As ideias de Agatha Christie sobre sociedades secretas, conspirações internacionais e a aristocracia britânica no entre-guerras sempre tiveram uma cara de paródia mal disfarçada (também atravessada por passagens racistas, xenofóbicas e indiretamente anticomunistas), além de muita ironia social e política. Críticos do Times Literary Supplement reclamaram, em abril de 1929, que ela havia trocado o “procedimento metódico de investigação” pela “maluquice das conspirações mundiais“. Mais de cinco décadas depois, em março de 1981, a London Weekend Television adaptou uma obra dessa fase controversa para a TV, numa produção dirigida por Tony Wharmby, seguindo a trilha da bem-sucedida Por Que Não Pediram a Evans?, do ano anterior. Aqui, temos Cheryl Campbell vivendo Lady Eileen “Bundle” Brent, aristocrata destemida que investiga mortes suspeitas numa festa em Chimneys, enquanto desenterra conexões com a tal organização ‘Seven Dials’ e esquemas estranhos de espionagem industrial. Christie havia escrito o romance original no período que ela mesma chamou de “plutocrático“, tratando essas histórias como produtos fáceis de fazer, sem exigir o planejamento minucioso das obras de detetive propriamente ditas.
Wharmby dirige o filme com aquele ritmo teatral típico das produções britânicas oitentistas, bancando diálogos extensos e cenas de interior que mais lembram palco do que TV ou cinema. Campbell interpreta Bundle com energia assertiva, mas a atriz não sabe o quanto de afetação cabe organicamente em sua vivacidade aristocrática, por isso comete alguns erros em cena. A química com James Warwick (Jimmy Thesiger) é grande porque ambos parecem muito conscientes do ridículo que cerca e que afeta seus personagens, jovens entediados da alta sociedade brincando de detetive entre festas e banalidades. Figurinos exagerados, posturas afetadas até o absurdo, aquele vocabulário pontuado por “I say!” e “By Jove!” são uma transposição bastante fiel daquilo que Christie escreveu, essa galeria de bright young things cujo despropósito ela retratava com distanciamento irônico. John Gielgud rouba cada cena com um humor ácido e improvável, transformando Lord Caterham num estudo de apatia aristocrática certeiro, enquanto Harry Andrews traz aquela solidez britânica ao Superintendente Battle, contraponto adulto (e formal) necessário às brincadeiras juvenis de Bundle.
O mistério gira em torno da morte de Gerald Wade durante uma brincadeira com relógios despertadores e passa por mansões, clubes noturnos questionáveis e salas governamentais onde se negociam segredos de Estado. A trama segue os moldes das populares espionagens literárias do começo do século XX, aquelas em que autoridades disfarçadas, agentes duplos e mapas, códigos ou fórmulas científicas roubadas dividiam o mesmo espaço e os mesmos núcleos de personagens. O diretor mantém essa estrutura labiríntica até o limite do compreensível, dando corda para as reviravoltas e para as pistas falsas, mas a solução deixa o espectador meio atordoado, questionando se o enredo resistiria a uma segunda olhada. Pat Sandys, roteirista responsável pela transposição, optou pela fidelidade quase literal ao texto original (mesma coisa que faria em O Adversário Secreto, de 1983), mantendo inverossimilhanças estruturais que faziam parte do DNA da obra. Só que falta à produção aquele senso de urgência que temos no livro. O thriller é construído com bastante tranquilidade, assumindo que só a engenhosidade do enredo vai segurar o nosso interesse por duas horas. E quase não o faz.
Esta adaptação de O Mistério dos Sete Relógios é parte de um projeto de produções no Reino Unido que apostou em obras de Agatha Christie longe de Poirot e Miss Marple, explorando narrativas secundárias com elencos de primeira. Não chega perto da excelência das melhores adaptações christianas, aquelas que equilibram fidelidade à essência e reinvenção, nem tem a urgência que justificaria duração tão esticada, mas cumpre uma função documental ao mostrar como certas obras ficam melhor no papel do que na tela, como ironias autorais se perdem quando viram imagem e som. Christie zombava dos leitores quando escrevia essas aventuras “leves“, oferecia escapismo sem pretensão de profundidade, e talvez o maior acerto da adaptação esteja em compreender isso, inclusive em seu romance bobinho, mas charmoso. Bundle nunca quis ser Miss Marple, os thrillers de espionagem christianos nunca tentaram disputar com os mistérios de quarto fechado, e este telefilme aceita essa posição intermediária sem ambições maiores, confortável até demais em ser uma produção “apenas boa” de um ótimo livro.
O Mistério dos Sete Relógios (Seven Dials Mystery) — Reino Unido, 1981
Direção: Tony Wharmby
Roteiro: Pat Sandys (baseada na obra de Agatha Christie)
Elenco: John Gielgud, Harry Andrews, Cheryl Campbell, James Warwick, Joyce Redman, Leslie Sands, Lucy Gutteridge, Terence Alexander, Rula Lenska, Christopher Scoular, James Griffiths, Brian Wilde, Hetty Baynes, John Vine, Robert Longden, Jacob Witkin, Sandor Elès, Norwich Duff
Duração: 132 min.
