Neil Gaiman é facilmente um dos escritores britânicos mais emblemáticos da fantasia contemporânea, e sua contribuição para o gênero em diferentes mídias é inegável, vide obras como Sandman, Belas Maldições, Deuses Americanos, entre outras. Ainda que o legado de Gaiman tenha sido abalado pelas recentes acusações de abuso sexual que sofreu, tais acusações (se comprovadas) mancham a história do artista, mas a sua obra já está fortemente enraizada na cultura popular, independente de os crimes serem comprovados ou não. Não, não se trata de levantar o velho debate “separar obra do artista”, é só uma constatação de fato. E por que trago isso para esta resenha? Pois o primeiro episódio que Neil Gaiman escreveu para a série, The Doctor’s Wife, da 6º Temporada, mesmo que longe das melhores obras de Gaiman, se estabeleceu como um dos grandes momentos da era do Décimo Primeiro Doutor e da Nova Série em geral, e com certeza sua influência será sentida. Já Nightmare In Silver, o segundo (e último) episódio escrito por Gaiman para a série, não deve gozar de tal privilégio, já que está longe de ter o mesmo cuidado que o famoso autor colocou no texto de sua primeira investida em Doctor Who.
Na trama, após Angie e Artie, as crianças que Clara toma conta como babá, conseguirem provas de que ela é uma viajante do tempo, Clara e o Doutor decidem levá-las ao maior parque de diversões da galáxia como forma de garantir o silêncio delas. Entretanto, quando a TARDIS se materializa no Parque Hedgewick, encontram o local deserto, habitado apenas por um pelotão de cadetes em treinamento de um império espacial, e por um showman decadente, que usa carcaças de Cybermen como parte de seu espetáculo. O Doutor, entretanto, sabe que qualquer coisa relacionada aos Cybermen raramente é inofensiva, e decide investigar. O Time Lord logo descobre que existe uma razão para o parque estar deserto, e que seus velhos inimigos podem ter se tornado mais perigosos do que nunca.
Nightmare In Silver possui algumas ideias bastante interessantes. A ambientação em um parque de diversões espacial sinistro, ou o conceito de uma simulação virtual maligna do Doutor, são conceitos que, por si só, já renderiam ótimos episódios. A própria noção de que os Cybermen estariam agora trabalhando com nanotecnologia também é uma noção pra lá de assustadora, tendo em vista a natureza replicante dos vilões. O roteiro de Gaiman, entretanto, parece confuso sobre que história quer contar, isso sem falar que claramente parece não saber o que fazer com as crianças que acompanham a dupla da TARDIS. Em defesa de Gaiman, esse parece ser um elemento imposto pela estrutura da temporada, já que parte do gancho do episódio anterior. Curiosamente, durante o tempo em que Clara foi Companion, houve algumas tentativas de incluir as crianças que cercam as profissões dela em algumas aventuras, com este episódio sendo a primeira de uma série de tentativas não muito bem-sucedidas.
Mas as crianças não são o único problema. A trama envolvendo o pelotão de treinamento não é completamente descartável como ideia, ainda que a maior parte dos personagens que compõem esse núcleo seja bem irritante, mas ela é desenvolvida de forma tropega na melhor das hipóteses. Quanto aos Cybermen propriamente ditos, o roteiro apresenta boas e más ideias em relação aos vilões. A habilidade de deslocamento no tempo que os androides apresentam aqui, tornando-se basicamente Cybermen velocistas, é um pouco exagerada, tanto no papel quanto na execução. Por outro lado, gosto muito da ideia do Mr. Clever, a simulação virtual do Doutor criada pelos Cybermen para atuar como o seu estrategista. Permitir que o intérprete do Doutor interprete ao mesmo tempo o herói e o vilão da história é um truque que a Série Clássica usou algumas vezes, em arcos como The Massacre of St Bartholomew’s Eve ou The Enemy Of The World, mas esta acaba sendo a única vez em que a Nova Série se permite fazer algo do gênero, o que é uma pena. Matt Smith claramente se diverte ao interpretar o Mr. Clever como uma versão do 11º Doutor que é igualmente sarcástica e esperta, mas que claramente não possui a empatia e o calor humano da versão original, com esse ato duplo de Smith sendo a melhor coisa do episódio.
Apesar do roteiro bagunçado, existem aspectos dignos de nota em Nightmare In Silver. Gosto, por exemplo, do trabalho de Warwick Davis como Porridge, o único dos personagens não regulares do episódio que não é profundamente irritante, e cuja mudança de postura a partir da reviravolta no meio do episódio é tornada natural pelo trabalho do ator. O novo design dos Cybermen, menos corpulentos e mais esguios do que de costume, também é uma ideia interessante, por se comunicar com o nosso design de evolução tecnológica, onde o avanço de nossas máquinas parece ser inversamente proporcional ao tamanho delas.
Nightmare In Silver é um episódio decepcionante, no fim das contas. Existem algumas boas ideias, mas elas são mal organizadas em uma história que parece confusa para onde quer ir. Claro, está longe de ser um desastre, e só o duelo que o Décimo Primeiro Doutor trava com a sua versão maligna virtual já é motivo o suficiente para assistir a essa história. Mas, tendo em vista a qualidade de texto que Neil Gaiman havia apresentado em seu trabalho anterior para a série, não tive como não me sentir frustrado quando os créditos do episódio rolaram.
Doctor Who- 7X12: Nightmare In Silver (Reino Unido. 11 De Maio de 2013)
Direção: Stephen Woolfenden
Roteiro: Neil Gaiman
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Eve De Leon Allen, Kassius Carey-Johnson, Jason Watkins, Warwick Davis, Tamzin Outhwaite, Eloise Joseph, Will Merrick, Calvin Dean, Zahra Ahmadi, Aidan Cook, Nicholas Briggs
Duração: 47 min.
