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Crítica | O Mistério do Trem Azul, de Agatha Christie

por Luiz Santiago
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Originalmente publicado de forma serializada no jornal londrino The Star, entre 1º de fevereiro e 15 de março de 1928, O Mistério do Trem Azul é amplamente conhecido como o livro que Agatha Christie assumidamente dizia que “sempre odiou” ter escrito. Isso em parte se devia ao fato de a autora ter passado por diversas provações emocionais e psicológicas em 1926 (a morte da mãe, a separação do marido e o desaparecimento por quase duas semanas, provavelmente causado por espécie de colapso nervoso) e a manufatura de The Mystery of the Blue Train veio logo na sequência, no início de 1927, com a autora aceitando a produção para conseguir gerar renda, pois estava precisando de dinheiro.

O livro, no entanto, é uma instigante história que planta importantes sementes para a obra vindoura da Rainha do Crime. É aqui que aparece pela primeira vez a pequena e fictícia vila St. Mary Mead, lar da segunda mais importante personagem de Christie, a encantadora Miss Marple. Também surgem pela primeira vez o mordomo de Poirot (George) e o Sr. Goby, o homem que pode conseguir, em poucas horas, tudo o que é necessário conseguir de informações sobre a vida de uma determinada pessoa, e que voltaria a aparecer futuramente em Depois do Funeral (1953) e A Terceira Moça (1966).

Nós podemos entender o sentimento negativo da autora com O Mistério do Trem Azul, mas isso não significa que o livro seja ruim. Longe disso. Na criação do mistério, ele me lembrou até a forma como a Rainha organizaria a trama de Morte no Nilo (onde uma personagem, a Sra. Van Schuyler, cita um indivíduo central do presente volume, o milionário Rufus Van Aldin), mostrando personagens em distintos núcleos e, num segundo momento, ligando-os a Hercule Poirot. No enredo, o já citado ricaço americano Van Aldin compra, de forma totalmente obscura, um colar de rubi conhecido como “Coração de Fogo” e o dá de presente à sua filha Ruth Kettering. O imenso valor desse presente, o fato de o colar ser imensamente cobiçado, as relações suspeitas de Ruth e o seu posterior assassinato no Trem Azul, quando se dirigia à Riviera Francesa, formam a teia de mistério que manterá o homenzinho belga ocupado durante todo o tempo.

Poirot inicialmente está no caso como um acompanhante da polícia francesa, mas logo entra no caso como um investigador particular, sendo contratado por Van Aldin para descobrir quem matou Ruth. Como sempre, a lista de suspeitos vai aumentando ao longo da narrativa e a maneira como a escrita ergue os álibis e os possíveis motivos para cada um garantem uma enorme diversão para o leitor, que também consegue aproveitar uma camada romântica se desenvolvendo paralelamente à investigação. Outra discussão explorada aqui é a cobiça em diversos grupos sociais e como ela se manifesta ou é alimentada por diferentes tipos de pessoa. Em última análise: o que cada um desses indivíduos é capaz de fazer para conseguir integrar um ciclo social influente ou colocar as mãos em muito dinheiro?

O Mistério do Trem Azul mostra Poirot pegando dicas interessantes de pessoas ao seu redor (até demais, para o nosso gosto), além de agir de modo excêntrico em diversos momentos, alguns deles sem uma explicação realmente sólida para tal ação, apenas para despistar o leitor ou reafirmar o caráter “não muito normal” do detetive. Um suspense sobre o planejamento cuidadoso de um crime que jamais seria desvendado se não fosse o exercício das células cinzentas do grande Hercule Poirot.

O Mistério do Trem Azul (The Mystery of the Blue Train) — Reino Unido, 29 de março de 1928
Autora: Agatha Christie
Publicação original: William Collins & Sons
Capista original: C. Morse (pseudônimo de Salomon van Abbé)
Edição lida para esta crítica: L&PM (2009)
Tradução: Carlos André Moreira
293 páginas

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