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Crítica | Invocação do Mal

por Leonardo Campos
538 views (a partir de agosto de 2020)

Quando estreou em 2013, Invocação do Mal fez um favor ao campo dos filmes de terror. Oxigenou o gênero e ainda trouxe uma representação bem concebida de uma das vertentes do rentável segmento: a possessão e o exorcismo. Lili Taylor, em entrevistas, afirmou ter assistido ao clássico O Exorcista, tendo em vista buscar a inspiração para as cenas de maior impacto, próximas ao desfecho dos conflitos narrativos deste filme dirigido por James Wan, com base no roteiro de Chad Hayes e Carey W. Hayes.

Ao longo de seus 112 minutos, o filme nos leva ao seio da família Perron, comandada por Carolyn (Lili Taylor) e Roger (Ron Livingston). Eles se mudaram para uma fazenda distante em 1971 e pretendem viver intensamente com os seus filhos, mas alguma coisa muito estranha na casa impede que a família viva harmoniosamente. É a partir deste momento que o casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) é convidado para averiguar a situação em busca de soluções para a mobília constantemente arrastada dos lugares de origem, os lamentos constantemente presentes como canções de ninar e a onipresença de uma sombra que paira em torno do ambiente.

O que será a presença sombria responsável por assustar os moradores desta casa que existe desde 1736 e traz muitas memórias? Por meio de uma cuidadosa investigação, segredos serão revelados e viradas narrativas demonstrarão que os filmes com exorcismos em suas estruturas ainda funcionam bem, quando dirigidos e narrados com competência. Para a construção da atmosfera aterrorizante, a equipe contou com o design de produção de Julie Berghoff, bastante eficiente, em especial, na composição dos cenários de Sophie Neudorfer, espaços cuidadosamente erguidos para nos fazer conservar a sensação de medo e dominação demoníaca.

Tais elementos funcionam ainda melhor por conta da direção de fotografia centrada de John R. Leonetti, juntamente com a condução musical de Joseph Bishara. E assim, equipe técnica e elenco se unem em prol do sucesso de um bom filme. São as portas que rangem, correntes de ar uivantes, responsáveis por dar ao ambiente uma atmosfera misteriosa, cadeiras de balanço que se movem freneticamente e sozinhas, além dos habituais sustos originados pelo que James Wan considera a receita para um filme de terror bem sucedido: a manipulação do som, elementos que nos faz “ver” o “invisível”.

Na época do lançamento muita gente inconveniente reclamou da reversão do enredo em relação ao histórico de Bathsheba, mulher acusada de bruxaria, mas que teve uma vida simples, diferente do inventivo processo de possessão diabólica, quando supostamente o seu marido a pegou no flagra quando iria fazer um sacrifício do próprio filho em nome do “mal”. A história conta que ela subiu numa das árvores e se enforcou. É parte do roteiro que permite a realização de uma das cenas mais assustadoras do filme e ainda cabe ressaltar que numa obra de ficção, a liberdade narrativa corre solta, não precisa ser “exorcizada” em decorrência da busca por uma verdade absoluta dos fatos.

Paralelo aos acontecimentos na fazenda, Invocação do Mal ainda consegue trazer a história de Annabelle, no filme, representada por uma boneca de pano da linha Raggedy Ann, mais assustadora que a versão original. Segundo os demonólogos Ed e Lorraine Warren, a boneca é uma espécie de portal de conexão entre os humanos e demônios. No desfecho, Lorraine recebe um telefonema com solicitação de ajuda para um caso ocorrido em Long Island, situação que como nós sabemos, se refere aos acontecimentos em Amityville, introdução ao também eficiente filme que dá continuidade à franquia.

Durante as filmagens de Invocação do Mal, Lorraine esteve bem próxima dos bastidores. Orientou Vera Farmiga, deu sugestões e observou tudo como espectadora, dando o aval em relação ao material, algo bem próximo das coisas que ela alega ter acontecido no encontro com a família Perron. Considerada como uma das melhores produções de terror da geração contemporânea, o universo de Ed, Lorraine, Annabelle e dos demais membros desta batalha entre as forças celestiais, humanas e demoníacas, ganhou produções derivadas, tais como podemos observar no irregular mediano Annabelle, Annabelle 2 – A Criação do Mal, na eficiente sequência de Invocação do Mal e no sombrio A Freira.

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA – 2013)
Direção: 
James Wan
Roteiro: Chad Hayes, Carey Hayes
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ron Livingston, Lili Taylor, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver
Duração: 112 min.

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21 comentários

Bruno [FM] 15 de agosto de 2020 - 01:08

Não sei onde eu estava que fui assistir esse filme só agora. A premissa de “Invocação do Mal” é um tipo de filme de terror que também não me atrai, talvez seja por isso. “Baseado em fatos reais” – frase já tão emblemática, e que nunca me assustou. Principalmente por saber que na maioria das vezes, a cinematografia sempre passa a frente dos fatos em busca de público e lucro.

A única coisa que faz com que “Invocação do Mal” não seja mais um filme de casa mal assombrada, é a interessante história dos Warren. Papel muito bem interpretado por Vera Farmiga e Patrick Wilson. A ótima atuação da Farmiga sustenta a trama e a química entre o casal caçador de fenômenos paranormais é muito bom. O fato do filme se passar nos anos 70 também dá um toque mais artístico e elegante. Uma boa direção de arte.

Fora isso, é um filme clichê. E esse “universo criado” na verdade foi baseado/inspirado nas histórias dos Warren. Os WARREN são interessantes, já o filme…é algo que apenas faz jus.

É um filme que soube misturar muito bem realidade com ficção. O roteiro mostra de forma crítica questões burocráticas da igreja católica que eu concordei. E que numa situação de urgência da história, o filme não me levou a sentir medo da entidade demoníaca, mas me fez sentir AMOR pela pessoa possessa que estava sofrendo muito com tudo aquilo. E é aqui, que “Invocação do Mal” humaniza e traz pra realidade uma ficção de forma crível (mesmo com boa parte da história sendo só ficção, não demônios.)

– Filme 3 estrelas (bom)

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Vitor M. Sanches 4 de julho de 2019 - 06:06

Acho eficiente. Usa e abusa da fórmula. Casa mal assombrada, demônio, família se muda pra casa mal assombrada, pede ajuda e descobrem como derrota o demônio.

Enfim, gostei pra caramba. A direção é ótima. Tudo é clichê. Mas o roteiro acho extremamente eficiente e causa medo. Enfim, não sou um fã do gênero. Mas esse me prendeu a atenção. Particularmente sou espírita então certas coisas são um tanto quanto pessoais. Mas curti.

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JJL_ aranha superior 15 de agosto de 2017 - 20:12

Acho que preciso analisar esse filme melhor, quando assisti esperava algo tipo sobrenatural mesmo, mas vou ficar mais atento aos detalhes na próxima.

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Wendell Bronson 14 de agosto de 2017 - 21:59

Bela crítica! Acho um filmão, mas ao mesmo tempo concordo quando diz q não traz nada d novo p gênero… E tanto no primeiro quanto no segundo filme, acho q o diretor se perde um pouco no terceiro ato, o negocio simplesmente descamba p algo over dmais, o segundo mesmo chega a dar raiva kkkk
A Bruxa acho q é disparado o novo folego do terror lá na terra do tio Sam, aliás o diretor vai fazer o remake d Nosferatu, já mostrou q tem culhão, já q será comparado com Murnau.
Q venham mto mais criticas d filmes d terror no site, até mesmo dos antigos

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JJL_ aranha superior 15 de agosto de 2017 - 20:10

Tá dizendo que o diretor da bruxa vai dirigir nosferatu? Meu, se for bom e bem recebido pode dar um novo fôlego pro gênero vampiresco. E ainda ressuscitar uma história clássica pras próximas gerações.

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Ricardo Correa 24 de agosto de 2014 - 11:34

E ( sim re assisti outra vez ! ) além de tudo o muito , Wan soube controlar ( ok também e ainda seu técnico de som ) pra que os barulhos mais simples ajuadaseem a dar atmosfera e realidade aterradora ao ambiente cinemático …Notei que alguns sons são mais altos do que normalmente seriam e outros funcionam como ” eco de lembranças ” reverberando em cenas que não são suas originalmente ( como quando eles colocam câmeras para filmar o local onde BATHSHIBAH se enforcou ouvimos limpidamente o som das cordas que a sufocaram como da primeira vez em que Lorraine ali esteve e viu pela primeira vez a situação e resolução desta personagem …Sim sei que este recurso não é novo ( vide Tubarão de Spielberg ou mesmo Iluminado ou mesmo Laranja Mecânica ) mas para além de simples homenagem ou honraria creio de verdade que Wan ” encarnou ” de vez o diretor de CINEMA ( não filminho ) DE TERROR na era moderna ! E que as Anabelles o protejam !

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Guilherme Coral 25 de agosto de 2014 - 00:56

Disse tudo, Ricardo! Wan soube utilizar todos os recursos a seu dispor para criar essa atmosfera e, realmente, o som ocupa um papel central que vai além da simples utilização de sons elevados nos momentos de “susto”. Não é novo, certamente, mas é muito mal utilizado pela grande massa de filmes de terror genéricos que vemos por aí. Atividade Paranormal, por exemplo, é um que faria ótimo uso disso, ao invés disso é pontuado por alguns momentos onde os diretores apostam tudo.

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Ricardo Correa 27 de julho de 2014 - 17:07

Assisti muitos making offs , histórias reais ( com toda a família Perron hoje em dia ) , vi charlatões aproveitarem-se do sucesso do filme sim…Mas o que fica no final ? O modo respeitoso como James Wan pôde retratar todos os envolvidos sem desmerecê-los ou trata-los ambiguamente apenas como personagens ou brinquedos …Ele soube criar mitologia pessoal além do terror puro e simples…Ele soube engajar quem viveu através e sempre aterrorizado por esta história real em heróis de uma sobrevivência paranormal …Isto é : NORMAL ?

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Guilherme Coral 25 de agosto de 2014 - 00:58

Acho muito interessante como ele inclui no filme, de maneira discreta, esse questionamento se são charlatões ou não. No fim ele acaba se posicionando (como acho que deveria fazer) e o faz não de maneira forçada, mas, como você disse, respeitosa!

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Ricardo Correa 21 de julho de 2014 - 23:40

Pude sim captar homenagens de os pássaros de Hitchcock , a flutuação da possessão num exorcista, as pessoas passando no corredor num iluminado e outras …Mas pude ter a certeza absoluta de que tudo era JAMES WAN sobre o todo ! Vera Farmiga nos coloca humanamente e aterradora assolados e um tanto desconsolados através do espelho da caixinha de música – mas sim é forte e humana o bastante pra gritar : DEUS NOS UNIU POR ALGUMA RAZÃO ! É ESTA !

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Guilherme Coral 22 de julho de 2014 - 20:31

Cara, falou tudo. O filme é puramente Wan e eu diria em seu ápice. Assisti Sobrenatural 2 recentemente e, mesmo sendo inferior ao primeiro, pude sentir aquele tom presente em seus filmes mais recentes. Adoro Jogos Mortais, mas dá para ver a progressão clara do diretor desde então, acredito que, agora, ele encontrou sua voz.
O foco humano que você disse realmente é fascinante, sendo explorado cada detalhe de suas crenças. A fé do casal Warren chega a ser desconcertante perante todos aqueles episódios de possessão. O fato de estarmos lidando com uma bruxa realmente é fascinante, saindo do que geralmente vemos em filmes do gênero, demônios propriamente ditos. O que mais me chama a atenção é a visão antiga em relação às bruxas, como pessoas que lidam, exclusivamente, com a magia negra, o que ressalva a fé dos Warren na Igreja católica (chegando até um certo fanatismo, talvez?).
As homenagens que você comentou realmente estão lá. A de Pássaros é óbvia e divertida, se encaixando perfeitamente na trama.

Muito obrigado pelo comentário, Ricardo!

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Ricardo Correa 21 de julho de 2014 - 23:37

E olha eu sou calejado em terror e suspense …Mas ok adentrei , andei e suspirei a cada passo daquela câmera sussurantes ou daquelas portas rangentes e sim também daquelas almas tangentes …Admirei as fraquezas dos humanos expostas ante as ordas de seres desencarnados : pude sentir o drama de ambos os lados – de vivos e mortos – respirar ofegante amedrontado com todos eles ! Quem invade o mundo seguro de quem ? A câmera de Wan ou sob o comando dele tem vida além de morte!

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Ricardo Correa 21 de julho de 2014 - 23:33

Pois bem parecia que desta vez eu teria algo assim e tive ! Só não esperava a mistura de elementos tão clichés e ao mesmo tempo mostradas de forma tão perturbadoramente nova e também não esperava a química perfeita tanto do lado do casal paranormal quanto do lado do casal assolado pelo flagelo do sobrenatural…

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Ricardo Correa 21 de julho de 2014 - 23:30

O que mais me atraiu para este filme inicialmente foi um detalhe algo simplório: a história se tratava de uma BRUXA ! E BEM – há muito tempo eu esperava uma real história de horror sobre uma delas … Até a ” LETRA ESCARLATE ” ( do qual amo muito a versão quadrinística do classics illustrated da Marvel ) eu busquei no âmbito de sorver algo mais denso com uma personagem destas – daí tratada de forma mais assustadora e crível…

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Ricardo Correa 21 de julho de 2014 - 08:38

Somente pra quem por acaso ainda não viu este filme click:https://www.youtube.com/watch?v=MPpukVJoKFw

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João Pedro Moreira da Silva 20 de julho de 2014 - 08:19

Não gosto muito de filmes do gênero, mas Invocação do Mal foi um dos melhores filmes de terror que eu assisti nos últimos anos.
Parabéns pela critica, gostei muito.

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Guilherme Coral 20 de julho de 2014 - 15:01

Muito obrigado, João. Gosto do gênero, mas realmente fazia tempo que não via exemplos tão bons assim (sendo Sobrenatural uma outra exceção).

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joão 19 de julho de 2014 - 20:27

Achei esse filme muito bom mesmo!! Como foi dito na resenha, de certo modo e apesar dos clichês, dá uma reformulada no conceito de cinema de terror. Mas gosto ainda mais de Insidius. Não sei o porquê mas este me cativou ainda mais e trouxe uma perspectiva mais original do que a Invocação do Mal, pelo menos na minha opinião. De qualquer modo, acho o terror construído pelo James Wan muito bom!! O cinema de terror estava precisando disso. Ótima resenha!!

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Guilherme Coral 20 de julho de 2014 - 15:03

Gosto muito do Insidious também, João! Em questão de originalidade concordo com o que você disse, acho que são filmes bastante distintos. Espero que o Wan continue nessa mesma linha, sem cair nas mesmices excessivamente violentas que a gente vê por aí. Obrigado pelo comentário!

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joão 20 de julho de 2014 - 19:12

Também espero Guilherme, apesar da continuação do Insidius eu ter achado bem fraca e pelo que vi um terceiro filme já está confirmado. Esperemos pelo melhor eheheheh

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Guilherme Coral 20 de julho de 2014 - 22:42

Confesso ter gostado da continuação. Tem alguns furos no roteiro e alguns detalhes que não gostei, mas em geral achei uma experiência positiva. O primeiro, é claro, continua sendo melhor.

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