Crítica | Krypton – 2X10: The Alpha and the Omega

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Um dos aspectos mais frustrantes de Krypton é o quanto a série mostra seu potencial, somente para frustrar-nos em seguida. É diferente quando uma obra é consistentemente vazia, jamais mostrando a que veio, pois pelo menos as expectativas permanecem baixas, as esperanças são mantidas em um limbo e o espectador assiste a tudo em um torpor automático.

Mas não é o que acontece em Krypton. Cameron Welsh volta e meia deixa entrever o que a série poderia ser se o showrunner tivesse a coragem de realmente mergulhar em sua história, de estabelecer uma linha narrativa um pouco mais profunda, evitando saídas fáceis, humor besta e bobagens inimagináveis. O exemplo mais recente do potencial da série sobre o avô do Superman foi Blood Moon, em que vislumbramos uma pegada corajosa em uma direção única, sem atalhos, sem desvios, sem conveniências narrativas para esconder roteiros fracos.

The Alpha and the Omega, episódio que encerra a temporada, é, infelizmente, outro exemplo do que não fazer. Depois de explodir uma lua inteira, matando milhares, quiçá milhões de pessoas que lá viviam, tudo que vemos dela é uma chuva de meteoros meia-boca e duas ou três linhas de lamentos que são muito mais virados para a perda de Kem do que para a aniquilação da população inocente civil. Ou seja, no lugar de usar o evento catastrófico como algo que pudesse impulsionar a narrativa, eventualmente levando até mesmo a um bom cliffhanger, o que vemos é essa linha narrativa ser varrida para debaixo do tapete como se fosse uma nota de rodapé na temporada.

E isso não é feito, pois a única preocupação genuína desse roteiro co-escrito por Welsh e Luke Kalteux é derramar o máximo possível de informações novas para armar uma vindoura temporada. Nesse diapasão, temos Nyssa enganando Adam para conseguir usar seu raio Zeta para ir atrás de seu filho da maneira mais aleatória e idiota possível, provavelmente colocando-a em meio à guerra Rann-Thanagar (que duvido que ganhe algum desenvolvimento relevante, mas esperarei para julgar, claro) e temos o próprio Adam Strange ganhando seu icônico uniforme vermelho com jato que Val-El parece ter pronto para emergências como paraplegias. Alguém disse fan service? Pois é isso mesmo. Fan service gratuito, bobo, aleatório e que detrai da narrativa principal.

E que narrativa principal é essa? Ora, obviamente o plano para destronar o grande tirano Dru-Zod. É aí que aquele vislumbre de potencial é revelado e, não mais do que alguns minutos depois, enterrado completamente. Toda a trama iniciada no episódio anterior que coloca Lyta como a líder de uma dissidência entre os Sagitari é apressada tremendamente por completa falta de tempo e pela inabilidade de se escrever algo com o mínimo de credibilidade. Temos o grande plano que ela, sua mãe e Dev sozinhos colocam em movimento, temos a chegada de Val, Seg e os soldados da resistência remanescentes, o que altera e amplifica o planejamento e, finalmente, temos a execução da grande virada que, em duas palavras só, é dolorosamente tosca.

Afinal, o que raios foi aquilo de Seg chegar gritando lá em Fort Rozz para meia-dúzia de kryptonianos, com Zod aparecendo por ali quase que imediatamente? E o que foi Lyta aparecer de surpresa também para reiterar as palavras do amado, com a óbvia recusa de Zod em ceder? E, o pior de tudo, a cereja estragada nesse bolo solado: quer dizer que a grande estratégia era sair no tapa com Zod na frente de meia dúzia de gatos pingados? Jura que era isso e, ainda por cima, na base da covardia, com dois contra um?

Confesso que chegou ao ponto de eu torcer por Dru-Zod tamanha foi minha descrença diante de uma história tão mal costurada quanto essa. É como se eu estivesse lendo quadrinhos da Era de Ouro da DC Comics em que ameaças de escala cósmica eram resolvidas em algo com meia página, no máximo uma página inteira, com um plano escalafobético e hilário que, obviamente, não tem lugar em uma série moderna que parece querer levar-se a sério e, pior, tem tudo – absolutamente tudo – para conseguir alcançar esse objetivo.

Pelo menos ficou, ao final, a esperança de ver mais Brainiac e mais Lobo na próxima temporada (se houver, pois ela ainda não foi renovada) e, possivelmente, nessa linha temporal já bastante bagunçada, Jor-El como o Superboy na Terra, o que sem dúvida levantou minha sobrancelha pelo que pode ser feito com essa ideia, especialmente se ele for mantido sob a influência do androide coluano. No entanto, a grande verdade é que eu já aprendi a não ficar particularmente excitado com o que Krypton promete, já que raramente a série cumpre a palavra. É ver para crer mesmo.

  • Hoje, dia 16 de agosto de 2019, várias horas depois do texto acima ser publicado, saiu notícia de que Krypton foi cancelada pelo SYFY e que o spin-off solo de Lobo também não seguirá em frente

Krypton – 2X10: The Alpha and the Omega (EUA – 14 de agosto de 2019)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Ruba Nadda
Roteiro: Luke Kalteux, Cameron Welsh
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Emmett J. Scanlan
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.