Crítica | O Nevoeiro (Versão em Preto e Branco)

estrelas 5,0

A crítica da versão cinematográfica de O Nevoeiro, terceira adaptação de uma obra de Stephen King dirigida por Frank Darabont o leitor poderá encontrar aqui. O agora clássico “filme de monstro” é uma experiência espetacular da forma que ele foi filmado originalmente, a cores, já que a ideia inicial do cineasta, de trabalhar com fotografia em preto e branco, não fora aceita pelo estúdio. O objetivo da presente crítica, portanto, é tecer comentários sobre o lançamento de O Nevoeiro como seu diretor originalmente o imaginara, algo que a tecnologia moderna ainda bem permite com uma certa facilidade.

É importante deixar claro que converter um filme originalmente colorido para preto e branco não é algo trivial como reduzir a zero as cores de um aparelho de televisão, o que apenas artificialmente cria a ilusão que se deseja. O trabalho de voltar ao negativo digitalizado – a produção foi capturada em película – é hercúleo e o diretor precisa analisar cada fotograma de maneira a trazer uma experiência que se assemelharia aos cuidados tomados pela direção de fotografia se ela fosse feita em preto e branco. É como basicamente Darabont tivesse refeito o filme, ainda que nada – absolutamente nada – efetivamente mude em termos de história, novas cenas ou takes diferentes. A versão ora sob comentário é exatamente igual, fotograma a fotograma, da analisada em nossa outra crítica, mas já vou desde já deixar um spoiler sobre o que achei: a experiência é completamente diferente e magnífica de outra maneira. A magia do Cinema realmente é algo fora do comum quando ela nos permite ter esse tipo de reação à “mesma obra, só que sem cores”.

Quando Stephen King escreveu o conto que deu base ao filme, ele imaginou toda a situação como um filme B de ficção científica dos anos 50 e 60, confinando seus personagens em uma locação, cercando-os de uma névoa impenetrável e fazendo-os enfrentar monstros misteriosos. A breve sinopse respira exatamente esse período da Sétima Arte, com obras normalmente fotografadas em preto e branco, ainda mais barato e econômico na época do que o filme colorido. Mas o objetivo de King, claro, não era só fazer um filme de monstros, mas sim estudar a reação humana em uma situação limite como essa, um artifício literário e cinematográfico até bastante comum e, sem em mãos certas, potencialmente fascinante. Darabont, especialista em King como é (seu primeiro trabalho em direção – em 1983 – foi no curta The Woman in the Room, baseado em obra de Stephen King), capturou perfeitamente essa essência em sua obra, alterando-lhe o final que, hoje, é considerado melhor do que o do conto.

E, quando teve oportunidade, o cineasta voltou para o master negativo e fez de seu filme algo ainda mais próximo do que King imaginara: uma quase que literal volta aos anos 50 e 60, abordando a obra do jeito que ela deveria ter sido abordada desde o início. O preto e branco que Darabont tão minuciosamente traz para essa versão deixa ainda mais à mostra o grão do filme utilizado para capturar as imagens, emprestando um ar ainda mais forte de uma produção menor de priscas eras, um literal trash que de trash não tem verdadeiramente nada. Da mesma forma, a sensação de claustrofobia é amplificada com a ausência de cores. O nevoeiro espesso transforma-se em uma parede intransponível e o suspense causado pelos tentáculos que de lá saem, canalizando as criaturas lovecraftianas, torna-se ao mesmo tempo mais sutil e mais eficiente.

Outro ponto que merece destaque e que só é mesmo percebido na comparação, é o quanto o sangue vermelho ajuda na quebra de imersão na narrativa. Sim, é a reprodução mais fiel da realidade, mas a cor é forte e ela despedaça a sutileza. Na versão em preto e branco, o sangue de “chocolate”, só para citar a substância usada por Alfred Hitchcock na famosíssima cena da banheira de Psicose, consegue ser tão horrível quanto, mas sem retirar nossa atenção da tela.

O Nevoeiro já era uma experiência perturbadora, mas sua versão em preto e branco é mais imersiva e impactante, realmente uma nova maneira de olhar para esse filme. Sem dúvida alguma, essa é a versão definitiva dessa obra-prima do horror.

O Nevoeiro (The Mist, EUA – 2007)
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto The Mist, de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Toby Jones, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, William Sadler, Alexa Davalos, Jeffrey DeMunn, Chris Owen, Sam Witwer, Robert C. Treveiler, David Jensen, Melissa McBride, Andy Stahl, Juan Gabriel Pareja
Duração: 126 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.