Crítica | O Chamado do Mal

Como consumidores da indústria cultural, podemos perceber que o terror é um gênero cinematográfico permeado pela versatilidade de suas narrativas. Quando acreditamos que já vimos de tudo, algum bom cineasta lança uma obra avassaladora e resgata o gênero da mediocridade, pois ao passo que as histórias ganham novos e bons olhares, outros filmes capitalizam em torno das produções bem sucedidas por meio de tramas “datadas” e pouco interessantes. O Chamado do Mal faz parte deste segundo grupo.

O enredo é simples: Adam (Josh Stewart) é um professor de matemática que muda de cidade junto com a sua esposa Lisa (Bojana Novakovic). A mudança chega por conta da oportunidade de trabalho na melhor universidade do local. Cético e objetivo, Adam é um marido padrão, companheiro atencioso da sua esposa que na história, não possui outra função a não ser cumprir a tarefa de dona de casa. Sem profundidade psicológica e necessidades dramáticas que a aproximem do espectador mais exigente, Lisa é a representação cabal da apatia.

Eis que a narrativa chega ao ponto que deveria ser o ápice da tensão, mas que não passa de uma série de intenções narrativas que não se sustentam: Lisa descobre que está grávida. Eles ficam felizes, mas logo adiante ela tem um aborto espontâneo e perde o bebê, além das chances de engravidar futuramente. Entre o trauma e a paranoia, Lisa começa a ver imagens assustadoras no lar. O marido, inicialmente “prático”, não acredita na esposa, até que a ameaça toma posse da vida de ambos, colocando a todos em perigo.

Assim, Clark (Delroy Lindo) é convocado para um diálogo com as entidades, tendo em vista exercer uma tarefa semelhante ao casal Warren, da franquia Invocação do Mal. Chefe do departamento de matemática da faculdade onde Adam leciona, Clark também possui sensibilidade para questões sobrenaturais. Um interessante adendo na quebra do estereótipo do profissional de matemática perpetuado pelo cinema, tipo de personagem geralmente embrutecido e agente da objetividade excessiva. Algo relevante e fugaz para refletir numa produção de pouquíssimo valor dramático.

Descobrimos que as visões de Lisa estão relacionadas com criações imagéticas da filha perdida durante o aborto. Mas, afinal, o que teria permitido e chegada da entidade na vida do casal? Podemos supor que seja algo oriundo da caixa da fertilidade presenteada pela irmã de Lisa, a voluptuosa e pouco aproveitada Beck (Melissa Bolona), personagem desperdiçada que gravita no roteiro como um corpo amorfo, tal como David (Ben VanderMey), tipo que traz alguma tensão sexual para a narrativa, flagrado constantemente sem camisa, a mostrar seus atributos físicos estonteantes, mas sem finalidade coerente que justifique a sua presença para o desenvolvimento da história.

Remendo de filmes bem estruturados, tais como O Bebê de Rosemary e Invocação do Mal, a suposta história de horror dirigida e escrita pelo iniciante Michael Winnick carece de bons elementos dramáticos, sucumbidos em meio ao festival de malabarismos da equipe técnica. A trama começa com um travelling interessante, guiado pela direção de fotografia de Felix Cramer, acompanhado da condução musical de Jeff Cardoni, razoavelmente interessante, mas óbvia, principalmente depois que a narrativa avança e seu departamento investe constantemente em sustos por meio do jumpscare, recurso que aqui, é banalizado.

Os sons metálicos e as cordas da trilha sonora criam um clima de profundidade não adequado para os personagens planos do roteiro de Winnick. A fotografia inicialmente interessante abre espaço para uma sequência de cenas demasiadamente escuras e desconfortáveis no que concerne aos meandros da apreciação do espectador. No design de produção, Amber Unkle trabalha dentro dos padrões do gênero terror, mas as suas intenções não conseguem superar o principal problema de O Chamado do Mal: o roteiro ruim, tomado por uma longa sequência de infelicidades, tanto dentro como fora do filme. Personagens sofrem e espectadores também.

O trabalho de maquiagem realizado por Bentley Howard é esforçado, mas não promove impacto justamente por conta do problema supracitado. Efeitos especiais dão conta de visões supostamente aterrorizantes, com fantasmas a aparecer em espelhos, aparelhos eletrônicos que ligam sozinhos, objetos que se movem desordenadamente, dentre outros terríveis acontecimentos que tiram o sono dos protagonistas. Em suma: uma sucessão de tentativas visuais que pretendem assustar, mas que ficam apenas no terreno da pretensão. No final, fica um recado para o cineasta que também escreveu a história: a alegoria com a Caixa de Pandora funcionou muito mal. Alguém concorda?

O Chamado do Mal (Malicious/Estados Unidos – 2018)
Direção: Michael Winnick
Roteiro: Michael Winnick
Elenco:Bailee MyKell Cowperthwaite, Ben VanderMey, Bojana Novakovic, Delroy Lindo, Jaqueline Fleming, Jo-Ann Robinson, Josh Stewart, Joy Kate Lawson, Luke Edwards, Melissa Bolona, Presley Richardson, Yvette Yates
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.