Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – 2X08 e 9: The Impossible Planet / The Satan Pit

Crítica | Doctor Who – 2X08 e 9: The Impossible Planet / The Satan Pit

por Denilson Amaral
229 views (a partir de agosto de 2020)

The_Beast satan doctor who The Impossible Planet, The Satan Pit

No século 42, a TARDIS se materializa na base de uma expedição enviada para descobrir a fonte de energia que permite que um planeta orbite um buraco negro. Em meio a tudo isso, estranhos eventos começam a acontecer, quando uma antiga e poderosa Entidade começa a se libertar. Continuando com a ideia de trazer episódios ambientados fora da Terra, Matt Jones nos traz com essa interessante premissa dois dos mais impressionantes episódios da história de Doctor Who.

Um problema quase que crônico do subgênero das histórias de base é a demora no estabelecimento da confiança entre o núcleo Doutor/Companion e os membros do local. Nesse tipo de episódio, mais do que em qualquer outro, as relações estabelecidas entre os personagens são um fator essencial para o andamento do roteiro, aumentando sua dinâmica e impedindo a repetição de cenas de discussão. Um dos primeiros méritos do autor está na sua habilidade de contornar esse problema ao apresentar logo no começo o forte isolamento dos personagens como justificativa para o estreitamento de laços. Mais do que surpresa ou temor em relação aos estranhos, é nítida a felicidade da tripulação em ver novas pessoas em meio a uma expedição cercada de perigos, cujo capitão tinha sido uma das primeiras vítimas.

Seguindo para além da primeira impressão, o trabalho do autor em transformar estereótipos em figuras tridimensionais, com seus próprios medos e defeitos (devidamente apontados pela Besta no começo de The Satan Pit), juntamente com a brilhante escolha de elenco, propicia que a construção dos personagens se torne algo muito mais convincente, criando outro importante diferencial para esses episódios.

Em sua estreia na série, James Strong nos brinda com uma competente direção, utilizando de pequenas inserções para fazer a construção da ameaça e criar um clima de terror que faz o público se questionar sobre a verdadeira natureza da ameaça. Os episódios conseguem alcançar um elevado nível nos aspectos técnicos, apresentando efeitos especiais consideravelmente superiores ao padrão da série até aqui, utilizando também de efeitos práticos extremamente eficientes, como os símbolos que surgem no corpo de Toby para representar e reforçar a ideia de possessão pela Besta. A cenografia é outro show à parte, desenvolvendo um trabalho visualmente soberbo, que consegue representar ambientes realísticos com enorme detalhamento.

Aqui também temos a estreia dos Ood, uma curiosa raça cujo único objetivo é servir, mas que nesse primeiro momento só está presente para dar uma cutucada na temática da escravidão (que seria retomado posteriormente em Planet of the Ood) e para servir como marionetes da Besta. Outro dos muitos trunfos do roteiro foi o desenvolvimento do conceito do vilão. A todo o momento, o elemento mais forte da Besta é a sua voz, brilhantemente representada por Gabriel Woolf (que também tinha dado voz a Sutekh, vilão do arco Pyramids of Mars), de modo que só no final podemos ver sua forma física, servindo não apenas como uma representação do Demônio como uma ideia intangível, mas como uma forma de representar que todo tipo de mal tem suas fraquezas, podendo ser confrontado e derrotado.

Continuando com a exploração da relação entre Doutor e Rose, a história reforça a evolução e as mudanças da companion, que depois de desvendar o plot de The Idiot’s Lantern praticamente sozinha e com considerável antecipação, consegue tomar as rédeas da situação, agindo com lógica e estratégia, substituindo boa parte das funções do Doutor durante seu período de incomunicabilidade no episódio final. Apesar desse enfoque maior na companion, o roteiro também faz uma ótima divisão entre os núcleos, possibilitando cenas em que David Tennant consegue mostrar toda a sua capacidade de atuação, como no monólogo do Doutor no fundo do abismo e o momento em que ele demonstra sua confiança absoluta na Rose.

Devido a sua temática diabólica, as principais referências no roteiro são relacionadas ao Tinhoso e sua morada sombria. A forma do campo gravitacional do planeta como um funil faz menção à famosa obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia e sua representação do inferno como uma sucessão de nove níveis em forma de funil, com o próprio Lúcifer no fundo. Ainda no funil, o cálculo feito pelo Doutor sobre sua força resulta em um série de três números 6, número tradicionalmente associado à Besta. O 666 ainda faz outra participação, dessa vez por meio da data da exibição original da, os dias 3 e 10 de junho de 2006, os dois sábados entre o dia 06/06/06.

Deixando de lado o Diabo e companhia, a série presta aqui algumas homenagens a Alien, o Oitavo Passageiro, um dos maiores clássicos da história do terror e da ficção científica, sendo as principais referentes ao design da base santuário, fortemente inspirado na nave Nostromo, e ao capacete do traje espacial laranja (que por sinal, faz sua estreia aqui), que apresenta semelhanças conceituais com o modelo de capacete utilizado no filme.

Marcados por um interessante diálogo com o misticismo, The Impossible Planet e The Satan Pit trazem um importante ponto de virada para a série, conseguindo equilibrar ação, mistério e suspense de uma forma inteligente por meio de um roteiro repleto de bons diálogos e digno de um longa-metragem de sucesso.

Doctor Who – 2X08 / 2X09: The Impossible Planet / The Satan Pit (Reino Unido, 2006)
Direção: James Strong
Roteiro: Matt Jones
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Danny Webb, Shaun Parkes, Claire Rushbrook, Will Thorp, Ronny Jhutti, Paul Kasey, Gabriel Woolf, Silas Carson
Duração: 45 min

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15 comentários

William O. Costa 9 de dezembro de 2018 - 21:52

Realmente esse episódio parece muito o filme à parte. Mas devo dizer que eu passei todo ele querendo que acabasse logo, não porque achei ruim, muito pelo contrário, mas porque eu estava com um medo do caramba! Eu odeio terror. Ainda assim gostei desse episódio, e principalmente do fim épico. Uso ele como propagando da série. Quando eu falo de Doctor Who pra alguém que não está na intenção de assistir eu já mando um spoiler pra despertar o interesse: “Tem um episódio que o Doutor derrota o demônio e joga ele num buraco negro”.

Agora, o que eu não entendi foi a relutância do Doutor em acreditar em coisas sobrenaturais, que existia algo antes do tempo, que o demônio exista e tudo o mais. O Doutor tem acreditar em coisas além da ciência que ele entende. Olha só, ele constantemente quer viajar com a Tardis pra algum lugar só pra ver ou pra se divertir, mas aí quando ele chega descobre que existe algum enorme problema alienígena naquele exato momento e lugar e que só ele pode resolver. Ou pior ainda, a Tardis, sem nenhuma razão aparente, manda ele pra 10 ou 100 anos de diferença do tempo que ele queria, há quilômetros de distância do lugar que ele queria, justamente onde há um enorme problema alienígena que só ele pode resolver. Se isso não é o Destino, algo sobrenatural e além da ciência que nós (e ele) compreendemos, eu não sei o que pode ser.

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Rafael Lima 10 de dezembro de 2018 - 16:43

É que é aquilo. O Doutor é um cientista, antes de tudo. Então, pra ele, é muito difícil acreditar que exista algo que a ciência não consegue explicar. O próprio fato da TARDIS ser uma nave/maquina do tempo consciente ás vezes é usado como explicação para essas aparições fortuitas do Doutor em lugares em que ele precisa estar ao invés dos lugares em que ele quer estar. Mas este ceticismo do Time Lord varia um pouco de encarnação pra encarnação também.

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William O. Costa 10 de dezembro de 2018 - 17:22

Sim, faz sentido. Mas estou ansioso pra ver como a série desenvolve esse lado com o passar das temporadas.

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Huckleberry Hound 24 de setembro de 2018 - 21:36

Minha nossa que demônio grande…MEDO!

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planocritico 24 de setembro de 2018 - 18:42

E só para ratificar o que o @luizsantiago:disqus disse, eu fui um dos caras que virou o rosto para DW quando assistiu o primeiro episódio da Nova Série. Levei ANOS para voltar e, quando voltei, amei o negócio!

Abs,
Ritter.

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Luiz Santiago 24 de setembro de 2018 - 05:14

Oh céus ahahhahahahhahahahahaha

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Seth Rollins 24 de setembro de 2018 - 00:36

Você conseguiu se conectar com a série logo no início ou isso só aconteceu na segunda/terceira temporada? Terminei a primeira há pouco tempo e confesso que foi meio complicado, já que não curti muito a estética da série e achei o próprio Doctor muito caricato, assim como a Rose também. Mas quem ainda supera é a mãe dela, que é irritante pacas lol De qualquer forma, vou ver a segunda e se eu acabar não curtindo, é porque se tornar um whovian não esteja no meu destino :/

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Luiz Santiago 24 de setembro de 2018 - 05:13

Eu me conectei com a série já no 2º episódio da PRIMEIRA TEMPORADA!
@disqus_cPdnDMpYMz:disqus acontece. Se você não está gostando da série até esse momento, dificilmente deverá gostar dela. A insistência só te irritará e afastará ainda mais do show. Sugiro deixar de lado e voltar para ele, caso tenha interesse,, daqui a uns anos. No final das contas, é como qualquer obra de arte: nem todas são para o nosso gosto ou nós não somos para o gosto de todas hehehehehe.

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Seth Rollins 24 de setembro de 2018 - 17:58

Uou. Concordo contigo e vou seguir teu conselho.

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William O. Costa 9 de dezembro de 2018 - 21:42

Depois de ter visto alguns episódios quando criança e ter a lembrança de ter gostado e depois de anos vendo fãs e críticos falarem como a série é boa, resolvi ver a série, e acabou que Rose, o primeiro episódio, já me cativou o suficiente para continuar. Isso totalmente por conta do próprio personagem do Doutor, cujo estilo eu fiquei muito fã. Mas foi no The Unquiet Dead, o terceiro episódio, que eu me conectei realmente com a série, tanto que eu odiei Aliens in London/World War Three, mas a lembrança de The Unquiet Dead me fez passar por ele tranquilamente. Mas realmente não há nada que possa agradar aos gostos de todos, e nunca bom forçar algo que não esteja gostando, muito embora haja uma grande evolução na 2ª temporada em várias coisas, ainda é a mesma série. Tem gente que me diz que não gosta de Star Wars, aí por fora eu sorrio falando que cada um tem um gosto, mas por dentro eu fico “Não. Não é verdade! ISSO É IMPOSSÌVEL!”

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Ruqui 26 de setembro de 2018 - 05:11

A primeira foi difícil pra mim, apesar de ter um ou dois eps que gosto bastante. Comecei a virar fã mesmo na segunda temporada, sendo os episódios da crítica os que me pegaram e não me deixaram abandoná-la até hoje.

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Luiz Santiago 23 de setembro de 2018 - 13:03

Eu gosto bastante desse arco, mas talvez não taaaanto quanto você. Concordo com os avanços e até com o tratamento dado ao Capeta, que acho absolutamente incrível. Mesmo assim, ainda concordo totalmente que está na lista de coisas mais impressionantes da série. A coragem de escolher o tema, o tratamento nada fácil dado a ele e o fato de colocar o Doutor e Rose de maneira segmentadas… hum… muita coisa boa, pra ignorar. Tenho problemas com The Impossible Planet, mas isso não tira a força ou a grande qualidade do arco todo. 4/5

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Denilson Amaral 23 de setembro de 2018 - 19:25

Eu já amava esse episódio e fui ainda mais influenciado positivamente, não espere nada além de elogios da minha parte toda vez que eu mencionar essa pérola kkkkkkk

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Pedro Sebastião Pereira Amaro 23 de setembro de 2018 - 11:12

Melhor episódio da temporada e um dos melhores da série inteira, me fez ver muitas coisas de ângulos diferentes.O monólogo do Doutor falando que já enfrentou panteões de deuses e demônios e se tem uma coisa que ele acredita é na Rose foi fantástico, os Oods estão incríveis e tem uma ótima relação com a Rose( que já foi uma tia da cantina), a voz da besta em si tentando e dissimulando é perfeita. Tem um momento que o Doutor diz mais ou menos assim:” se vc tivesse dito que nasceu há muito tempo em algum lugar tudo bem, mas antes do tempo, isso é impossível” e a besta diz “É nisso que você acredita Doutor?”.Também é ótimo ver a relação do Doutor com a humanidade no momento que ele abraça aquele capitão ou está no abismo com aquela mulher.Há e quando assistimos vemos a besta dando spoiler de algumas coisas.

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Denilson Amaral 23 de setembro de 2018 - 19:25

Esse episódio é uma perfeição ou não é?

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