Crítica | Emitaï (1971)

estrelas 4,5

Senegal é um país da costa atlântica africana que, durante séculos, lutou contra a violência e a exploração europeia, iniciada pelos portugueses no século XV e chegando ao seu fim apenas com a separação do país da Federação do Mali (criação territorial francesa que unia o antigo Sudão Francês – atual Mali – e Senegal) em 1960. Durante esse período, além de Portugal e França, o Senegal teve como colonizadores os Países Baixos e a Inglaterra. A exploração da mão de obra escrava, o alistamento forçado aos exércitos colonizadores, a pilhagem, o massacre de rebeldes e o etnocídio são apenas alguns dos males causados pelas nações europeias ao país africano.

O cinema senegalês tem na pessoa do escritor e cineasta Ousmane Sebène a sua pedra angular. O realizador – que lutou na Segunda Guerra Mundial e teve lições de cinema com soviético Mark Donskoi – expunha de maneira crítica e nada eufemizada a situação do continente africano minimizadas nas questões políticas e sociais da pós-independência em seu país. Desde O Carroceiro (Borom Sarret, 1962), curta-metragem que é considerado o pontapé inicial para o cinema da África Subsaariana realizado por um diretor nativo, as produções senegalesas e africanas receberam a influência do realismo político de Sembène, realismo que se tornou um modelo continental, com resquícios de forma e conteúdo percebidos até hoje.

Em Emitaï (1971), Sembène trabalha com a questão do alistamento senegalês forçado pela França, transformando os nativos em inimigos de seu próprio povo, fazendo-os reprimir, prender e atirar em qualquer rebelde. O filme aborda o período de transição do governo de Pétain para De Gaulle e as políticas internas de imposições fiscais e colonização em Senegal. No filme, o Exército solicita aos cidadãos o pagamento de imposto per capita pela produção de arroz, ordem que é desobedecida pelas mulheres, que resolveram resistir, escondendo toda a colheita. A narrativa em tom de crônica nos apresenta o cotidiano da vila de Casamance, com o seu Conselho de Anciãos, o plantio e colheita do arroz, a resistência das mulheres e o final que critica veementemente a repressão colonial aos africanos. Emitai está repleto de motivos cinematográficos tipicamente africanos, o que dá uma maior força antropológica e realista à obra.

Mesmo trabalhando com questões políticas e sociais, Sembène não se esqueceu da religião ou da ligação de seu povo com a religião nativa e os ancestrais. Em boa parte do cinema da África negra, a questão da ancestralidade tem seu lugar garantido. No documentário burquinense Memória Entre Duas Margens, essa questão se mostra vital para a história e para a identidade do povo de Burkina Faso, por exemplo, e assim também é para boa parte do continente. A fantasia desse mundo ancestral se une ao mundo político em Emitaï, numa mistura tão incrível (porém menos idílica) que me lembrou fortemente o moçambicano João Ribeiro em O Último Voo do Flamingo, realizado décadas depois. A interferência dos deuses define toda uma apostura política aqui. Até na forma, com coloração uniforme dos takes, o diretor conduziu a “sequência dos deuses” em um ponto à parte do “mundo real” ali vivido. Não há uma separação bem definida entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; entre deuses e homens. Todos estão intimamente ligados, formam um corpo orgânico, embora, de certa forma, disperso.

Emitaï é um filme sociopolítico e antropológico que contém o gérmen da resistência africana e questiona, acima de tudo, o poder como algo instituído e sustentado através do discurso persuasivo do medo e da exploração. A predominância do silêncio em algumas cenas ajudam-nos a absorver melhor essa posição do diretor frente à realidade. O que mais nos chama a atenção é a mudança na direção de arte do início do filme para o final, começando com uma compleição tribal e culminando com um Estado de guerra ou burocrático estabelecido. Emitaï é um grande filme e se não emplaca como uma obras-prima de Ousmane Sembène, é por pouco, muito pouco, talvez apenas pelo mínimo subjetivo.

Emitaï (Senegal, 1971)
Direção: Ousmane Sembène
Roteiro: Ousmane Sembène
Elenco: Robert Fontaine, Mcihel Remaudeau, Pierre Blanchard, Andoujo Diahou, Ibou Camara
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.