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Crítica | Meus Vizinhos, Os Yamadas

por Luiz Santiago
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A vizinhança desses contadores de história do Studio Ghibli é realmente imbatível. Em uma realidade, há Totoro como vizinho. Em outra, os Yamada, uma das famílias mais fofinhas, inquietas e malucas já representas pela maravilhosa casa de animação japonesa. Desta vez, o diretor e roteirista Isao Takahata se baseou nas tiras em quadrinhos de Hisaichi Ishii, criando um ambiente caloroso, cômico e muito gostoso de se acompanhar, com as aventuras e desventuras da família formada por Takashi (o pai, que trabalha em uma empresa da região), Matsuko (a mãe, dona de casa), Shige (mãe de Matsuko), Noboru (o filho de 13 anos), Nonoko (a filha de 5 anos) e Pochi (o cachorrinho).

Narrativamente, Meus Vizinhos, Os Yamadas é bastante diferente de tudo o que o estúdio havia produzido antes, o que acabou se tornando uma marca geral de suas animações. Mesmo com alguns temas recorrentes, como ambiente escolar, romance entre jovens, aviões, gatos e temáticas ecológicas, o Ghibli sempre trouxe uma animação com uma cara completamente diferente da outra, fazendo o público visitar Universos distintos, encontrar novos personagens cativantes e ter contato com um novo tipo de arte contanto um novo tipo de história. Neste longa de 1999, o que temos é o primeiro exercício bastante segmentado da casa, algo que vem de sua fonte de adaptação, os quadrinhos em tiras.

Essa caraterística da fonte permitiu que o roteiro fosse construído em atos, mostrando eventos cotidianos da família centrados em cada um de seus componentes ou, na maioria das vezes, em todo o grupo familiar. Mesmo os blocos individuais acabam se abrindo para a entrada de todo o restante da casa, o que dá a sensação de onipresença do grupo, observando o que cada um faz e sente; ajudando e questionando quando necessário e cuidando sempre que algum deles precisa de ajuda.

Claro que o tratamento dado para o comportamento familiar aqui é uma mescla de elementos da cultura japonesa e construção pessoal do próprio Isao Takahata. Digo isso porque já vi muita gente reclamando da forma como o pai foi representado e do tom meio “escravo” com que ele trata a esposa, mas não consigo entender essa construção do personagem por esse caminho maniqueísta, em uma palavra, selvagemente machista. As atitudes até podem ser lidas assim, mas o comportamento paterno vai muito além dos pedidos para que a mulher prepare as coisas para ele. O personagem pode ser considerado “folgado“, mas a maneira como se comporta diante de toda a família no restante da fita não dá indícios de que é um “opressor familiar“, como já chegaram a chamar o personagem.

Cada uma dessas crônicas são apresentadas por um haikai, muitos deles de Matsuo Bashō, o que reforça a carga poética de muitos momentos e faz com que toda a construção do filme seja de um lirismo familiar convidativo, como se considerasse o espectador parte de toda aquela bagunça gostosa que vemos na tela. Meus Vizinhos, Os Yamadas é um filme doce e até mesmo nostálgico para alguns de nós. Foi o primeiro longa do Studio Ghibli a ser colorido digitalmente, dada a intenção de Takahata em trabalhar com a técnica de aquarela na obra. Como resultado, a impressão geral aqui é de um fugaz momento na vida de um grupo de pessoas. Algumas felicidades e tristezas compartilhadas que, no fim de tudo, nos deixam felizes e um tantinho melancólicos, pois é impossível lidar com esse tipo de abordagem sem pensar na continuidade e também no fim da vida.

Meus Vizinhos, Os Yamadas (Hôhokekyo tonari no Yamada-kun) — Japão, 1999
Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata (baseado nas tiras em quadrinhos de Hisaichi Ishii)
Elenco: Yukiji Asaoka, Tôru Masuoka, Masako Araki, Hayato Isohata, Naomi Uno, Akiko Yano, Kosanji Yanagiya, Tamao Nakamura, Chôchô Miyako
Duração: 104 min.

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