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Crítica | O Nevoeiro (Versão em Preto e Branco)

por Ritter Fan
289 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

A crítica da versão cinematográfica de O Nevoeiro, terceira adaptação de uma obra de Stephen King dirigida por Frank Darabont o leitor poderá encontrar aqui. O agora clássico “filme de monstro” é uma experiência espetacular da forma que ele foi filmado originalmente, a cores, já que a ideia inicial do cineasta, de trabalhar com fotografia em preto e branco, não fora aceita pelo estúdio. O objetivo da presente crítica, portanto, é tecer comentários sobre o lançamento de O Nevoeiro como seu diretor originalmente o imaginara, algo que a tecnologia moderna ainda bem permite com uma certa facilidade.

É importante deixar claro que converter um filme originalmente colorido para preto e branco não é algo trivial como reduzir a zero as cores de um aparelho de televisão, o que apenas artificialmente cria a ilusão que se deseja. O trabalho de voltar ao negativo digitalizado – a produção foi capturada em película – é hercúleo e o diretor precisa analisar cada fotograma de maneira a trazer uma experiência que se assemelharia aos cuidados tomados pela direção de fotografia se ela fosse feita em preto e branco. É como basicamente Darabont tivesse refeito o filme, ainda que nada – absolutamente nada – efetivamente mude em termos de história, novas cenas ou takes diferentes. A versão ora sob comentário é exatamente igual, fotograma a fotograma, da analisada em nossa outra crítica, mas já vou desde já deixar um spoiler sobre o que achei: a experiência é completamente diferente e magnífica de outra maneira. A magia do Cinema realmente é algo fora do comum quando ela nos permite ter esse tipo de reação à “mesma obra, só que sem cores”.

Quando Stephen King escreveu o conto que deu base ao filme, ele imaginou toda a situação como um filme B de ficção científica dos anos 50 e 60, confinando seus personagens em uma locação, cercando-os de uma névoa impenetrável e fazendo-os enfrentar monstros misteriosos. A breve sinopse respira exatamente esse período da Sétima Arte, com obras normalmente fotografadas em preto e branco, ainda mais barato e econômico na época do que o filme colorido. Mas o objetivo de King, claro, não era só fazer um filme de monstros, mas sim estudar a reação humana em uma situação limite como essa, um artifício literário e cinematográfico até bastante comum e, sem em mãos certas, potencialmente fascinante. Darabont, especialista em King como é (seu primeiro trabalho em direção – em 1983 – foi no curta The Woman in the Room, baseado em obra de Stephen King), capturou perfeitamente essa essência em sua obra, alterando-lhe o final que, hoje, é considerado melhor do que o do conto.

E, quando teve oportunidade, o cineasta voltou para o master negativo e fez de seu filme algo ainda mais próximo do que King imaginara: uma quase que literal volta aos anos 50 e 60, abordando a obra do jeito que ela deveria ter sido abordada desde o início. O preto e branco que Darabont tão minuciosamente traz para essa versão deixa ainda mais à mostra o grão do filme utilizado para capturar as imagens, emprestando um ar ainda mais forte de uma produção menor de priscas eras, um literal trash que de trash não tem verdadeiramente nada. Da mesma forma, a sensação de claustrofobia é amplificada com a ausência de cores. O nevoeiro espesso transforma-se em uma parede intransponível e o suspense causado pelos tentáculos que de lá saem, canalizando as criaturas lovecraftianas, torna-se ao mesmo tempo mais sutil e mais eficiente.

Outro ponto que merece destaque e que só é mesmo percebido na comparação, é o quanto o sangue vermelho ajuda na quebra de imersão na narrativa. Sim, é a reprodução mais fiel da realidade, mas a cor é forte e ela despedaça a sutileza. Na versão em preto e branco, o sangue de “chocolate”, só para citar a substância usada por Alfred Hitchcock na famosíssima cena da banheira de Psicose, consegue ser tão horrível quanto, mas sem retirar nossa atenção da tela.

O Nevoeiro já era uma experiência perturbadora, mas sua versão em preto e branco é mais imersiva e impactante, realmente uma nova maneira de olhar para esse filme. Sem dúvida alguma, essa é a versão definitiva dessa obra-prima do horror.

O Nevoeiro (The Mist, EUA – 2007)
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto The Mist, de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Toby Jones, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, William Sadler, Alexa Davalos, Jeffrey DeMunn, Chris Owen, Sam Witwer, Robert C. Treveiler, David Jensen, Melissa McBride, Andy Stahl, Juan Gabriel Pareja
Duração: 126 min.

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11 comentários

Gabriel Carvalho 20 de agosto de 2019 - 11:22

Uma das únicas vezes que King esteve certo foi ao dizer que o final desse filme era melhor que o do seu livro. Curto muito e vou correr para ver essa versão.

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planocritico 21 de agosto de 2019 - 19:15

Sim. Finalmente o King acertou em algo sobre Cinema…

Abs,
Ritter.

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Carlos Souza 20 de agosto de 2019 - 10:50

A série da netflix não chega nem perto dessa atmosfera, agora eu entendo a decepção de uma boa quantidade de pessoas que a viram.

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planocritico 21 de agosto de 2019 - 19:16

Não dá nem para começar a comparar!

Abs,
Ritter.

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Érica Pazzi 23 de agosto de 2019 - 18:19

Eu estou nessa lista de pessoas haha
Fiz até pizza no dia da estreia… Então imagina minha cara qdo terminou .
Achei muito decepcionante.
Tinha potencial pra ficar ótimo tanto o livro qto o conto são ótimos.

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Xande Rodrigues 19 de agosto de 2019 - 23:46

Tentando encontrar um torrent. Só achei um de 11gb.

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Jose Claudio Gomes de Souza 19 de agosto de 2019 - 19:31

Ritter, esse é um dos meus filmes favoritos. Nunca canso de revê-lo. O impacto da cena final é impagável e conversando com amigos outro dia, cheguei à conclusão de que dificilmente hoje, com esse tempo do politicamente correto em que vivemos, algum diretor tivesse peito de terminar o filme daquele jeito.

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planocritico 19 de agosto de 2019 - 19:31

Concordo. E não é nem por uma questão de correção política, mas sim pelo fato que os estúdios estão cada vez mais avessos ao risco e esse final é um risco imenso.

Abs,
Ritter.

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Luciano 24 de junho de 2017 - 23:14

Essa versão P&B por acaso saiu no Brasil?

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Guilherme Coral 25 de junho de 2017 - 13:40

Olha, eu tenho a versão “gringa”, então não posso dizer com certeza. Mas alguns leitores disseram que o DVD brasileiro não traz esse extra, infelizmente. E ainda é fullscreen o negócio.

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Luciano 25 de junho de 2017 - 14:27

Que pena isso, fiquei muito interessado. Mesmo sem saber que a ideia era filmar em preto e branco eu tive a sensação de que o filme ficaria melhor dessa maneira, fiquei surpreso em saber que a ideia era essa e mais surpreso em saber que existe essa versão.
Muito obrigado por responder 🙂

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