num trabalho de resgatar Neville sozinho para que uma bomba não explodisse no Parlamento. Pegando o contexto da I.R.A, organização militar irlandesa que resiste as linhas britânicas de não independência da ilha da Irlanda completa, Doug Moench envolve o Mestre do Kung Fu em ambientes de espionagem, ou trabalhos para o governo por causa de seu pai, já Punho de Ferro segue uma linha romântica.

O confronto e toda a arte de Ruby Nebres, embora seja com sombreamentos demais e foco de menos, junto com a proposta de Doug Moench desenvolver bem como o duelo é forçado, tem empolgação que dá valor ao chamamento da capa de Deadly Hands of Kung Fu #29. Se Shang Chi não tem poderes, apenas a velha e boa arte marcial aprimorada de wushu, Punho de Ferro tem a arma secreta, e a luta fica entre a emulação e a necessidade de se criar violenta para que Neville não morra. a história é o clichê legal da venda dos heróis lutando, como um crossover, mas tendo contexto fica ainda melhor.

Deadly Hands of Kung Fu #29 (EUA, outubro de 1976)
No Brasil:
Kung Fu n°23 (Bloch, 1977)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rudy Nebres
Arte-final: Rudy Nebres
Letras: Jim Novak
Editoria: John Warner
20 páginas

Dark Waters of Death!

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Antes de falar da história dessa edição é preciso relatar que Dark Waters of Death se trata de um crossover, ou um grande evento dentro da linha editorial Deadly Hands of Kung Fu. Shang Chi, Tigre Branco, Punho de Ferro e Valete de Copas, juntos por uma variedade sucessão de fatos nas edições anteriores a essa HQ, seja nas séries solo de cada personagem, seja a edição #29 de Deadly Hands que situa o porquê de Danny Rand está junto a Shang Chi para encontrar Misty Knight e serem introduzidos na narrativa do Tigre Branco.

Os eventos anteriores situam que o irmão de Hector Ayala (Tigre Branco), Filippo Ayala, faz parte de uma organização que matou o pai de Jonathan Hart (Valete de Copas), Phillip Hart, e se alia a seu irmão para impedi-lo, naquela velha frase: “mantenha os amigos sempre perto de você e os inimigos mais perto ainda”. Dessa forma a história começa com os irmãos Ayala nas famosas docas de carregamento de barcos para impedir o tráfico de ópio para ajudar na mentira de Filippo que ele estava sendo chantageado, ou que alguma bomba ia explodir se não fizesse um serviço para o tráfico de drogas. É importante entender isso, porque isso faz bastante parte do drama do Tigre Branco e da reviravolta duplamente para o leitor quanto ao Tigre Branco e quanto a Fu Machu (quem é vivo sempre aparece). Com Valete de Copas indo atrás de vingança com o tal Stryke e seus mercenários e Shang Chi com Danny pulando de um helicóptero, felizmente a arte de Joe Staton é grande o suficiente para caber tanto super-herói e tanto personagem. Há de se elogiar só isso de primeira e ainda mais pela organização do desenho num quadro, ou numa splash page. Nisso já entra também o olhar para a diagramação que quando parece perder o fio da miada entrega deformações do quadro que empolga e dramatiza a ação.

Para finalizar, é necessário comentar o roteiro de Bill Mantlo que se revira para garantir inserções de recordatórios para comentar o drama do Tigre Branco, mas também balões de pensamento e conversas durante a luta que combina bem com Joe Staton e Sonny Trinidad para não esfriar o ritmo. Ele, por sinal, é bem importante para o ato final envolvendo Filippo e a ausência de cenas de ação com Hector no descobrir da organização do irmão. Com uns ângulos precisos para demonstrar escopo e fragilidade emocional do momento, Joe Staton contribui tanto para o preparo quanto para o susto e a tragédia que Fu Manchu sempre trás como grande vilão, sobrando até um quadrinho de reação do Shang Chi para o momento. Em linhas gerais, é uma história bem afunilada dentro dos meandros urbanos e artes marciais que a periódica Deadly Hands juntou ao longo de 30 edições anteriores.

Deadly Hands of Kung Fu #31 (EUA, dezembro de 1976)
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Joe Staton
Arte-final: Sonny Trinidad
Letras: Karen Mantlo
Editoria: John Warner
40 páginas

A Força do Ódio

Between Two Hates

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Ao mesmo tempo que a essa última história de Shang Chi em Deadly Hands of Kung Fu seja essencialmente o drama do Mestre do Kung Fu que Douh Moench bem conhece como roteirista, a Força do Ódio em parte parece mais legitimar a raiva do personagem Jimi – usando a luta para se vingar e crescendo o ódio em seu coração – do que entregar um ensinamento precioso do protagonista, pois ele parece mais inocente e moralista do que solucionador de problemas que conscientemente ele sabe que chegam a ele quase de que maneira sobrenatural. Isso que no recordatório na primeira página indica, em que Shang Chi aparece pensando em sua própria jornada, mais um problema social para resolver, quem sabe mais uma conversa motivacional depois de um homem negro o salvar de levar uma garrafada e levá-lo para ver um garoto, Jimi, sendo espancado por outros três caras. O ponto é que dessa vez há uma autoconsciência narrativa que é instrumentalizada no final para mais um trágico e melancólico fim de história de Shang Chi, algo bem semelhante ao que Homem-Aranha tem em suas histórias que Stan Lee constantemente dava um final amargo, mesmo após ganhar uma batalha. Mas nem sempre Stan Lee, ou os sucessores dessa moda acertavam.

Essa linguagem de quebrar a expectativa do herói, pondo-o como imponente diante de uma situação familiar, social e policial como Shang Chi é colocado pode ser acusada de repetida dentro até mesmo da série Deadly Hands e as aparições do protagonista nas edições anteriores, mas não esse o ponto a se reclamar na última edição do título. O ponto aqui se refere a como os três fatores citados, familiar, social e policial que aparecem por uma briga de escolas de artes marciais na cidade, Silent Dragon x Takira School desconversam propositalmente para um conflito, mas quem fica confuso com isso é o herói, tornando-se mais passivo do que quando entrou na história em seus pensamentos. Dessa forma, inconscientemente, talvez, Doug Moench tão acostumado com o modo zen do seu personagem que tanto escreveu não se atentou a novos modos de criar drama e também como esses modos podem fragilizar o status quo do protagonista.

Acaba que a melancolia, elogiada nas últimas edições de Deadly Hands, se torna armadilha e os leitores as vítimas, que por um lado podem se empolgar com mais uma moral do Mestre do Kung Fu, quando na verdade ela se faz sozinha, legitimando o discurso de ódio para ele mesmo se destruir em deslegitimação, independente da participação do herói chinês. Talvez o herói mesmo seja o policial disfarçado que provocou o real culpado da briga e de mentiras entre as escolas de artes marciais e deu voz a polícia como instituição que não precisa dar sermão sobre as artes marciais serem tratadas ou não como artes, e sim fazem a coisa certa por trás dos panos de um Shang Chi inocente da vida. Realmente é uma narrativa estranha para o que Doug Moench escrevia. Não que a polícia não pode ser elogiada por um bom trabalho, porém é preciso manter a coerência, mesmo que os tons de essência de história do protagonista se preservem no discurso moral que o protagonista tanto brilhou em várias edições.

Deadly Hands of Kung Fu #33 (EUA, fevereiro de 1977)
No Brasil:
Kung Fu n°26 (Bloch, 1977)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rudy Nebres
Arte-final: Rudy Nebres
Editoria: John Warner
18 páginas

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