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Crítica | Jujutsu Kaisen – 3X04: Preparação Perfeita

Jujutsu à moda Tarantino.

por Ismael Vilela
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spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.

É inegável que Preparação Perfeita representa o ápice técnico e narrativo de toda a produção de Jujutsu Kaisen até aqui. Ressalto, de partida, a utilização de uma montagem extremamente sofisticada entre os elementos históricos e o tempo presente, em um jogo de edição que evoca a sofisticação de clássicos do cinema – a morte da mãe de Maki em uma referência a O Poderoso Chefão, a cena das mortes dos ninjas em referência a Kill Bill: vol.1, e a não tão clara referência a Whiplash: Em Busca da Perfeição na luta de Naoya com Maki. A fotografia e a direção de arte não buscam o extraordinário pelo choque visual purista, mas pela constância de uma beleza melancólica e, por vezes, psicodélica – uma clara e bem-vinda influência estética de obras como Chainsaw Man, que já havia apontado no início da temporada. Sob o roteiro – agora sim de qualidade e ousadia – de Hiroshi Seko, a série abandona qualquer resquício de didatismo exagerado ou PowerPoints místicos do episódio anterior, que outrora pudessem ter limitado o ritmo da obra, encaminhando-se para uma fluidez poderosa.

O que se observa na tela é uma fidelidade extrema não apenas ao enredo, mas à atmosfera de desolação que permeia a trajetória de Maki Zen’in. A narrativa organiza-se em torno de um conceito de poesia visual, onde o que comove não é a surpresa do destino, mas a inevitabilidade do afeto familiar quebrado. 

A partir deste ponto, o equilíbrio entre o poder narrativo e a construção afetiva dos personagens atinge uma culminação inquestionável. O episódio deixa de ser apenas sobre o combate físico para se tornar uma luta pelo “contra-luto”. A transição da morte de Mai Zen’in para a ascensão de Maki é executada com precisão cirúrgica. Mai, ao sacrificar-se para criar a ferramenta amaldiçoada definitiva, cumpre o Voto Celestial de sua irmã, eliminando a energia amaldiçoada que as unia e impedindo Maki de alcançar seu potencial total. É um momento de dor, traduzido para a cinematografia com uma competência rara, onde a imagem da praia serve como um refúgio metafísico antes da destruição total.

Ao abdicar da muleta do mero entretenimento de luta, a direção de Shota Goshozono altera a perspectiva da experiência, permitindo que a obra respire por meio de conceitos e metáforas sobre a herança familiar. O clã Zen’in, em sua estrutura arcaica e cruel, é retratado como uma arquitetura em ruínas, onde membros poderosos como Ogi Zen’in e Jinichi Zen’in se tornam apenas obstáculos para uma força da natureza recém-desperta. A destruição do guarda Kukuru e dos combatentes de elite Hei não é apenas um feito de força, mas um exercício de correção de falhas históricas. A perfeição deste episódio reside justamente na junção dessas imperfeições humanas: a rejeição de um pai, o sacrifício de uma irmã e o desespero de uma mãe.

A direção de animação merece um destaque particular dentro dessa engrenagem. As lutas não são apenas porradas sem fim; elas possuem uma função estética maior, engrandecendo o amadurecimento de Jujutsu Kaisen como obra de arte. A batalha final contra Naoya Zen’in é o exemplo máximo dessa sofisticação contemplativa. Naoya, movido pelo desprezo e pela arrogância, é confrontado pela percepção aguçada de Maki, que agora enxerga os “quadros” de sua técnica amaldiçoada. O desfecho, onde a mãe de Maki desfere o golpe final em Naoya, é de uma sofisticação humanista absoluta, unindo vidas díspares sob o fio condutor da dor.

A mensagem de Jujutsu é o todo, e o todo é avassalador. Olhando para a estrutura narrativa, percebe-se um emaranhado de histórias entrecruzadas que encontram na coletividade um conserto amargo. O episódio funciona porque entende que a beleza não está na ausência de defeitos, mas na harmonia criada entre peças quebradas. Ao remover a dependência de explicações didáticas constantes, Hiroshi Seko entrega um roteiro que caminha com as próprias pernas, exigindo do espectador uma imersão ética e emocional. O resultado é uma obra completa, que dialoga com o fã, mas expande seu alcance para qualquer um disposto a um exercício de alteridade, luto e quebra de expectativas. 

Em última análise, este episódio de Jujutsu Kaisen é um grito ao mar, um conjunto de falhas que encontram na vingança de Maki um encerramento doloroso e amoroso ao mesmo tempo. A direção assina uma obra que, embora se utilize de seguranças estéticas conhecidas, arrisca-se no terreno da sinceridade emocional absoluta, consolidando-se como uma das melhores produções japonesas da contemporaneidade. Ah, e para deixar bem claro: esse é o melhor episódio (até agora) de Jujutsu: Kaisen. Ponto final.

Jujutsu Kaisen – 3X04 Preparação Perfeita (完璧な準備) — Japão, 2026
Direção: Shota Goshozono, Risa Suzuki
Roteiro: Hiroshi Seko
Elenco (Vozes): Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 28 min.

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