Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

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Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carrie e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.