Crítica | Jessica Jones – 3ª Temporada

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Tive muito receio que, com o compreensível, mas prematuro fim anunciado da prolífica parceria entre a Marvel e a Netflix que vem trazendo os heróis urbanos da editora para a telinha desde 2015, a última temporada de Jessica Jones, que é também o “canto do cisne” para todo esse micro-universo, não recebesse muita atenção da produção, resultando em um trabalho burocrático. No entanto, ao final do 13º episódio da temporada, fiquei feliz em constatar que a detetive alcoólatra saiu por cima (narrativamente falando!) e que, realmente, apesar dos pesares, sentirei falta dela, do Demolidor, Luke Cage, Justiceiro e até mesmo do Punho de Ferro.

E olha que o começo da temporada não foi nada promissor. Partindo da separação entre Jessica e Trish depois do assassinato da mãe da primeira pela segunda, o status quo de Jessica não mudou muito, ainda que ela tenha que enfrentar um problema moderno, a atenção da mídia que suas ações geram quando são filmadas por qualquer um na rua. Esse tema – a fama, para o bem ou para o mal – é um elemento narrativo que perpassa toda a temporada sem, porém, ser intrusivo ou exagerado, sendo tratado como algo inevitável e que alguém como Jessica simplesmente precisa se adaptar. Ela, em si, porém, continua igual. Beberrona e ainda “detetivando”, mas agora contando com a ajuda de Gillian (Aneesh Sheth, excelente e hilária atriz transgênero), uma assistente falastrona e sem papas na língua, somos apresentados a Eric Gelden (Benjamin Walker), um homem talvez tão perturbado quanto Jessica e com poder de utilidade duvidosa: ele tem um radar de maldade que se manifesta em dores de cabeça de menor ou maior intensidade. Além disso, apesar de haver um certo grau de mistério (mas é leve e logo revelado), há um novo vilão à espreita, Gregory Salinger (o sinistro Jeremy Bobb, que vimos recentemente na excelente Boneca Russa), um serial killer altamente inteligente que esfaqueia Jessica, mas que parece demais, no começo, como um genérico de Hannibal Lecter. Correndo por fora, há a luta de Jeri Hogarth contra a ELA, que vem progredindo consistentemente e a faz procurar Kith Lyonne (Sarita Choudhury, que fez a esposa de Saul Berenson, em Homeland), seu primeiro amor, o trabalho de Malcolm Ducasse para Jeri que o coloca em dúvidas morais, e, nesse começo, Trish Walker descobrindo e desenvolvendo seus poderes gatunos de Felina (Hellcat, nos quadrinhos).

Aos poucos, sem muita pressa, os roteiros vão focando e dando a devida importância a cada personagem, expandindo a premissa “simples” do poder de Eric (personagem obscuro dos quadrinhos, que ganhou a alcunha de Mind-Wave)  e transformando-o em interesse amoroso de Jessica e tornando o serial killer (de longe baseado no Matador ou Matador de Idiotas, também dos quadrinhos) bem mais interessante e importante do que inicialmente indicado. No entanto, e é aí que a temporada realmente brilha, cada elemento narrativo, cada história paralela e cada personagem novo introduzido na série, além de ter sua função em si mesma, tem como objetivo maior permitir que a verdadeira história seja contada: a ascensão e queda de Trish Walker. Se Jessica Jones sempre foi vista como a grande personagem auto-destrutiva, depressiva e que não liga para ninguém, nesta temporada seu mundo derrete, com cada um dos personagens que gravitam ao seu redor (a exceção é Gillian) batalhando contra seu respectivo lado sombrio, mas com cada linha narrativa lentamente convergindo para Trish e sua obsessão em fazer o bem, o que a levou a quase morrer para ganhar poderes na temporada anterior. A pergunta que a temporada tenta responder é: qual é o preço que se paga para fazer o que é certo?

Jessica Jones não escolheu ser super-poderosa. Ao tornar-se o que é, ela perdeu tudo e o que ela vive, hoje, é a vida possível, especialmente depois de sua terrível experiência com Kilgrave. Trish, por seu turno, correu atrás dos super-poderes e, agora, com a elipse de um ano entre temporadas, ela passou a atuar nas sombras como uma heroína mascarada (nada de uniforme, mas as cores predominantes do figurino que ela comumente usa – azul e amarelo – foram, claro, retiradas da vestimenta de sua persona Felina dos quadrinhos). Esse é o grande e belíssimo conflito da temporadas e que é muito bem desenvolvido ao longo dos cuidadosos roteiros que funcionam quase como pêndulos, ora de um lado, ora de outro no espectro do bem contra o mal. Além disso, apesar de a série nunca ter tentado glorificar o super-herói já que a própria Jessica Jones faz todo o esforço para ser a antítese disso, aqui essa questão é ainda mais relativizada sem que a showrunner Melissa Rosenberg perdoe ninguém.

Se a performance de Krysten Ritter continua com a mesma qualidade de sempre, sua personagem parece ter chegado ao limite do desenvolvimento. E isso não é algo necessariamente negativo justamente porque a temporada passa a focar em Trish Walker, com Jessica passando a ser uma espécie de “sarrafo moral” que o espectador pode utilizar para julgar ou interpretar os atos não só de Trish, mas como de todo o restante do elenco. Com isso, Rachael Taylor tem o palco para brilhar. Se sua personagem aparentemente não tinha salvação lá pelo final da última temporada, aqui vemos que sua tenacidade e obsessão a leva a reconstruir sua vida, acrescentando a ela seu trabalho noturno e Taylor prova toda sua latitude dramática ao carregar Trish de um lado para o outro de maneira crível e lógica, fazendo-nos torcer por ela em alguns momentos e, em vários outros, odiá-la. Em termos de abordagem realista de super-heróis, esse jogo psicológico ao redor de Trish Walker está, sem medo de exagerar, no mesmo nível da abordagem de David Dunne por M. Night Shyamalan em Corpo Fechado.

E, como disse, gravitando ao redor de Jessica e Trish – e sempre contribuindo para o desenvolvimento dessa narrativa principal – cada coadjuvante tem seu arco narrativo próprio bem cuidado e desenvolvido. A impiedosa Jeri, diante de seu futuro sombrio com a doença debilitante, no lugar de olhar a vida com outros olhos, aprofunda seus atos imperdoáveis, destruindo vidas e corrompendo-se no processo em mais uma atuação excelente de Carrie-Anne Moss. Malcolm não sabe o que quer ser: ele mesmo ou a pessoa que ele deseja ser mesmo que, para isso, tenha que esmagar todos os seus valores e, assim como Jeri, destruir vidas. Eric, por seu turno, tem um arco de redenção, já que ele começa no fundo do poço e, com o contato com Jessica, consegue vislumbrar uma luz no fim do túnel. E, finalmente, Gregory Salinger, muito graças à atuação intensa de Jeremy Bobb, sai da sombra de personagens semelhantes que já vimos tantas vezes por aí e ganha um verniz realmente ameaçador e complexo que funciona muito bem como catalisador principal da ação da temporada.

Claro que, como é quase uma regra absoluta nas séries Marvel-Netflix, há um pouco de “barriga” em alguns pontos da temporada, com a ação andando mais de lado do que em frente. Mas a expressão chave é “um pouco”, já que esse problema crônico é quase imperceptível aqui e contornado pela forma como quase tudo é bem utilizado para fazer cada sub-trama primeiro tangenciar e, depois, convergir por completo. Mais problemático do que essa leve perda de ritmo é o esquecimento quase que completo do primeiro ataque a Jessica, com ela sendo gravemente esfaqueada. Ainda que ela não vá para o hospital por cinco minutos somente para fazer super-heroísmos na cena seguinte, é quase isso o acontece, com o ferimento, depois de muito pouco tempo, não só sumindo como sendo “apagado” do roteiro. Havia uma história interessante ali, sobre a fragilidade de seres super-poderosos, mas ela foi colocada de lado para privilegiar o arco assustador de Trish Walker, o que, no final das contas, é aceitável.

Os cinco anos de parceria entre a Marvel e a Netflix valeram o ingresso e seu encerramento com a terceira temporada de Jessica Jones foi mais do que digno. Gostaria muito que todos esses personagens, com o mesmo elenco e aproveitando-se de todas as respectivas histórias pregressas continuassem sob a batuta da Disney, mas é improvável que isso ocorra. Seja como for, vale um brinde – com bastante bourbon – ao final dessa breve era!

Jessica Jones – 3ª Temporada (Idem, EUA – 14 de junho de 2019)
Showrummer:
 Melissa Rosenberg
Direção: Michael Lehmann, Krysten Ritter, Anton Cropper, Liesl Tommy, Mairzee Almas, Tim Iacofano, Larry Teng, Stephen Surjik, Jennifer Getzinger, Sanford Bookstaver, Jennifer Getzinger, Sarah Boyd, Neasa Hardiman
Roteiro: Melissa Rosenberg, Hilly Hicks, Jr., Lisa Randolph, Jamie King, J. Holtham, Jesse Harris, Nancy Won, Scott Reynolds, Lisa Randolph, Jane Espenson (baseado em quadrinhos de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)
Elenco: Krysten Ritter, Rachael Taylor, Eka Darville, Carrie-Anne Moss, Rebecca De Mornay, Benjamin Walker, Sarita Choudhury, Jeremy Bobb, Tiffany Mack, Aneesh Sheth, Jessica Frances Dukes, John Ventimiglia, Rachel McKeon, Jamie Neumann, J. R. Ramirez, Kevin Chacon, Tijuana Ricks, Mike Colter, David Tennant
Duração: 689 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.