Crítica | Mr. Robot – 4X02: 402 Payment Required

PLANO CRITICO MR ROBOT 402 Payment Required

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Logo no início da 1ª Temporada de Mr. Robot Elliot faz uma breve, mas intrigante leitura da geopolítica mundial em seu Universo, comentando elementos de exploração financeira, alertando para a colonização econômica de países pobres pelos centrais, trazendo à tona o massivo enriquecimento de uma minúscula parcela da população literalmente em cima da miséria de nações inteiras e da destruição do meio-ambiente, e tudo isso, na confissão do hacker, é sustentado por um grupo que governa o mundo atrás das cortinas. O 1% do 1% da população mais rica e poderosa do planeta. Ali, a exposição só parecia trazer uma verdade imediata das condições socioeconômicas em nosso século, com a ideia do “grupo” sendo apenas parte de uma paranoia ou leitura exagerada do personagem de Rami Malek. Neste 402 Payment Required descobrimos que Elliot realmente sabia o que estava falando, só não tinha, à época, como provar.

Com mais um erro de sistema no título, o episódio desta semana traz à tona a ideia de que sem o devido pagamento, é impossível seguir com algum tipo de transação — e literal, simbólica ou metaforicamente, a gente sabe que esta é a mais insana realidade da nossa vida: tudo tem um preço. E o valor disso é mostrado para o público logo no início do capítulo, com uma excelente leitura da História recente feita pela roteirista Amelia Gray, que foi inteligente ao pegar os pontos frágeis e mais abertos a mudança em três esferas (inserção de novo escopo ideológico, criação de novas políticas sociais e econômicas e abertura para ascensão de grupos até então fora do jogo) para colocar um jovem Ministro Zhi Zhang em ação. E assim conhecemos o Deus Group, com a trilha sonora de Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio tocando ao fundo. Sam Esmail não está aqui para brincar.

Na esteira do pensamento de que “não existe almoço grátis“, o episódio consegue mostrar que para certos tipos de indivíduos, o planeta e seus habitantes são apenas pecinhas em um jogo qualquer de favorecimento pessoal… e se a gente tirar isso da grandeza que temos no projeto dos sonhos de Whiterose, veremos o pensamento e a ação em toda a trajetória de uma grande potência ou de um grande líder mundial, mesmo aqueles que são muito bonzinhos em casa mas não se furtam em pisotear o quintal dos outros (não é mesmo, Sr. Obama?). E aqui me permitirei um paralelismo realista entre séries e mundo atual. Da mesma forma que The Handmaid’s Tale captura o crescimento de uma ditadura fundamentalista cristã e trabalha o apodrecimento das liberdades individuais em prol de um “comportamento de fé, ligado aos bons costumes e aos homens de bem“, Mr. Robot captura a relação entre poder econômico, manipulação estatal e da vida das pessoas através da tecnologia e como esse tipo de construção é fundamentalmente pensada para parecer impossível de se quebrar, de se lutar contra, tirando a seminal ideia da própria História sobre a existência de nossa civilização: se algo foi construído por nós, certamente pode ser destruído e reconstruído. Para Clio, não existe vitória permanente ou império eterno, e enquanto o homem não dominar a Psico-História, tal qual Hari Seldon, ela não terá fim e nem poderá ser cercada de todos os lados. [conseguem ouvir o choro convulsivo de Francis Fukuyama ao fundo?].

A tonalidade da fotografia deste episódio é mais acentuada para o amarelo do que no episódio passado, denotando um grande desconforto dos personagens e enfermidade do ambiente. Desse modo, não é nada espantoso que num ponto tão crítico, onde as ações parecem limitadas e um grupo ainda maior e mais poderoso tenha aparecido para atrapalhar os planos de Elliot, a noção de uma outra personalidade venha à tona. Notem que dois elementos da primeira temporada são retomados aqui de modo ainda mais intenso: a citação de um grupo controlador e a revelação de quem é, na verdade, Mr. Robot. Agora, em outro momento de crise, temos a revelação de quem é este grupo controlador e a citação de que Elliot não é quem ele acha que é. De novo.

E esse “de novo” poderia ser algo negativo para o show, pela premissa apresentada, mas na verdade consegue nos deixar em polvorosa pela excelência com que a revelação é construída. Cenas como a conversa entre Phillip Price e Elliot (uma dança entre realismo fatalista e utopia ou projeto de mundo); entre Phillip Price e Whiterose (num conflito de interesses e poder, onde a maior força se enraivece por ter o mínimo de desconforto em seu grande plano) e entre Elliot e Darlene, que retomam a FSociety no dia da morte da mãe (percebam a simbologia), são momentos aplaudíveis técnica e narrativamente, mesmo que tenham aquela marca dramática meio suspeita, como se algo estivesse faltando no enredo (e a gente sabe que está, pois esse é o mote de todas as temporadas da série: sempre está faltando alguma coisa no sistema). Minha curiosidade para o que vem adiante não poderia ser maior. E notem que só estamos no segundo episódio da temporada. Tá bom pra vocês?

Mr. Robot – 4X02: 402 Payment Required (EUA, 13 de outubro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Amelia Gray
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Grace Gummer, Michael Cristofer, BD Wong, Ashlie Atkinson, Christian Slater, Evan Whitten, Vaishnavi Sharma, Jing Xu, Alex Morf, Garth Kravits, Jeff Blumenkrantz, Daniel Morgan Shelley, Ben Odom
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.