Home QuadrinhosMangá Crítica | One Piece – Vols. 5 a 8: Baratie (Saga East Blue)

Crítica | One Piece – Vols. 5 a 8: Baratie (Saga East Blue)

por Kevin Rick
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Baratie

Continuando sua estrutura de a cada novo arco apresentar um novo membro para o bando, Eiichiro Oda nos leva ao Baratie, um restaurante marítimo, no qual o grupo do Luffy procura desesperadamente um cozinheiro para acompanhar sua jornada em busca do One Piece. Eu continuo batendo na tecla da criatividade do Oda para alargar, destrinchar e expandir sua estrutura batida, mas é preciso reiterar como o mangaká continua abraçando os clichês, nunca fingindo ser inovador, contudo, meio que sendo revolucionário no sentido de como trabalhar com convenções do gênero, sustentando uma espécie de previsibilidade fresca. A partir de Baratie, é possível ver os primeiros passos do autor em desvencilhar-se do “conceito” de ilha, abrindo seu horizonte para novas abordagens com as localidades, nesse caso, um restaurante no meio do mar.

Isso começa a dar espaço para Oda brincar com a construção de mundo e a ambientação de combate, e, claro, sua imaginação engenhosa vai criando esse laço com o leitor de “o que vem à seguir”, nos fisgando para dentro da aventura sistemática de Luffy. Esse artifício é complementado pela caracterização dos “locais”, muito bem feita aqui, nos apresentando a divertida dinâmica dos piratas-cozinheiros de Zeff, com a adição do futuro integrante do bando: Sanji. E, além disso, o arranjo continua comportando uma temática geral. Se em Vila Syrup, a narrativa acontecia em torno da mentira como forma de proteção da verdade trágica, no arco do cozinheiro galanteador nós temos a culpa, e por quê não, o orgulho, nesse viés de ambientação da trama e das situações antagonistas corroborarem a turbulência interna do novo membro em questão. E indo até um pouquinho além, o autor utiliza da própria profissão de Sanji como simbologia para a maior problemática do arco: a fome.

Dessa forma, Oda constrói um arco ainda mais fechadinho na simbologia que o de Usopp, manuseando todas as características de Sanji, desde sua personalidade esquentada e compaixão com qualquer indivíduo passando fome, até sua contradição de aspiração, bloqueada pela dívida com Zeff, e seu próprio ofício como abordagem geral de todo o arco. Pela forma que falo, talvez pareça que exista um exercício espetacular de mensagens simbólicas ocultas do Oda, mas a verdade é que tudo é bem mastigado para o leitor, com muita exposição, exageração e simplicidade no desenvolvimento de ensinamentos para Sanji, o que, de forma alguma, diminui a qualidade da ideia central, apenas exibindo como o procedimento um tanto facilmente perceptível e presumível é orgânico no contexto do núcleo infantojuvenil da trama. Aliás, os flashbacks continuam brutalmente emocionantes. É um recurso habitual de Shounen, mas Oda, mesmo econômico, sabe emocionar como poucos nessa exposição dos passados dos personagens.

Baratie

Ainda reiterando motes como “tesouro” e “sonho”, o mangaká novamente utiliza Luffy, e agora Zoro também, nessa apresentação de determinação ambiciosa para Sanji. A curta duração de Zoro no arco resulta no embate com o melhor espadachim do mundo, Mihawk, num dos melhores momentos de toda a obra, compilando a persistência, reconhecimento e, honestamente, estupidez do personagem. Dessa forma, o roteiro aos pouquinhos vai abrindo os horizontes de Zoro e Luffy, um tantinho arrogantes até este ponto da jornada, quebrando a realidade do que é a Grand Line, o mar onde encontra-se o One Piece. Na verdade, Baratie funciona como um arco de introdução à Grand Line, nessa jogada de migalhas e diálogos curtos, porém expositivos, da hercúlea tarefa de simplesmente adentrar esse perigoso trajeto marítimo.

Minha dificuldade com o arco é o antagonista principal, Don Krieg. Acho ele um completo boçal, e um desserviço para a ótima lista de “vilões” de One Piece, manuseado de modo bem leviano por Oda. Ele é canastrão no pior sentido da palavra, e não proporciona qualquer tipo de desenvolvimento relevante à trama, ou simples divertimento corriqueiro desses arcos iniciais, como Buggy e Morgan. Ele é o fio condutor da ameaça ao Baratie, mas acaba sendo uma sombra do Gin, seu subordinado, personagem este muito mais relevante para a narrativa, justaposto perfeitamente no paralelo com Sanji na temática de culpa.

Por fim, considero Baratie o arco mais redondinho de One Piece até aqui, mantendo a melhor construção de desenvolvimento de um membro específico, nesse caso, o Sanji, enquanto expande a visão extremamente criativa do Oda, com pequenos vestígios do que vem por aí: Grand Line, o passado da Nami, All Blue e o caminho tortuoso, que os jovens audaciosos finalmente tem perspectiva, sustentando aquela leitura divertida de acompanhar, com muita emoção e ação cômica bem trabalhada.

One Piece – Vols. 5 a 8: Baratie – Saga East Blue (One Piece – Vols. 5-8: クソジジイ – East Blue Saga) – Japão, 1998/1999
Contendo:  Baratie (#42 a 68)
Roteiro: Eiichiro Oda
Arte: Eiichiro Oda
Editora: Shueisha
Revista: Weekly Shōnen Jump
No Brasil:
One Piece – Vols. 5 a 8 (Panini, 2012)
576 páginas

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