Crítica | Gente Boa da Roça, de Flannery O’Connor

Existe algo mais fofo do que o estereotipado ateu militante? Falo daqueles que, do alto da empáfia que só Nietzsches, Marxs e franceses afins engendram, se deliciam com o brado niilista e amam “discutir” religião – mas só aquela parte mais sociológica, que insiste em chutar o cachorro morto com frases de efeito: “ópio do povo”, “platonismo para pobres”, “pastor é tudo ladrão”, “pagar dízimo é alienação” etc.

Restassem eles nos nossos imaginários, teríamos apenas uma caricatura já ultrapassada. Mas ateus militantes brotam do bueiro – e de salas de aula mais riquinhas. De uns 12 até uns…50 anos de idade, o radicalismo morno desses tipos sempre se encarna em pessoas que exalam desespero. É muita “mente aberta”, é muita “lucidez”! Se mar calmo nunca fez bom marinheiro, o mar agitado deve ser forçado em um processo de auto-hipnotização que não raramente pouco se lixa eticamente para o próprio small platoon.

Por que esta longa e venenosa introdução? Porque Flannery O’Connor (1925-1964), uma das maiores contistas da literatura ocidental, eleva o retrato desta cômica figura do ateu revoltado a um patamar inebriante em Gente Boa da Roça. Jogando tal figura de um lado ao outro, a escritora consegue, em pouco mais de vinte páginas, traçar um percurso que alterna o sombrio e o hilário capaz de enganchar o leitor e não soltar mais.

O’Connor narra a história de Allegra (Joy, no original), filósofa de 32 anos que aos 21 trocara seu belo nome por Hulga. Essa descrição nem tangencia o cerne do conto, mas já serve para realçar o fiel realismo com que a escritora aborda suas personagens – uma filósofa metida e mesquinha com problemas de identidade era tão real nas fazendas da Geórgia de 1955 quanto na zona Oeste da São Paulo de 2019. Fato mais importante é que Hulga era “loura e corpulenta, mas com uma perna de pau”. Guardemos esta perna de pau, por enquanto.

Chega então um vendedor de bíblias bem-educado de nome Manley Pointer. Visto como “gente boa da roça” por Mrs. Hopewell, mãe de Hulga, o rapaz aparentemente se encanta pela doutora em filosofia. Combinado o encontro na porteira às dez horas, o sutil show de Flannery começa: em um bem ritmado vai e vem, o jogo de sedução expõe a ingenuidade da moça enquanto nubla as reais intenções do rapaz.

A narração é toda feita do ponto de vista da garota. Enquanto ela se imaginava dona do processo de sedução, suspirando desdenhosamente que não acreditava em Deus na face constrangida daquele suposto devoto, olhado com certo ar de deboche, ironia e piedade pela filósofa, O’Connor pontua pequenos indícios de que nem tudo é o que parece. Talvez a filósofa não desprezasse tanto a salvação. Talvez sua filosofia niilista fosse niilista até aparecer…um niilismo mais forte, mais cínico, mais imoral.

“Sou uma dessas pessoas que, vendo através, veem o nada”, diz Hulga em certo momento. O’Connor, é bom lembrar, revestia seus contos com um intenso catolicismo romano não tão visível quando se olha apenas o estilo gótico sulista (William Faulkner como exemplo mais conhecido), capaz de fazer cair o raio do grotesco em meio aos cenários mais bucólicos possíveis. É ao focar no olhar de Hulga que ela conduz seu leitor a cair na armadilha – só que tal armadilha não é a velha moralista, pobre e reativa. A Síndrome de Rocket Raccoon – se me permitem essa nobre referência – indica um caminho final a dar inveja ao humor negro dos irmãos Coen. O’Connor vê o nada de sua personagem, mas o pinta com a típica veste da arrogância ingênua que ela pensa ver exatamente em todo e qualquer outro ser humano.

A virada é fatal. “Você então não é gente boa da roça?”, murmura Hulga, “quase em tom de súplica”. Sua pregação acadêmico-niilista, elegantemente martelada por todo o conto, é completamente aniquilada na síntese de três respostas do vendedor, que propositalmente omito deste texto. Para além deste núcleo que se torna central, Gente Boa da Roça é um clássico de Flannery O’Connor pelo cuidado que a autora tem com Mrs. Hopewell, já citada aqui, e Mrs. Freeman, inquilina de Mrs. Hopewell que, ao final da obra, igualmente cria um contraste com a atitude da mãe de Hulga, adicionando uma bem-vinda camada à discussão sobre a verdadeira orientação do título da obra.

Se Hulga volta a ser Joy Hopewell – nome pra lá de sugestivo – não cabe a O’Connor afirmar expressamente. Pessoalmente, diria que sim, o que não é pouca coisa para uma filósofa de 32 anos. Mais importante é que o ritmo do conto permite que os arabescos ali criados gerem camadas e mais camadas de reflexão sobre temas simples, como a hipocrisia. Da mais banal crítica ao canalha e mentiroso que usa o nome de Deus para fins escusos, Flannery O’Connor escala rapidamente ao paroxismo que tal figura causa ao deixar uma racional filósofa literal e simbolicamente manca e sem chão.

Uma coisa é certa: quem melhor dialoga com o niilismo, seja em literatura ou em filosofia, são (quase) sempre autores cristãos – para a raivinha inócua de qualquer ateu militante.

Gente Boa da Roça (Good Country People, publicado em A Good Man Is Hard To Find and Other Stories, EUA – 1955)
Autor: Flannery O’Connor
Editora original: Harcourt, Brace and Company
Datas de publicação: 1955
Editoras no Brasil: Nova Fronteira e Cosac Naify
Datas de publicação no Brasil (Nova Fronteira – versão atual): setembro de 2018
Tradução (edição atual da Nova Fronteira): Leonardo Fróes
Páginas (edição atual da Nova Fronteira): 224 (Um Homem Bom É Difícil De Encontrar e outras histórias); 22 (Gente Boa Da Roça).

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.