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Crítica | Mundo Bélico (2025-2026)

Uma bem executada ideia requentada.

por Ritter Fan
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O conceito do Mundo Bélico (Battleworld, no original) – basicamente um planeta inteiro criado por seres cósmicos superpoderosos para ser uma arena de combate – surgiu ainda de forma bem acanhada em Torneio de Campeões, em 1982, como não mais do que a própria Terra com sua população inteira em estase para que 24 super-heróis, divididos em dois times, brigassem entre si em nome do Grão-Mestre e da Morte. Em 1984, o Mundo Bélico como um planeta “remendado” criado pelo Beyonder deu as caras pela primeira vez, mesmo que sem ser chamado dessa forma, como palco para a primeira saga da Marvel Comics, a marcante, mas péssima Guerras Secretas, de 1984. Essa estrutura seria usada ainda diversas vezes das mais diferentes formas nas décadas seguintes, até uma nova saga batizada Guerras Secretas ser publicada em 2015, com o objetivo de fazer o que Crise nas Infinitas Terras fizera pela DC Comics, ou seja, uma gigantesca “limpeza” multiversal, realmente faria uso explícito e amplo dessa ideia, com tie-ins passados em “Mundos Bélicos” surpreendentemente interessantes e bons (e olha que eu tenho verdadeira ojeriza a tie-ins) que retrabalharam diversos eventos e sagas da editora.

Como tudo o que dá certo em quadrinhos – e até o que não dá muito certo – retorna mais cedo ou mais tarde em um ciclo infinito de reaproveitamentos de conceitos e ideias, pouco mais de 10 anos depois, o Mundo Bélico “multiversal” retorna . A minissérie em cinco edições publicada entre setembro de 2025 e janeiro de 2026 com roteiro de Christos Gage e arte de Marcus To mostra ter, já na largada, dois pontos a seu favor: trata-se de uma minissérie realmente autocontida, sem nenhuma relação com “Mundos Bélicos” anteriores, o que facilita bastante, e seu roteirista está muito claramente se divertindo no que é um crossover de versões multiversais de personagens conhecidos da Marvel em um “planeta retalho” construído por Korvac para que heróis e vilões selecionados por ele lutem entre si. Por outro lado, justamente por usar personagens escolhidos a dedo de outras linhas temporais e espaciais da editora, a minissérie, para ser realmente aproveitada, exige um pouco de conhecimento desse pessoal todo, ainda que Gage genuinamente faça das tripas coração para explicar detalhadamente, ao final de cada edição, todas as referências que ele insere, das mais evidentes às mais obscuras.

O resultado é uma rinha de galo ao mesmo tempo descompromissada e bem elaborada que tem como interessante bônus construir uma lógica interna para o que Korvac faz que consegue retornar um  pouco da humanidade perdida do superpoderoso personagem cósmico que, na já longínqua segunda metade dos anos 70, figurou na aclamada – mas não tão boa – Saga de Korvac, publicada em 10 edições de Os Vingadores em uma época em que não haviam minisséries em quadrinhos ainda. Gage preocupa-se em dar algum semblante de ordem ao que parece ser um caos aleatório de personagens, alçando o Hank Pym mais velho da linha temporal principal da editora (a Terra-616) como o grande líder da equipe de heróis retirada de linhas temporais diferentes composta pelo Homem-Aranha que acabou de ganhar seus poderes, Bucky Barnes adolescente da Segunda Guerra Mundial, Tempestade de Dias de um Futuro Esquecido, Rei Thor do futuro longínquo que reina sobre Asgard e Midgard destruídas, Carol Danvers como Warbird logo depois de lutar contra o alcoolismo, Kushala (ou Domadora de Demônios) que é tanto o Espírito da Vingança quanto a Feiticeira Suprema do século XIX, Luke Cage da época de Heróis de Aluguel e, finalmente, Vespa Vingadora, uma versão de Janet Van Dyne criada especificamente para a minissérie que perdeu Hank Pym logo no começo de sua carreira e que é líder dos Vingadores de seu universo. Não é necessário muito esforço para compreender o padrão da equipe formada por Gage e ele faz excelente uso dessa característica para refletir o drama de Korvac.

Há diversas outras versões de personagens conhecidos, incluindo do New Universe e da Crossgen, que são supreendentemente muito bem utilizados no cabo de guerra entre Korvac e Pym, mostrando que Gage, mesmo muito claramente seguindo o mandamento da editora de usar a nostalgia como arma, consegue fazer algo bem mais interessante e bem acabado do que a média em situações assim, como é o caso do frustrante, mas inacreditavelmente adorado longa Deadpool & Wolverine. É particularmente alvissareiro notar como Hank Pym é bem desenvolvido, especialmente em oposição à sua esposa de outro universo que vê nessa versão mais velha do marido que nunca teve oportunidade de conhecer alguém tão cheio de traumas que ela tem problemas em se aproximar. Igualmente, Gage tem a rara capacidade de colocar os heróis em seus “devidos lugares”, ao expressamente afastar personagens menos poderosos como o Aranha ou totalmente sem poderes como Bucky, levando-os a agir quase que nos bastidores, mas sem serem esquecidos por um minuto sequer.

A arte de Marcus To, com cores de Rachelle Rosenberg, é vibrante, impressionantemente organizada considerando a quantidade de personagens que precisam aparecer e capaz de uniformizar as versões das várias versões dos super-heróis e super-vilões, mas sem que eles percam suas características, algo que é particularmente interessante nas versões “do passado” do Aranha, Bucky e Cage que só de vê-los nas páginas já percebemos exatamente de que momento temporal eles são. Inevitavelmente, porém, alguns atalhos são tomados e personagens de uso único, como diria Tyler Durden, acabam sendo descartados de maneira conveniente demais, como é o caso de Maestro (o Hulk do futuro) e de Arcade, vilão que sempre achei muito interessante e que foi criador do Mundo do Crime, precursor do Mundo Bélico. Outro problema é que muito da resolução do conflito com Korvac se dá na base do “vamos fazer um acordo” seguido de diálogos intermináveis para explicar os planos, algo que acaba desacelerando a história e criando didatismo excessivo que mais cansa do que alcança seu objetivo.

O que eu tinha certeza que seria apenas mais uma maneira de a Marvel Comics ganhar um troco rápido com uma premissa batida e “fácil”, acabou sendo uma grata surpresa que reúne diversão pura com boa narrativa e o uso por vezes exemplar de determinados personagens. Diria até que a minissérie poderia ser mais longa, evitando as conveniências e as soluções fáceis, pois pelo menos para mim ficou claro que Christos Gage, mesmo muito claramente refestelando-se ao revirar o baú da editora, mostra que sabe o que faz e que ele tinha material para mais. Não duvido nada, porém, que em breve tenhamos Mundo Bélico II, em que justamente isso aconteça, pois, claro, para que largar ideias requentadas que continuam vendendo bem, não é mesmo?

Mundo Bélico (Battleworld – EUA, 2025/26)
Contendo: Battleworld (2025/26) #1 a 5
Roteiro:  Christos Gage
Arte: Marcus To
Cores: Rachelle Rosenberg
Letras: Travis Lanham
Editoria: Danny Khazem, Will Moss. C.B. Cebulski
Editora: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 24 de setembro, 29 de outubro, 26 de novembro e 17 de dezembro de 2025; 14 de janeiro de 2026
Páginas: 125

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