Crítica | Filmes Que Marcam Época – 1ª Temporada

Filmes Que Marcam Época é o spin-off mais do que natural da excelente série documental Brinquedos Que Maram Época, de Brian Volk-Weiss e distribuída pelo Netflix. A excelente ideia de contar as histórias de “origem” de diversos brinquedos clássicos, de Barbie até Power Rangers, passando por Star Wars, Lego, Hello Kitty e Comandos em Ação, ganhou, até o momento, três maravilhosas temporadas que mesclam à perfeição valioso conteúdo informacional com uma narrativa dinâmica e cheia de humor que é simplesmente impossível de largar. A transposição desse conceito para produções cinematográficas, portanto, era uma consequência óbvia e mais do que bem-vinda.

A principal diferença entre um documentário sobre filmes e outro sobre brinquedos é que, ao passo que pouco é normalmente conhecido sobre as origens dos brinquedos, muito é conhecido sobre os bastidores das mais variadas obras audiovisuais. Afinal de contas, existem documentários como Francis Ford Coppola – O Apocalipse de Um Cineasta sobre o literal inferno que foi produzir Apocalypse Now, o enervante Perdido em La Mancha contando a saga de Terry Gilliam para tirar O Homem Que Matou Dom Quixote do papel, Dias Perigosos – Realizando Blade Runner sobre o enorme esforço coletivo para se colocar um filme visionário na lata e Duna de Jodorowsky, sobre um filme que nunca foi. E esses exemplos, claro, nem arranham a superfície do que é oferecido por aí, fazendo com que Brian Volk-Weiss tenha que efetivamente tentar trazer algo novo para chamar atenção para sua série.

O que ele faz, em primeiro lugar, é selecionar obras icônicas com problemas de bastidores interessantes, mas que não são de conhecimento comum do público em geral. E as escolhas foram realmente perfeitas – Dirty Dancing, Esqueceram de Mim, Os Caça-Fantasmas e Duro de Matar – todas obras bem diferentes entre si, de orçamentos não muito altos, mas que, contra todas as probabilidades, estouraram as bilheterias e tornaram-se símbolos de toda uma década e que são até hoje cultuados. Depois, ele pega sua fórmula que é basicamente contar uma história real com tom cômico ajudado pela ótima narração de Donald Ian Black sem, porém, ser escravo absoluto de um modelo. O resultado, portanto, é inconfundivelmente algo que vem de Brinquedos Que Marcam Época, mas sem a mesma agilidade e velocidade da série original, o que, no caso, é uma boa notícia, já que respeita os entrevistados, por vezes grandes nomes da indústria como Chris Columbus e Dan Aykroyd, e suas histórias mais alongadas e com detalhes intrincados.

Também como em Brinquedos, Volk-Weiss é mestre em escolher uma forma específica para abordar cada criação. Em Dirty Dancing, o tom é mais melancólico e emocionante em razão da morte prematura de Patrick Swayze em 2009 e seus conhecidos desentendimentos com Jennifer Grey desde a época de Amanhecer Violento, três anos antes. Além disso, há uma interessante disputa sobre como o filme tomou a forma que tomou, depois que seu título foi pensando antes de seu conteúdo, contando inclusive com visitas ao hotel que fez vez do resort em Catskills na obra.

Por sua vez, o foco de Esqueceram de Mim é em como um filme inicialmente produzido pela Warner, acabou tornando-se produção da Fox e como a conjunção astral de um ator mirim sem experiência, com um diretor também razoavelmente inexperiente – além de um equipe técnica verde – criou um fenômeno das bilheterias da época, catapultando não só Macaulay Culkin, como também todos os demais envolvidos ao estrelado instantâneo. Os detalhes de como a famosa casa foi escolhida e como seu interior foi trabalhado, além do que os stunts do filme representaram para a profissão do dublêe e como a famosa cena da loção de barbear acabou sendo criada são sensacionais cerejas no bolo capazes de arrancar sorrisos nostálgicos de qualquer um.

O capítulo dedicado a Os Caça-Fantasmas, por sua vez, gira em torno do impossivelmente curto prazo de 10 meses para se produzir e lançar o filme com um orçamento que simplesmente não condizia com a quantidade de efeitos necessários. A correria frenética, os efeitos criados por dissidentes da ILM à toque de caixa e o roteiro, que era originalmente somente de Dan Aykroyd, sendo constantemente reescrito, transformam o episódio quase que em uma história tensa, de arrancar os cabelos e, de certa forma, explica alguns problemas que a obra inegavelmente tem, mesmo tendo feito o sucesso que fez.

Finalmente, em Duro de Matar, o símbolo máximo dos filmes oitentistas de ação e o melhor filme de Natal já feito (se não concorda, você está errado!), a abordagem de Brian Volk-Weiss é não ter um ponto focal. Sim, há destaque para a figura humanizada do brucutu típico da década e para o fato improvável de que Bruce Willis vinha da televisão, quase um tabu da época, mas a grande verdade é que este episódio é ao mesmo tempo o mais cômico de todos – o que rima bem com o filme si – e o que mais é estruturado ao redor de making ofs que já vimos por aí. Além disso, de todas as quatro produções, não se pode dizer exatamente que Duro de Matar teve problemas sérios na produção, pelo que o resultado final, apesar de muito interessante, é o menos diferente e chamativo de todos.

Filmes Que Marcam Época é outra gostosura que Brian Volk-Weiss traz para a telinha com fluidez, simpatia e muita pesquisa, além de uma bela caçada a entrevistados realmente relevantes para cada produção. Espero que o showrunner já esteja preparando a 2ª temporada e, também, outros spin-offs. Afinal, a cultura pop poderia se beneficiar e muito de Músicas Que Marcam Época, Quadrinhos Que Marcam Época, Séries de TV Que Marcam Época e assim por diante.

Filmes Que Marcam Época – 1ª Temporada (The Movies That Made Us, EUA – 29 de novembro de 2019)
Desenvolvimento: Brian Volk-Weiss
Direção: Brian Volk-Weiss
Elenco: Donald Ian Black (narrador)
Com: Eleanor Bergstein, Mitchell Cannold, Linda Gottlieb, Wayne Knight, Kenny Ortega, Chris Columbus, Raja Gosnell, Julio Macat, Devin Ratray, Daniel Stern, William Atherton, Dan Aykroyd,
Steve Johnson, Frank Price, Karen Rea, Ivan Reitman, Mark Bryan Wilson, Bonnie Bedelia, Jackie Burch, Steven E. de Souza, John McTiernan, Reginald VelJohnson, De’voreaux White
Duração: 45 min. a 51 min. por episódio (4 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.