Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Júlia Kendall – Vol. 11: Repouso Eterno

Crítica | Júlia Kendall – Vol. 11: Repouso Eterno

por Kevin Rick
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Repouso Eterno

Após o arco duplo dos vols. 9 e 10 da série, Giancarlo Berardi retoma a estrutura de uma história autocontida que vinha sendo utilizada anteriormente enquanto mantém a essência da série ao longo das aventuras da criminóloga, mas, novamente, trazendo um pouquinho de diferença na forma que constrói seu argumento.  Júlia Kendall dessa vez é chamada para resolver um caso macabro de homicídio em um asilo, e como de costume, o quadrinho não economiza nos painéis violentamente gráficos e chocantes. Contudo, após o abalo inicial, o autor dá um encadeamento dramático diferente do esperado, concebendo uma investigação policial atenuada em torno do frustrante caso. E como parte disso, o crime hediondo específico vai lentamente saindo de cena para dar espaço a um pecado amplo, vagarosamente torturante e extremamente real: o esquecimento de idosos.

A maioria das pessoas já lidou com o sentimento de abandono em relação à idade avançada, seja perpetrando esse “crime” que se tornou praticamente uma convenção social ou então sendo o próprio sofredor dessa questão humana tão cruel. O roteiro de Repouso Eterno lida com isso de forma bastante direta e sentimental, continuamente martelando temáticas sobre o descaso parental, busca de atenção e propósito, e o confronto com a própria mortalidade. O roteiro de Berardi e a arte de Sergio Toppi criam uma atmosfera melancólica em torno desses elementos, em uma espécie de demonstração da lenta morte emocional, psicológica e física em asilos. Vemos isso em cenas sobre os quartos e as localidades dos idosos, assim como em contínuos diálogos esmorecidos de veteranos de guerra, velhinhas amarguradas e a própria funcionária da protagonista, Emily, aborrecida com a possibilidade de precisar de ajuda e/ou possivelmente ser substituída. O quadrinho até usa os já característicos pesadelos de Kendall para trabalhar essa ideia, no qual vemos frangos em abate.

Repouso Eterno

Mas retornando à resolução do crime, o que temos é uma narrativa policial dilatada e até deveras serena e tranquila. Com exceção de alguns embates criminosos, a investigação de Júlia é uma sucessão de interrogatórios, conversações com parceiros e monólogos internos. Berardi utiliza essa concatenação para trabalhar a dinâmica entre a protagonista, Webb e o divertido Irving com mais momentos pessoais e de bate-papo entre o trio que o normal, remetendo-se a uma história do gênero mais clássica com um pezinho no realismo frustrante que é o trabalho policial. Além disso, para fugir um pouquinho da idealização geral provecta do quadrinho, a trama ganha algumas interessantes ramificações que preenchem a leitura de um modo diferente, já que o grande crime que permeia a história recebe poucas soluções na duração da obra. É quase como ter o caso principal como pano de fundo, funcionando mais como motor narrativo da temática da idade avançada do que necessariamente o foco investigativo, que recebe maior tratamento nos crimes paralelos de tráfico e assassinato da funcionária do asilo.

O final de Repouso Eterno é arrebatador, algo que tornou-se rotina para leitores da série. Ele até pode ser um pouquinho previsível à medida que o desfecho se aproxima, mas o impacto do alcance que esses personagens tiveram para ter uma pontinha de atenção, significado e simplesmente motivo para viver, é um completo choque de realidade. Só acho que além da ótima elaboração em torno desses temas, a construção investigativa e do mistério do crime é a mais fraca da série, justamente pelo teor mais contemplativo e vagaroso da história. O Repouso Eterno é uma aventura da Júlia na prisão, solidão e na espera da morte, em uma eterna tristeza vaga do que é envelhecer. No fim, a vida simplesmente continua seu curso, sem se importar com aqueles que caem no esquecimento.

Julia – Le avventure di una criminologa #11: L’eterno riposo | Itália, agosto de 1999
Roteiro: Giancarlo Berardi
Arte: Sergio Toppi
Capa: Marco Soldi
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Mythos, 2005 e 2020
132 páginas

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2 comentários

Luiz Santiago 15 de março de 2021 - 00:36

Mas NUNCA que eu ia imaginar uma conclusão dessas!!! Puta que pariu, bicho!!! Parece um flerte ainda mais macabro com Assassinato no Expresso do Oriente, tendo um fator humano é realista tão amargo que dá até vontade de chorar.

Gostei até um pouco mais da história que você (4), e devo dizer que esse tema é muito caro a mim. Eu adoro velhinhos. Meu relacionamento com meus avós foi muito grande, éramos muito ligados, então me sinto bem conversando, cuidando, acompanhando velhinhos e histórias assim me pegam de jeito. Minhas críticas de A Segunda Vida de Missy e O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi não me deixam mentir.

O curioso é que aqui os velhinhos são assustadores desde o início. A arte suja do Toppi deixa a gente meio desconfortável diante dessas pessoas e como você bem destacou, a relação com eles ganha mais espaço que a própria investigação – o que não vejo como algo negativo, é só uma constatação. E daí a gente chega no final e tem AQUELA revelação. Como não amar essa série?

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Kevin Rick 15 de março de 2021 - 01:49

Espetacular, né? Quando ela foi ficando sem caminho, bem pertinho do final, eu pensei “e se…”, mas, claro, não tinha imaginado aquele desenrolar macabro pra porra de ações. Eu também não vejo o espaço maior deles como algo negativo. Adoro, na verdade! Só acho que a investigação, independente de ter ficado no segundo plano, deixou a desejar um pouquinho para mim dentre o nível altíssimo da série. E é um tipo diferente de trabalho policial também, mais frustrante e atenuado.

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