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Crítica | Maldição (1950)

por Roberto Honorato
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Culpe o homem pela sujeira, não o rio”, menciona o escritor Stephen Bryce (Louis Hayward) durante uma conversa. Essa rápida e sugestiva linha de diálogo acontece logo nos primeiros minutos de uma das obras mais obscuras da filmografia de Fritz Lang, quando o diretor esteve em sua fase de produções norte-americanas, com um orçamento mais modesto do que o que estava acostumado, e essa fala inicial funciona como um presságio para a intensa jornada das personagens, assim como a do espectador.

Em Maldição (título que parece pouco criativo, mas acaba funcionando melhor do que o original, House by the River), Stephen Bryce é um escritor sem sucesso, vivendo de parte da herança do irmão, o que permite que sua esposa e ele tenham uma casa. Mas em uma noite sozinho com a empregada, Emily (Dorothy Patrick), Stephen começa a assediá-la, o que termina em tragédia quando a jovem é asfixiada. Sem saber o que fazer, o escritor mais uma vez pede ajuda ao irmão, John (Lee Bowman), para se livrar do corpo. Os dois colocam o cadáver em um saco e o jogam no rio, torcendo para que a correnteza leve o crime embora, mas talvez não tenha sido a melhor decisão deles.

Um thriller na superfície, Maldição também se compromete com um melodrama familiar cheio de intriga e traição, sem contar seu teor gótico na narrativa visual, e o tipo de tensão que você encontra nos melhores trabalhos de Hitchcock, principalmente na sequência em que os irmãos tentam se livrar do corpo da empregada. Parece um enorme elogio, e isso é porque Lang tem algo mais contido e de menor escala, mas se aproveita de cada oportunidade para executar um enredo em constante movimento, com as típicas revelações chocantes de dramas policiais da época, mas com um tremendo diferencial, porque aqui há uma abordagem no lado mais psicológico dos personagens, o que faz com que a parte melodrama do filme seja um complemento perfeito para elementos mais complexos introduzidos com paciência.

A sabedoria inicial do protagonista, que logo se transforma em paranoia e atravessa a linha do distúrbio mental, em algo que eu poderia comparar, em primeira instância, a algo como o Norman Bates de Psicose,  mas até nisso Lang surpreende, já que seu filme saiu uma década antes. É claro que as duas personagens possuem motivações diferentes, mas podemos traçar alguns paralelos entre as duas histórias, desde o próprio rio, servindo de cúmplice para os crimes do protagonista, até representações visuais, como animais empalhados e algumas composições com o propósito de causar a confusão no próprio espectador, como o jogo de sombras que Maldição traz em cenas envolvendo a escada principal da casa de Stephen. Isso se deve ao trabalho de Edward Cronjager, diretor de arte que foi ambicioso e conseguiu um ótimo resultado, mesmo com o pouco orçamento que tinha.

Há outra camada, por mais que não seja tão bem aproveitada quanto os temas anteriores, bem intrigante sobre a forma como as personagens reagem à opinião pública. Enquanto o irmão de Stephen, John, já lida com os olhares tortos dos habitantes da cidade por ser manco, mas a situação piora quando ele passa a ser o principal suspeito do crime. Enquanto isso, o escritor encontra o esperado sucesso se aproveitando da morte da empregada para criar a divulgação de seus livros. Assim, a esposa de Stephen, Marjorie (Jane Wyatt), fica no meio da tensão entre os irmãos, sem contar que ela passa a ter sentimentos fortes por John. Esse aspecto do filme é algo pequeno, e infelizmente fica bastante em segundo plano, o que é uma pena, porque fortaleceria bem mais a obra.

Maldição não se destaca na lista das principais obras de Fritz Lang, mas é uma daquelas pérolas escondidas na filmografia de um diretor que, depois de assistir, você não deixa de considerar um de seus melhores trabalhos, seja pelo enredo tenso e o excelente trabalho de fotografia, que tira o gótico do superficial e transforma as sombras em uma presença assustadora, mas essencial para a experiência.

Maldição (House by the River – EUA, 1950)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Mel Dinelli, A.P. Herbert (romance original)
Elenco: Louis Hayward, Lee Bowman, Jane Wyatt, Dorothy Patrick, Ann Shoemaker, Jody Gilbert, Peter Brocco, Howland Chamberlain, Margaret Seddon, Sarah Padden, Kathleen Freeman, Will Wright, Leslie Kimmell, Effie Laird
Duração: 83 min.

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