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Crítica | Os Fabelmans

Sonho e memória de uma arte.

por Luiz Santiago
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A arte transforma as pessoas. Tem a capacidade de trazer novas lentes para uma visão de mundo, de desenterrar coisas escondidas em nosso interior, de trazer à tona um senso de glória e felicidade de ser humano, que apenas algo às vezes tão indescritível como a própria arte pode trazer. E de todas elas, o cinema é a verdadeira arte do olhar. A arte que nos fascina por uma piscadela diferente, a arte que nos deixa mudos através do flerte. Esta é a sensação que o pequeno Sammy Fabelman (Mateo Zoryan) experimenta quando vai ao cinema pela primeira vez e assiste a O Maior Espetáculo da Terra (1952), de Cecil B. DeMille. O poder da cena do acidente de trem é tão grande, que se torna a semente de um sonho para o garoto, inicialmente como um trauma — diante da força violenta do desconhecido (os pesadelos) — e depois como espetáculo. Ainda criança, Sammy aprende uma das mais valiosas lições de cinema: a imagem é tudo; e ela deve ter a capacidade de transformar o real em alguma outra coisa.

A vida profissional de Steven Spielberg foi exatamente a construção dessa transformação da imagem cinematográfica em múltiplos significados, emoções e marcos históricos, padrão que se segue aqui, quando ele revisita o seu passado em Os Fabelmans (2022), mostrando o primeiro contato com o cinema, as primeiras experiências como cineasta amador e a chegada ao mundo profissional. Mas não é apenas o caso de um filme de memórias. Por ter começado ainda criança a fazer filmagens em casa e, já na adolescência, ter experiências dirigindo grupos de colegas e fazendo filmes cada vez mais aprimorados — levando em conta os recursos e o conhecimento que possuía –, Spielberg tem uma história que se confunde com o próprio ato de fazer filmes, de modo que a jornada de sua família, mostrada num roteiro que escreve com Tony Kushner, é mais um relato do amadurecimento de sua capacidade de dirigir do que qualquer outra coisa. E talvez aí é que comecem os problemas do filme.

Não é possível separar o enredo de Os Fabelmans da vida de seu diretor, porque o filme não foi concebido e nem vendido para que essa separação existisse. Ao contrário, as propagandas oficiais da Universal colocam o próprio Spielberg falando que “desta vez, não se trata de metáfora, mas de memória“. A trama, no entanto, é um pacote autoindulgente que parece não conseguir decidir exatamente o que quer explorar, confusão que termina por trazer incômodos no que diz respeito ao foco narrativo e ao sentido dramático da fita. Afinal, estamos diante de um longa sobre a família Fabelman? Certamente que não, a família não é o centro das atenções aqui. Ah, então estamos diante de um longa sobre Sammy Fabelman? De certo modo, sim, mas não unicamente sobre a história de sua vida, e sim sobre a sua existência de jovem diretor como espelho para outra coisa. Uh, então estamos diante de uma obra sobre o “fazer cinematográfico“? Não unicamente, porque essa linha de abordagem é atravessada pelas outras duas já citadas, criando algo que deságua numa bagunça da qual entendemos o propósito, mas diante da qual é impossível não se sentir incomodado.

É engano, porém, achar que esse emaranhado de intenções seja um problema que nulifica Os Fabelmans. Entendemos que o poder transformador do cinema e a capacidade que a Sétima Arte tem de criar heróis e vilões, de engrandecer ou rebaixar indivíduos, de construir vencedores e esmagar perdedores está posta aqui como resultado dos experimentos de Sammy ao longo da vida. Embora nem todos os seus momentos de exibição sejam verdadeiramente bons no contexto — o destaque absoluto vai para dois deles, mas aqui citarei apenas o primeiro, o momento em que sua mãe vê o filme-denúncia sobre a relação indireta entre ela e Benny (Seth Rogen) –, eles servem como demonstração de que a visão de mundo de um indivíduo pode emocionar ou traumatizar outros, um poder que apenas um verdadeiro “fable man” possui. Ao redor dessas criações, vemos a projeção de “clipes de uma vida“, dos momentos que moldam o protagonista dando-lhe material para criar mais coisas: um entrelaçamento entre vida pessoal e vida artística que não é nada fácil colocar na tela. A não ser que você escolha deixar o ego de lado e explorar seu amor e relação com o cinema de outra forma, digamos, como um certo diretor fez em A Invenção de Hugo Cabret.

A conhecida competência de Spielberg ao guiar o elenco nos dá a oportunidade de presenciar momentos imensamente impactantes, como a melhor interpretação da carreira de uma atriz, por exemplo (Michelle Williams); como uma das atuações mais doces e dolorosas de um ator (Paul Dano) ou como a encarnação de si mesmo na pele de outro indivíduo, como o diretor orienta na pessoa de Gabriel LaBelle, construindo um personagem introspectivo que pouco a pouco encontra caminhos que abrir janelas para a vida e mostrar-se ao mundo através de sua arte. O segredo, claro, é a maneira atenta como esse garoto abstrai o mundo. Ele se mistura na multidão, se mantém “invisível” e logra captar aquilo que ninguém realmente vê. No processo de edição, sua racionalidade se veste de emoção e ele muda o sentido do que foi visto, inventa personagens por justaposição, tira de cena momentos comprometedores, adiciona coisas inesperadas; cria e destrói histórias de vida, sonhos, memórias felizes, decepções.

Se as imagens capturadas envergonham, fazem o espectador se sentir arrasado ou enlevam o espírito de alguém, esta é a prova de que o criador de fábulas aprendeu uma grande lição. Ele conseguiu manipular as emoções do público; algo que Spielberg sabe fazer muito bem, e que alguns de seus críticos vê como negativo. A cena mais representativa disso (que é uma verdadeira obra-prima) é o segundo momento em que as exibições de Sam são realmente boas: a reprodução, durante a formatura, das filmagens do “dia na praia“. Tanto o conteúdo exibido, quanto a montagem e o resultado que isso tem, são absolutamente fascinantes. É uma compensação emotiva imensa no filme, por sua completude e pelo impacto que causa nos dois bullies antissemitas que fizeram da vida de Sam um inferno. Ali, vemos a coroação do personagem, a demonstração de que estava (quase) pronto para transformar toda aquela capacidade de conceber sonhos em um produto que atingisse muito mais pessoas. A lição final vem do encontro de Sam com John Ford, e realmente, não poderia ser de outro modo.

A história do real encontro entre Spielberg e o diretor de Rastros de Ódio já é conhecida há bastante tempo, contada pelo próprio diretor em outras ocasiões. No Festival de Toronto, durante a promoção The Fabelmans, ele reafirmou que o que está no filme foi exatamente como aconteceu o encontro dele com o Mestre, “palavra por palavra, nada mais, nada menos“. Esta excelente sequência, que traz um soberbo David Lynch interpretando Ford, abre a porta para a cena final, com o fotógrafo Janusz Kaminski fazendo o “movimento de ouro” ao mudar o enquadramento no meio do plano em andamento. A última piscadela do diretor para toda a brincadeira metalinguística que acabava de encerrar.

Nos momentos em que consegue encontrar espaço para mostrar algo não entrecortado por eventos e emoções que parecem pertencer a um outro filme, Os Fabelmans acerta ao nos mostrar como um dos maiores diretores da História do Cinema conseguiu obter esse título. E como a gente sabe, tudo tem a ver com o horizonte na tela. “Sammy” de fato aprendeu a derradeira lição. Seu legado, caso ainda haja alguma dúvida, está gravado em centenas de metros de filmes, em milhares de minutos num reprodutor digital, para as gerações assistirem, se encantarem e levarem adiante este sonho projetado em tela. Ao contrário do que dizem os emocionados, o cinema não está morrendo e, nem tão cedo, vai morrer. Um filme como Os Fabelmans surge para, nada sutilmente — sob uma reconfortante e reconhecível trilha sonora de John Williams, e talvez arrancando lágrimas dos olhos –, nos lembrar disso.

Os Fabelmans (The Fabelmans) — EUA, Índia, 2022
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Spielberg, Tony Kushner
Elenco: Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen, Gabriel LaBelle, Mateo Zoryan, Keeley Karsten, Alina Brace, Julia Butters, Birdie Borria, Judd Hirsch, Sophia Kopera, Jeannie Berlin, Robin Bartlett, Sam Rechner, Oakes Fegley, Chloe East, Isabelle Kusman, Chandler Lovelle, Gustavo Escobar, Nicolas Cantu, Cooper Dodson, Gabriel Bateman
Direção: 151 min.

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