Crítica | The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Ou um tolo disposto a acreditar em futuros amigos.

Aproximando-se do final da 10ª Temporada fica mais claro o alarme falso dos sussurradores, prometidos como a maior ameaça da série até então, mas na prática nunca funcionando dessa forma (tal como o Negan), extremamente bem introduzidos, mas com um arco enrolado tão à exaustão que foi diminuindo o tamanho deles conforme o tempo. A Alfa MORREU no episódio passado e parece que toda a sua trupe evaporou junto a ela, porque ninguém fica sabendo disso ao longo desse episódio além de Beta e outros cinco capangas. Inclusive, aquele final vinha com a conexão forçada de Carol como a precursora do plano ao liberar Negan para matá-la, uma jogada deviadamente irresponsável, no limbo, mas que parecia na fala “You take long enough”, transparecia uma lucidez de que ela sabia que era certa, para o discurso mudar justamente na cena seguinte, em que ela já começa reclamando ao Negan que demorou demais e começa a transtornar de novo, dizendo que quer ficar sozinha e partindo sem rumo, para lugar nenhum.

Já defendi a personagem antes, poucos episódios atrás (especificamente em Squeeze), mesmo sendo uma dramaticidade de atitudes irracionais que ela já havia tomado antes na série, havia coerência e verdade segundo a tendenciosa crescente do arco até aquele momento. Contudo, com o fim de Alfa, com a confiança daquela fala e dado o “planejamento” que o roteiro assumiu, escancaradamente explicado na primeira cena forçando a conexão, não faz sentido ela, nesse episódio, continuar maluca da cabeça alucinando fantasminha (de novo) para lembrar da sua fragilidade que já está clara há muito tempo. O que isso significa? De novo, aquela famosa enrolação marota que The Walking Dead adora fazer em episódios de numerações parecidas. Ao menos em determinado tempo, a série fazia uma questão de esconder, agora pouco importa, Negan nem a questiona ao não cumprir a parte do trato de levá-lo para Alexandria como álibi de testemunha, porque eventualmente ele não está nem um pouco preocupado, no território inimigo, em ser pego, porque já parece que sabe o que vai acontecer nas cenas seguintes.

Ok. Admito que mesmo assim foi de enorme satisfação a cena em que três dos sussurradores encurralam Negan e Daryl, que encontra o personagem na cabana de Lydia (sumida, de novo), e todo o contexto leva a crer que ambos estavam encrencados, mas inesperadamente os capangas mascarados se ajoelham perante Negan como se fosse o novo Alfa. Aproveitando a situação, principalmente diante da grande desconfiança de Daryl, Negan articula um teatrinho para satisfazer o ego, e consequentemente, pela indomável performance de Jeffrey Dean Morgan, por alguns segundos consegue levar o público a achar que realmente a série poderia mudar totalmente o rumo e colocá-lo como vilão de novo (e seria sensacional se acontecesse, diga-se de passagem). Mas lógico, na hierarquia dos “sussu”, quem estava devoto a isso era Beta, que assim como Carol passa o episódio tendo devaneios inúteis com a Alfa zumbi, a diferença é que ele não quase morre gratuitamente com isso e que não era um fantasminha, mas a cabeça da mulher falando com ele e o guiando a tomar alguma atitude. 

Ora, qual seria esse grande plano do subconsciente de Beta, digo, que a cabeça de Alfa tinha para guiá-lo? Pegar um vinil, aparentemente dele mesmo pelo que deu a entender, chamado Half Moon, começa tocar e juntar zumbis na área para que ele possa guiá-los de lá, Rob Zombie ficaria orgulhoso. Mas, cadê o resto dos zumbis da caverna? Ou do ataque a Hilltop? Não eram controlados por eles? Como dito, parece que eles evaporaram junto de Alfa, tanto que na cena em que Beta pega a cabeça de Alfa, só dois o acompanham ao invés uma manada considerável, um deles é comido pela cabeça e o outro foge e fica por isso mesmo, a ameaça final parece ser apenas Beta e o restante dos zumbis que irão à vingança, com desvantagem. A promessa de que “nunca vimos uma horda tão grande como aquela do penhasco” possivelmente ficará na falácia, afinal só faltam mais dois episódios para o fim, e o próximo, que até tinha tempo para organizar isso, não vai porque irá provavelmente ocupar o que esse deveria ter sido, que é a jornada de Eugene em conhecer a tal nova comunidade de Stephanie no rádio.

Infelizmente até nisso eles enrolaram, embora a preocupação geográfica mais uma vez tenha ido para o espaço. Como depois de tanto tempo eles se deparam com uma cidade nova aparentemente tão próxima dali, porque Atlanta certeza que não era vista a demora imensurável que foi chegar em Alexandria originalmente, então fica o questionamento. Chega a ser tão grotesco que vai além dos erros de montagem, também presentes no capítulo, que em uma cena Negan e Daryl trocam palavras, e na outra, Daryl já está em Alexandria recebendo Carol que quase morreu na cena anterior, sozinha, cadê a cena de ligação entre os fatos? Ou melhor, Negan entrou lá de boa mesmo por causa do Daryl? Aliás, o combinado de Eugene e Stephanie era só que ambos se encontrassem, mas Ezequiel e Yumiko decidem ir também só para haver três ceninhas de enrolação, uma com Yumiko e Magna falando se é uma boa ideia ela acompanhar e abandonar de novo o grupinho delas, já separado, e as outras duas com Ezequiel possivelmente se despedindo de Jerry porque deve morrer logo em breve, e outra que ele questiona se deve continuar ou não pela limitação física.

A Stephanie mesmo só vai dar as caras por meio segundo nos minutos finais do episódio, obviamente, como dito, deixando o gancho de como se desdobrará essa nova comunidade para o próximo. Espremendo tudo ao final, não houve nada, a história não avançou, personagens não foram desenvolvidos, situações que já não estavam previstas para ele foram criadas, foi um travamento completo e inútil de dezenas de situações pendentes que ficaram para ser resolvidas somente no último episódio, que nem tem data mais para estrear, visto a baderna que está a produção da série, não houve tempo nem de concluir um episódio já gravado de longa data na pós-produção, porque nem os produtores devem saber como ele deve acontecer para ligar o universo compartilhado e finalizar de forma minimamente recompensadora essa decepcionante temporada.

The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers — EUA, 29 de fevereiro de 2020
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.