Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Mister No – Especial Vol. 3: O Rei do Sertão

Crítica | Mister No – Especial Vol. 3: O Rei do Sertão

por Luiz Santiago
194 views (a partir de agosto de 2020)

Nesta terceira edição da série Mister No Especial, temos uma história do fortalecimento de um movimento separatista  no Nordeste que traz à tona as mais diversas contradições do Brasil, representadas na pessoa de um grande fazendeiro, de um grupo de novos cangaceiros, de cidadãos comuns e de um padre, todos falando algo diferente sobre o símbolo escolhido para essa tentativa de revolução: a cabeça decepada de Lampião.

Eu sempre achei muito interessante a forma como Guido Nolitta representava o Brasil em suas histórias, especialmente quando opunha forças de distintos grupos sociais e/ou políticos. Aqui em O Rei do Sertão ele começa com uma chegada despreocupada de Mister No à Bahia, reencontrando o taxista Getúlio (personagem que apareceu pela primeira vez em Magia Negra) e depois Miranda, uma antiga namorada. Após os velhos apaixonados se encontrarem, à noite, acompanhamos uma ação em paralelo acontecer no Museu Antropológico Estácio de Lima e, a partir daí, o enredo toma a sua via principal, colocando Mister No em uma situação complicada e que ele não pode recusar.

Toda a ação aqui tem o seu mérito, especialmente em cenas noturnas, que são os melhores momentos da arte de Roberto Diso, mas o que se destaca para mim, no volume, é a costura social feita pela cabeça de Lampião. Ela é um grande símbolo de luta, mas dependendo dos interesses e classe dos indivíduos ou grupos que a possui, esse símbolo pode ser direcionado para lados completamente diferentes. É como reflete o próprio Mister No no final, falando mais para a ideia, para o símbolo do que para a personagem histórica: quem foi, de fato, Lampião? Foi um reacionário, um representante do diabo, um revolucionário ou uma espécie de santo? Para cada um dos grupos que o protagonista encontra, Lampião significa uma coisa diversa, representa uma ideia, um mundo diferente. E é por isso mesmo que nenhum deles deve ter a posse desse símbolo.

O Rei do Sertão acaba sendo uma aventura sobre o uso da memória histórica de um país, de um povo, como impulso para a criação de algo novo. O item macabro de um museu que serve para mobilizar as massas e que é trabalhado em um enredo de ação, tendo um protagonista que não quer se meter nos negócios do país, mas acaba sendo arrastado para as mais diversas situações concernentes a essa história. No desfecho, uma grande ironia da política nacional também aparece: o governador do Estado é irmão do fazendeiro que preparava o movimento separatista e diz que vai apenas “dar um sermão” no irmão. Nada de punição, nada de polícia. E aí entendemos perfeitamente o ponto da coisa toda. Bem a cara do Brasil, não é?

Speciale Mister No #3: Il Re del Sertão (Itália, julho de 1988)
Publicação original:
 Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora 85 (2019)
Roteiro: Guido Nolitta
Arte: Roberto Diso
Capa: Roberto Diso
164 páginas

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais