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Crítica | Dragão Vermelho, de Thomas Harris

por Leonardo Campos
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A franquia cinematográfica que envolve Hannibal Lecter, também levado ao teatro e para o formato seriado televisivo, é um fenômeno que ultrapassou as suas referências literárias e ganhou a cultura pop de forma avassaladora. Muita gente o conhece primeiro pelas vias narrativas da era da reprodutibilidade técnica, para depois, adentrar no universo literário de Thomas Harris, escritor dos quatro livros que radiografam figuras ficcionais tão cristalizadas em nosso “imaginário cultural”. Tudo começou com Dragão Vermelho, em 1981, seguido de O Silêncio dos Inocentes, de 1988, retomado em Hannibal, de 1999, encerrado em Hannibal – A Origem do Mal, sequência prévia de 2004. O autor, depois de ensaiar a escrita no romance Domingo Negro, no final da década de 1970, adentrou numa pesquisa profunda nos meandros da Unidade de Ciência Comportamental do FBI para escrever a primeira incursão de Hannibal Lecter na literatura, uma participação breve, mas pontual, preambular para a sua maior dominância física e psicológica nas histórias seguintes.

A edição conferida, publicada no Brasil pela Editora Record, é apresentada pela tradução de José Sanz, texto que ao longo de suas 351 páginas, falha apenas ao intitular o psicopata central da história, conhecido por Fada do Dente, de “Gay Dentuço”, escolha equivocada que ainda não consegui processar em meu setor de inteligência e interpretação. A falha, por sua vez, não impede a história de deslanchar, escrita por Thomas Harris com afinco, tendo como base, a sua experiência no jornalismo policial durante alguns anos, antes de se tornar escritor renomado e roteirista de cinema. A história em si é potencialmente forte, traz motivações detalhadas para os personagens, um invólucro de investigação policial e suspense psicológico que ora é narrado com uma fluidez incrível, ora se perde um pouco em capítulos e alguns diálogos que não acrescentam muita coisa para os pontos nevrálgicos da trama. Essa é uma característica geral da obra de Thomas Harris, cabe ressaltar, algo que será encontrado também nos romances vindouros.

A trama do romance conta que em 1975, Will Graham, um agente do FBI conhecido por sua eficiência e audácia, capturou o psicopata Hannibal Lecter, uma “monstruosa” figura sofisticada que possui o hábito de matar as suas vítimas e devorá-las. Pela aderência ao canibalismo, prática que não condiz com os nossos códigos de civilidade, ele se tornou um homem a ser temido, preso num circuito de segurança máxima da prisão onde ficou instalado para cumprir a sua pena. A ação resultou na prisão, mas trouxe consequências graves para o agente, ferido gravemente durante o processo, haja vista a noção de anatomia compreendida pelo “algoz”. O trauma físico e psicológico o fez sair de cena e se dedicar ao novo relacionamento com a esposa Molly, mulher acompanhada de um filho que se tornou parte de sua família. Uma nova crise se estabelecerá após quatro anos, quando um assassino em série, posteriormente apelidado de Fada do Dente, espreita e mata aleatoriamente as suas vítimas. Primeiro foi a família Jacobi e depois os Leeds, em Birmingham e Atlanta, respectivamente. O agente Jack Crawford, mentor de Will, o convoca para o retorno.

Depois de muito relutar, sem o apoio de Molly, Graham retorna ao trabalho e mergulha profundamente na investigação. Ele radiografa a cena do crime e depois adentra pelos corredores da prisão para visitar Hannibal Lecter, a mente psicopata que o ajudará, num processo mútuo de colaboração, a encontrar pistas que forneçam maiores detalhes sobre o assassino que anda aterrorizando a nação. Enquanto Lecter e Graham discutem pontos importantes da análise do perfil do assassino, um embate psicológico se estabelece entre ambos, algo que atravessa pouco os limiares de cada um e será mais delineado na relação com Clarice Starling, no romance seguinte. Aqui, Hannibal Lecter recebe é premiado com alguns privilégios literários para fornecer a ajuda que o FBI precisa, informações que apenas uma mente tão criminosa e vil pode vislumbrar. E assim a história avança: Francis Dolarhyde, o Fada do Dente, é um chefe de produção numa empresa de processamento de filmes. Descobriremos mais adiante que ele tinha acesso aos costumes das famílias assassinadas violentamente por assistir aos seus filmes enquanto os processava.

Obcecado pela figura do O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida de Sol, de William Blake, Francis Dolarhyde se mostra uma figura observadora, sexualmente perturbada e com personalidade violenta, constantemente em busca de sua figura alternativa, o dragão vermelho que o domina psicologicamente e o guia em suas ações macabras. Criado por Blake por volta de 1805, a tela é uma interpretação encomendada para os textos bíblicos, sendo o mencionado dragão uma imagem referente ao conflituoso Apocalipse, desfecho das “escrituras sagradas”. Ao passo que a narrativa avança, a figura se torna cada vez mais proeminente para Francis Dolarhyde, num jogo de referências com o campo das artes visuais que também contemplaremos com outras obras artísticas nos próximos romances de Thomas Harris para o universo de Hannibal Lecter. Próximo ao desfecho, a relação do assassino com a obra de arte é elevada aos extremos. A sua visita ao Museu do Brooklyn termina no ataque contra duas funcionárias da instituição e no devorar da tela original, num ato de consumo físico e simbólico da criação de William Blake, agora parte integrante do organismo de Francis Dolarhyde em seu momento de grande euforia.

Antes, no entanto, há mais alguns pontos que merecem destaque. Hannibal e Fada do Dente trocam correspondência, tendo o endereço de Will Graham fornecido pelo canibal para que o psicopata solto cometesse as suas travessuras insanas com o responsável por encarcera-lo. Dentre os obstáculos, a mídia exerce um poder absurdo até parte da narrativa, representada pela figura de Freddy Lounds, jornalista de um tabloide que vive de reportagens sensacionalistas e vulgares. A sua figura é tão ardilosa e vil que num ato calculado para causar polêmica, assume um texto sobre as opiniões do agente Graham sobre o Fada do Dente, material que ao chegar nas bancas, enfurece o psicopata que impedido ainda de atacar Will, descarrega toda a sua ira em Lounds, numa das passagens mais violentas e atrativas do romance no que concerne ao suspense e ao ritmo frenético das coisas. Sem dose alguma de piedade, Francis Dolarhyde em sua encarnação do dragão de William Blake destrói esse oponente midiático com fogo, numa representação literal da figura artística que é alvo de sua obsessão.

Ademais, como destaque, temos a figura de Reba McClane, a jovem cega que despertará sentimentos em Dolarhyde, personagem responsável pelo seu mergulho na incerteza de continuar os atos monstruosos ou sublimar de vez o dragão. Frederick Chilton se revela uma figura desagradável aqui, mas será delineado com maior destaque na história seguinte. Isso não impede que o texto deixe de descrevê-lo, desde já, como uma pessoa sem escrúpulos.  Entre cercos que se fecham, incêndios e perseguições, com final trágico, mas não fatal, para o agente Will Graham, Dragão Vermelho encerra a sua narrativa de maneira satisfatória, mesmo com o “clímax” prolongado demais, outra característica comum em suas publicações de Thomas Harris. Levado ao teatro em 1996, sob a direção de Christopher Johnson, ao cinema em 1986 e 2002, nos bons desempenhos narrativos de Caçador de Assassinos e Dragão Vermelho, de Michael Mann e Brett Ratner, além de ter fornecido alguns conflitos para a série de TV criada por Bryan Fuller, o romance de encerra a sua trajetória com uma carta de Hannibal Lecter para Will Graham, texto que revela a crueldade envolta na simpatia e sofisticação intelectual de um personagem forte, com maior destaque no próximo capítulo da “saga”, O Silêncio dos Inocentes, publicado mais adiante e com foco em outra investigação, desta vez, capitaneada pela audaciosa e contida Clarice Starling.

Dragão Vermelho (Red Dragon/Estados Unidos, 1981)
Autor: Thomas Harris
Tradução: José Sanz
Editora no Brasil: Record
Páginas: 351

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