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Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

por Ritter Fan
248 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carrie e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

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15 comentários

Andries Viljoen 14 de janeiro de 2021 - 10:50

Um contraste tão bruto e genuíno entre a execução gloriosa e digna de Haqqani e o assassinato aleatória e humilhante de Max. Comovente e também realista.

O personagem mais subestimado de Homeland, sempre dado como certo … Não para nós, Max. Não para nós… Estou tão triste. Descanse em paz. Max! Você tem sido um homem muito gentil e um herói das sombras!
Isso foi de partir o coração. Sem falar sobre a morte de Brody, é claro. Nenhum deles merecia seu destino; Fara, Astrid e Ayan incluídos. O que fizeram com Quinn na 5a e 6a temporada foi outra coisa. Eu não concordo com o desfecho do personagem além de não iniciar e finalizar seu romance com Carrie.
Além de não ter tido uma romance com Astrid, que realmente ama o cara – Isso foi o pior!

Mathison é um vulcão de caráter emocional sempre disposto a se sacrificar pelo país (e acabar em gulag russo entre outros) é definitivamente umam viúva negra… Sim! Ela é perigosa, louca e causa a morte de muitas pessoas, principalmente dos homens.

Por isso, acham que Carrie é uma sociopata que deveria morrer no final, dadas todas as pessoas próximas que ela destruiu.
Já outros ficam confiantes de que Carrie pague todas as últimas contas no último ato!

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Jordison Francisco 17 de dezembro de 2020 - 14:34

O título “Threnody(s)” pode ser confuso para alguns. Um threnody é uma “canção de lamentação para os mortos”. E houve duas mortes graves nesse capítulo. A sensação é que não serão as duas últimas.

Hayes menciona como uma missão de resgate fracassada feriu Jimmy Carter. É uma referência à crise de reféns do Irã em 1980, que muitos, incluindo o próprio Carter, acreditam que o perderam na eleição mais tarde naquele ano.

Descanse em paz, Max Piotrowski. O sempre confiável amigo de Carrie Mathison está morto, baleado por soldados talibãs depois que o presidente dos EUA decidiu que ele era dispensável. Até a Carrie sabe que sempre tomou o pobre Max como garantido. Ele era uma ferramenta maravilhosa para os escritores de Homeland desde a primeira temporada, quando ele foi apresentado como o cara que grampeou a casa de Nick Brody. Desde então, Max estava sempre lá quando os roteiristas precisavam de alguém para fazer algo técnico, ou quando Carrie só precisava de um favor. Ele monitorou Quinn em seu apartamento no Brooklyn, se infiltrou em uma operação de marionetes, e sua última missão envolveu encontrar a verdade sobre o assassinato de dois líderes mundiais. Ele é o tipo de cara que não só não recebe as manchetes, e nem sequer é mencionado na história, e ainda assim ele desempenhou um papel fundamental em muitos dos grandes eventos mundiais na história da serie. E o show sentirá falta dele.

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Jordison Francisco 26 de outubro de 2020 - 21:40

Carrie Mathison tornou-se a caçadora e a caçada. Sob suspeita de ter sofrido lavagem cerebral durante sete meses em um Gulag de espiões administrado pelos russos, Mathison enfrenta as dúvidas de seus colegas, bem como suas próprias suspeitas de que talvez ela não possa ser totalmente confiável.

A série realmente vem em círculo completo – Carrie, que estava incerta se ela poderia confiar no homem por quem ela se apaixonou(Nicholas Brody) de verdade, acaba ficando insegura se ela pode mesmo confiar em si mesma.

Saul continua sendo o mentor de fala mansa de Carrie, e também uma das poucas pessoas na Agência que não só reconhece seu brilho – todos no show o fazem – como também encontrou uma maneira de aturar toda a impulsividade e intensidade que vem com ele. Saul pode ser ainda mais esperto do que Carrie: seu talento para ganhar a confiança das pessoas que ele interroga e sua habilidade de montar um quadro geral a partir de pequenos detalhes o ajudaram a prender vários adversários internos e externos desse show. Infelizmente, seu workaholismo custou-lhe o casamento com Mira.

Carrie sempre estúpida dormindo com os inimigos – Dante, Yevgeny, Alexander!! Ter um diploma universitário não significa que uma pessoa tenha bom senso. Carrie não tinha muito bom senso e usar seu bipolar para isso é uma desculpa.

Por isso, ficamos imaginando se como um caso grave de Síndrome de Estocolmo fez Carrie trair seu país.

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Jjoao Melo 11 de abril de 2020 - 14:27

Parabéns pelos textos sobre esta temporada 8. Você escreve muito bem mesmo!!! Depois que vejo cada episódio leio você e evidencio que seu texto realmente possui uma qualidade ímpar.

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planocritico 11 de abril de 2020 - 15:00

Obrigado, @jjoaomelo:disqus !

Volte sempre!

Abs,
Ritter.

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Davy Barbosa 2 de abril de 2020 - 23:03

A série esta dando a entender que Carrie está sendo aliciada por (um momento para eu copiar o nome dele) Yevgeny. Apesar de ser muito difícil isso dar certo uma vez que ela não tem mais a confiança da CIA. Vamos ver no que vai dar.

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planocritico 2 de abril de 2020 - 23:19

Sim, está dando a entender isso e que esse processo de aliciamento começou naqueles sete meses em que ela passou na Rússia. Mas não tenho ideia se é isso mesmo, uma dúvida parecida com a que originalmente tivemos com Brody lá na 1ª temporada.

Abs,
Ritter.

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Davy Barbosa 3 de abril de 2020 - 10:46

Agora pensando como Carrie é muita esperta, quem acaba sendo aliciado é o Yevgeny. A série perderia todo sentido se ela se virasse contra a América. Outra coisa que já fica difícil de acreditar é se ela vier a trabalhar para a CIA, uma vez que cada temporada tem que achar uma desculpa para ela ser encaixada em um plot.

Abs Ritter.

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planocritico 3 de abril de 2020 - 13:54

O bacana é a dúvida sendo formada em nossas mentes, assim como no caso de Brody. Mesmo que ela tenha sofrido lavagem cerebral, tenho certeza que ela dará a volta por cima, nem que isso tenha que significar a morte dela.

Abs,
Ritter.

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giovanibarros 3 de abril de 2020 - 23:53

também acho que a Carrie morre nessa temporada.

planocritico 4 de abril de 2020 - 00:27

Será corajoso se fizerem isso. Mas ao mesmo tempo muito coerente.

Veremos!

Abs,
Ritter.

Matheus 31 de março de 2020 - 15:59

Ótima crítica! Me ajudou a organizar os pensamentos sobre o último episódio. Acredito que a caixa preta pode revelar alguma sabotagem da torre de comando. Ainda não me convenci que aquele soldado lá que havia trocado as coisas de última hora não tenha sido ordenado pela alta cúpula dos EUA que queriam acabar com essas negociações de paz.

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planocritico 31 de março de 2020 - 17:15

Obrigado.

Eu obviamente pensei em sabotagem, mas a questão é que, pelo que tem sido mostrado, não existe essa “alta cúpula”. O presidente atual parece realmente ter sido pego de surpresa e ele não me pareceu estar, de antemão, de conchavo com mais ninguém. Se aparecer um grupo secreto qualquer a essa altura do campeonato, vai ficar muito estranho.

Abs,
Ritter.

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Jose Claudio Gomes de Souza 31 de março de 2020 - 14:26

Ritter, a entrada em cena do Zabel e a importância que ele ganhou nesses momentos finais, realmente mereciam um desenvolvimento bem melhor. Também fiquei incomodado com isso. Espero ansioso pelo fim que darão à Carrie. Mas, infelizmente, não tenho muitas esperanças de que seja um final feliz. Com certeza ela será a responsável por evitar a guerra ao apresentar a caixa preta do helicóptero que, na minha opinião, vai mostrar que foi um acidente mesmo, alguma falha mecânica.

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planocritico 31 de março de 2020 - 14:35

O Zabel é um personagem necessário, mas ele foi jogado na temporada sem preparação alguma. Uma mácula em uma temporada até agora muito boa.

Sobre Carrie, também não vejo final feliz ali não. Nem para ela, nem para um futuro de paz por ali, naquele caldeirão. Mesmo que a caixa preta revele que tudo não passou de um infeliz acidente, é capaz de a informação não causar o efeito desejado.

Abs,
Ritter.

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