Crítica | Obsessiva

Quando estreou em 2009, Obsessiva foi comparado por diversos críticos e espectadores ao já clássico Atração Fatal, de 1987, trama que foi uma das responsáveis pela pavimentação do subgênero mulheres psicóticas nos meandros do suspense e do drama. Com presença de personagens negros em posição de sucesso, algo típico de um filme envolvendo Beyoncé nos bastidores de produção, Obsessiva retrata uma família rumo ao recomeço. Eles casaram há pouco tempo. Ela era secretária dele, apaixonou-se no ambiente de trabalho e largou tudo para cuidar do filho e da casa.

No espaço novo, eles ajustam passo a passo o lar para maior conforto e sobrevivência da família de classe média alta. As coisas vão bem para Derek (Idris Elba) e Sharon (Beyoncé Knowles) até o dia que a secretária temporária Lisa Sheridan (Ali Larter) chega ao escritório do patriarca. Ele é executivo da Gage Bendix e inicialmente observa a funcionária com distanciamento e respeito, tendo em vista evitar problemas com a esposa ciumenta, diferente de Ben Dorel (Jerry O’Connel), seu colega de trabalho também casado, mas atiçado pelo olhar provocante da nova funcionária.

Os grandes problemas começam na festa natalina da empresa, comemoração onde os envolvidos não levam os seus cônjuges. Altos por conta do álcool e do clima de animação, Derek, Lisa e os demais e divertem e sequer percebem que talvez estejam indo longe demais. Ao seguir para casa, ciente da combustão sexual prestes a explodir por parte de Lisa, sempre oferecida, Derek é surpreendido no banheiro masculino. A moça de fato acredita que ele está interessado e os dois adentram numa série de situações embaraçosas desde então, com rumos nada agradáveis para nenhuma das partes, numa trama que já desconfiamos um pouco do desfecho, haja vista a revisitação temática constante no cinema, na literatura e na televisão.

Seria injusto classificar Obsessiva como um filme ruim, pois a sua trama é apenas uma versão do que outros realizadores já fizeram em narrativas melhores, o que no entanto, não o estigmatiza como uma produção medíocre. É apenas algo sendo recontado com atores e estrutura levemente, mas bem levemente diferente, em especial, o seu final, pois aqui as mulheres são colocadas num embate que não depende dos homens para salvá-las.

Ademais, os elementos são os mesmos: a transtornada deseja o homem que não a quer, consegue infernizar a vida pessoal e profissional do indivíduo, para mais adiante, atentar contra a própria vida em busca de atenção. Como não consegue, resolve mexer com o item sagrado da família, isto é, o filho do casal, logo adiante, aplica o seu golpe final, sem medir consequências e ficar/deixar a si e ao “outro”, sendo o cara ou a sua esposa, na linha entre a vida e a morte, geralmente com o triunfo do “bem” no desfecho.

Para nos contar a história que fez sucesso nas bilheterias estadunidenses e saiu direto em DVD aqui no Brasil, o cineasta Steven Hill teve apoio de Ken Seng na direção de fotografia, profissional que faz um excelente trabalho de iluminação no escritório de Derek e consegue dar conta da luta do ato final, bem coreografada por meio da destreza das atrizes e dos seus enquadramentos e movimentos de câmera, também bem escolhidos ao delinear os aspectos sensuais da loira fatal do roteiro.

O design de produção assinado por John Gary Steele é outro setor bem intencionado, com adequado equilíbrio entre o ambiente doméstico de Derek e seu espaço de trabalho, ambientes ornamentados em diferentes perspectivas. Com apoio da cenografia de Dena Roth em seu setor, o design narrativo impacta nas sensações e permite a Beyoncé circular com segurança em torno do espaço dado ao seu personagem, algo semelhante ao que ocorre com Ali Larter e seus saltos e roupas insinuantes, sensuais na medida certa, graças ao excelente trabalho de figurino e composição de cores da figurinista Maya Lieberman.

O que enfraquece Obsessiva e não o deixa ser um filme espetacular dentro do subgênero das mulheres psicóticas é um feixe de situações que vão do material dramatúrgico aos elementos externos ao documento. Primeiro, a trama não é Atração Fatal, mas a história é de uma semelhança gritante. Há também paralelos com outras narrativas, menos intensos que a proximidade com o filme de Glenn Close, tais como Assédio Sexual e Presença de Helena. O primeiro por conta de ambos estarem no ambiente de trabalho e o segundo pela força imaginativa da mente de uma personagem obcecada, psicótica, aparentemente inofensiva, mas muito perigosa.

O texto de David Laughery oferta poucos bons momentos ao personagem de Beyoncé, artista que consegue dar conta de papeis do tipo, mas possui pouco material para se inspirar, o que ocasiona um desempenho dramático médio. O seu interesse por estudos e retorno ao mundo corporativo depois do crescimento do primeiro filho é até válido para a tentativa de torna-la esférica e importante, mas a sua participação se torna mais ativa apenas próximo ao terceiro ato, sendo o filme uma narrativa de Idris Elba, ator que faz o seu melhor e consegue transmitir ao público a sinceridade do seu personagem.

Por ser um homem negro bem sucedido, sabemos que é um alvo muito maior dentro de um suposto esquema de assédio sexual armado pela secretária psicopata, alguém que mesmo depois de desmentida, teria arrastado o chefe por um processo de exposição, descrença e saturação de imagem que às vezes não permite retorno ao clima de normalidade. O personagem provavelmente pensa na questão, mas isso em nenhum momento é tratado na história, algo que fica por conta do espectador e as possibilidades da estética da recepção. Imaginamos e fazemos as ilações, mesmo que não esteja lá.

Em seus 108 minutos, Obsessiva é conduzido musicalmente por James Dooley, profissional que em momento algum comente excessos, tal como Paul Seydor na montagem, editor que dá ao filme o ritmo necessário entre o drama e o suspense, sem deixar cenas longas demais, podando diálogos gordurosos e mantendo a narrativa numa linha temporal linear e bem organizada, num trabalho que parece dar retoques aos problemas do roteiro.

De volta ao texto dramático, por sinal, temos o primeiro filme em que Beyoncé não depende de seu talento vocal para o desempenho diante das telas. Aqui, ela conta com os seus malabarismos comuns aos palcos, pois a luta final é uma alegoria para a dança, isto é, um conjunto de passos oriundos de uma coreografia que demonstra duas pessoas em busca de sobrevivência, sem espaço para redenção. É matar ou morrer.

Obsessiva — (Obsessed) Estados Unidos, 2009.
Direção: Steven Hill
Roteiro:  David Laughery
Elenco:  Idris Elba, Ali Larter, Beyoncé Knowles, Bruce McGill, Christine Lahti, Jerry O’Connell, Ron Roggé, Scout Taylor-Compton
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.