Crítica | Fome de Viver

Uma das formas de subverter, renovar ou propor um novo olhar para um gênero é fazer aquilo que todo bom e desafiador filme faz: quebrar regras. Em Fome de Viver, (1983), Tony Scott abraça esse papel de romper alguns padrões e nos entrega uma história intimista e um tanto dividida entre (alguns dos) mitos de vampiros e o dia a dia desses indivíduos, destacando aqui a personagem de Catherine Deneuve (Miriam), a quem conhecemos já na abertura da obra, em uma boate, com a banda Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead. Na mesma cena também encontramos John (David Bowie), o parceiro de Miriam, e é em torno desse casal que o roteiro — baseado na obra de Whitley Strieber — irá desenvolver um tipo diferente de sugadores de sangue.

Esse contexto diferente chama imediatamente a atenção do público porque o diretor não se contenta apenas em cercar os vampiros com uma novidade nas falas ou no enfrentamento de situações não necessariamente recorrentes para eles. De modo curioso, temos uma cama científica sendo desenvolvida em paralelo e um modo de matar e se alimentar também bem diferente, parte do grande diferencial do filme: a direção. Tony Scott se vale de cortes muito rápidos e uma estética neogótica que flerta com o videoclipe e deixa o espectador inquieto, ansioso, tentando interpretar os sinais e querendo ver o passo a passo até a chegada da carnificina, que ocorre inicialmente no meio de uma cena de sexo editada em contraponto ao representar duas coisas: a abordagem de um homem e de uma mulher diante de novos parceiros e a sede de um vampiro e uma vampira sendo “coreografada”.

Como a fotografia de Stephen Goldblatt valoriza o estilo neogótico proposto pelo diretor, temos em Fome de Viver um filme sem concessões visuais. O azul é o filtro marcante em toda a obra e mesmo as pequenas exceções de cor acabam se ligando a sequências onde esse mergulho na escuridão, numa espécie de melancolia eterna, reina absoluto. Embora o roteiro não ajude muito a desenvolver esse aspecto dos personagens, a cor, a excelente direção de Tony Scott e o envelhecimento prematuro de John (palmas para a equipe de maquiagem!) acaba prestando todo o serviço, mostrando o lado não tão louvável de se viver para sempre. Aos poucos, o roteiro tenta fazer com que o público ligue as pontas através de migalhas visuais, em uma belíssima cena com David Bowie tocando violoncelo, representando o momento em que ele é transformado por Miriam, o início de um amor de duraria séculos e que mais adiante nos faria questionar a postura da vampira mais velha, se ela fazia o que fazia por amor ou pela eterna fome de viver, numa ação puramente egoísta.

O que não se conecta bem ao filme é a mistura entre pesquisa científica e mitologia/simbologia egípcia. Em diversos momentos temos a pausa da história para a mostra de um e outro lado, com comportamentos estranhos de animais que ficam apenas na sugestão ou tragédia visual, mas que o roteiro não dá um mínimo passo para que aquilo faça um real sentido para os personagens. Embora em menor grau, o mesmo se dá com o pingente em forma de Ankh, símbolo egípcio da vida eterna ou da vida após a morte. Há uma incômoda confusão ou incompletude entre essas duas áreas e a vida do casal protagonista, o que não atrapalha totalmente a sessão, mas tem o seu peso negativo. Na reta final, essas relações vão se tornando mais difusas, mas não desaparecem, e em vez de aproveitar a oportunidade para dar um maior suporte à mitologia proposta para os vampiros do filme, mais alguns mistérios são expostos, com a direção mantendo o bom nível e o ritmo do filme se arrastando muito mais do que deveria.

A marca de fantasia ou até de poesia visual está mais forte em Fome de Viver do que o horror ou o romance gótico, abordado em duas sexualidades, com destaque para a bela cena erótica entre Susan Sarandon e Catherine Deneuve. Diante desta visão geral é que podemos lidar melhor com o que acontece no fim da película, com a “cobrança dos anos” vindo para a antiga vampira e culminando em um confuso (mas não totalmente incompreensível) encerramento. Uma obra marcante pelo tom e pela curiosa demonstração dos vampiros lidando com a ideia de vida eterna. O primeiro filme importante de Tony Scott.

Fome de Viver (The Hunger) – Reino Unido/ EUA, 1983
Direção:
 Tony Scott
Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas (baseado no livro de Whitley Strieber)
Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Cliff De Young, Beth Ehlers, Dan Hedaya
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.