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Crítica | Lancer – 1X01: The High Riders

por Ritter Fan
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 02
Número de episódios: 51
Período de exibição: 24 de setembro de 1968 a 23 de junho de 1970
Há continuação ou reboot?: Não.

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Vocês certamente se lembram de Era Uma Vez… em Hollywood, mais recente longa de Quentin Tarantino que também, muito recentemente, serviu como estreia literária do cineasta, não? Pois bem, sabem aquele papel de vilão pistoleiro de bigodão e jaqueta de hippie que Leonardo DiCaprio vive por alguns minutos contracenando tanto com a jovem Julia Butters quanto com Timothy Olyphant? Então, aquele ali era para ser, supostamente, a recriação do piloto de Lancer, série americana de faroeste que existiu por dois anos, entre 1968 e 1970, mas, claro, Tarantino fez tarantinagens e transformou as filmagens em algo só dele, ainda que definitivamente inspirado no piloto de fato dirigido por Sam Wanamaker, que é o personagem vivido por Nicholas Hammond.

Feita essa introdução contextualizadora que explica minha escolha de piloto para a coluna Plano Piloto, já que a série, mesmo tendo sido transmitida no Brasil, não é lembrada por absolutamente mais ninguém que não seja um inveterado fã de séries clássicas do gênero (se duvidar, nem nos EUA ela é lembrada), sigamos para sua análise crítica. Curiosamente mantendo uma lógica estrutural de uma família rica que cuida de um gigantesco rancho na Califórnia que muito claramente remete à Bonanza, iniciada nove anos antes e que continuaria viva e forte até três anos depois do fim de Lancer, a criação de Samuel A. Peeples começa efetivamente do começo, fazendo um jogo com o conceito de família e usando The High Riders para efetivamente construí-la.

No lugar de apresentar um pacote pronto, o roteiro de Dean Riesner (com base em história concebida pelo diretor) introduz um problema, basicamente bandoleiros roubando cavalos do rancho de Murdoch Lancer (Andrew Duggan) e ferindo-o, que leva a uma solução inusitada: o patriarca que vive apenas com sua protegida Teresa O’Brien (Elizabeth Baur), filha de um grande amigo que falecera anos antes, contrata a famosa agência investigativa Pinkerton para localizar seus dois filhos agora adultos, de esposas diferentes, que nunca chegou a verdadeiramente conhecer por diferentes circunstâncias de forma que eles possam ajudá-lo a combater o vilanesco Day Pardee (o ator convidado Joe Don Baker). Para tornar tudo ainda mais interessante – e, convenhamos, ainda mais próximo de Bonanza – os dois filhos são completos opostos, com o mais velho, Scott Lancer (Wayne Maunder) sendo um almofadinha bem educado de Boston que lutou na cavalaria durante a Guerra de Secessão e Johnny Madrid (depois Lancer, vivido por James Stacy) sendo um pistoleiro prestes a ser executado no México.

A diferença de personalidades, a boa conexão que Maunder tem com Stacy logo de início, ainda que em contextos antitéticos) e toda a trama que lida mais com a ganância dos dois pelo dinheiro que o pai oferece (ele promete dividir a propriedade em três se eles forem bem sucedidos em se livrar da ameaça de Day Pardee) do que por alguma conexão filial, algo que até mesmo Murdoch rejeita inicialmente, cria toda uma ambientação mais sombria e mais pesada, pelo menos em comparação com as séries da época. Tudo bem que a narrativa corre para fazer com que Scott e Johnny se convertam ao catequismo do pai, algo que poderia demorar mais e se alongar pelos episódios seguintes sem uma resolução definitiva ainda no primeiro, mas a mera ousadia em subverter o conceito de família unida em uma série essencialmente para ser transmitida em canal aberto nos anos 60, já a separa de seus pares.

É apenas uma pena que o vilanesco Pardee de Joe Don Baker (fisicamente idêntico ao Caleb DeCoteau de DiCaprio) seja completamente desperdiçado no episódio, mesmo ganhando um início que o pinta como uma formidável ameaça. É quase como se Wanamaker estivesse empolgado com o personagem, mas tivesse sido forçado a eliminá-lo rapidamente para não complicar demais a narrativa, sacrificando um ótimo personagem do piloto que merecia não só mais destaque como um fim mais adequado.

The High Riders é um bom começo para Lancer que já mostrava muito claramente uma Hollywood que começava a tender para narrativas mais destrutivas e pesadas, ainda que, claro, muito da série fosse limitado pela inexistência da hoje onipresente TV à cabo, que abriu diversas outras oportunidades. Faroestes mais sujos, mais violentos e mais complexos marcariam a década seguinte no Cinema e Lancer pode ser vista como uma precursora desse caminho.

Lancer – 1X01: The High Riders (EUA, 24 de setembro de 1968)
Criação: Samuel A. Peeples
Direção: Sam Wanamaker
Roteiro: Dean Riesner (baseado em história de Sam Wanamaker)
Elenco: James Stacy, Andrew Duggan, Wayne Maunder, Paul Brinegar, Elizabeth Baur, Joe Don Baker
Duração: 51 min.

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