Crítica | Pânico 2 (Trilha Sonora Original)

O fenômeno de crítica e de público de Pânico contagiou a sua continuação, tão bem conduzida quanto o filme “original”, um caso raro no bojo da indústria. Será que podemos dizer o mesmo da execução de sua trilha sonora? Com produção executiva de Wes Craven, Harvey Weinstein, Bob Weinstein e Cathy Konrad, a trilha sonora teve supervisão musical de Ed Gerrard e trouxe mais uma vez Marco Beltrami, talentoso compositor que precisou enfrentar algumas questões burocráticas e enfrentar alguns desafios oriundos do padrão Weinstein de execução cinematográfica, motivações que levaram Kevin Williamson a deixar de lado o projeto de Pânico 3, entregue para Ehren Kruger.

Em seus 45 minutos, Pânico 2 – A Trilha Sonora Original apresenta em seu desenvolvimento a estrutura padronizada com percussão, ferrões metálicos, cordas cortantes e alguns riffs de guitarra, baixo e assobios, numa construção musical com ressonâncias claras do estilo Elliot Goldenthal e seus ostinatos acompanhados de percussão acelerada. Beltrami mais uma vez mescla orquestra com sintetizadores, além de trecho da partitura da trilha do filme anterior. Destaque para A Cruel World, composição com mescla da sensibilidade rock dos anos 1990, juntamente com os traços da música vibrante de Ennio Moricone, uma das inspirações em sua carreira de sons para filmes.

Stage Fright Requiem, Love Turns Sour, Cici Creepies, Deputy for a Friend, Hollow Parting, Dewpoint/Stabbed, Hairtrigger Lunatic, Sundown Search e It’s Over, Sid são composições assinadas por Marco Beltrami. Focados em tornar o filme intocável, alguns membros do grupo de produtores acreditavam que por ser um filme maior, a trilha deveria ser dividida com nomes mais conhecidos. Assim, Danny Elfman foi convidado para trabalhar em Cassandra Aria, uma das faixas de destaque para Sidney Prescott. Trechos de Hans Zimmer, especificamente, da partitura de A Última Ameaça, filme de ação dirigido por John Woo e lançado em 1996 também estão presentes em Pânico 2.

A trilha sonora com letras e versos possui 15 faixas. Como destaque, selecionei Scream, executada pelo rapper Master P; Right Place, Wrong Time, de John Spencer and The Blue Explosion; Your Lucky Day In Hell, da banda EELS e Red Right Hand, na versão de Nick Cave and The Bad Seeds. Ademais, a trilha sonora de Pânico 2 traz as seguintes faixas: The Race (Ear 2000), The Swing (Everclear), One More Chance (Kelly), She Said (Collective Soul), Dear Love (Foo Fighters), Suburban Life (Kottonmouth), Rivers (Sugar Ray), She’s Always In My Hair (D’Angelo), Help Myself (Dave Matthews Band), I Think I Love You (Less Than Jake) e Eyes of Sand (Tonic).

Em Scream, faixa de abertura executada pelo rapper Master P, acompanhamos versos críticos que são declamados juntamente com gritos femininos de horror. Na faixa Right Place, Wrong Time, cover de John Spencer and The Blue Explosion para a canção de Dr. John, escutamos versos que alegam alguém que precisa “curar a insegurança”, além de “estar no lugar certo, mas na hora errada”, lema de Sidney e seus amigos. Guitarra elétrica e distorções adornam musicalmente os versos da faixa, características do rock de garagem em simbiose com blues rock e punk blues. No caso de Your Lucky Day In Hell, composta por Mark Goldenberg e executada pela banda EELS, temos a presença do rock alternativo no arranho da faixa que representa bem o dia infernal de Sidney, Gale, Dewey e demais personagens perseguidos pelo novo ceifador de vidas.

Versos como “nunca se sabe que poderá estar em sua campainha”, “eu sou apenas um saco ambulante de pós e ossos mastigados” e “esse poderia ser o seu dia de sorte, no inferno” reforçam isso. Red Right Hand, assinada por Nick Cave and The Bad Seeds, também traz elementos do rock alternativo, acompanhado do gótico do sul, gênero musical oriundo de um ramo alternativo da música country, fundido com o rock por meio de composições que flertam com assassinatos, crimes, traições, imagens religiosas, morte, visões fantasmagóricas e problemas internos em ambientes familiares. Em determinado trecho, há um verso que diz: “você é uma engrenagem microscópica em seu plano catastrófico”.

Inspirada por trechos de Paraíso Perdido, poema épico de John Milton, a faixa é uma das mais significativas do álbum, representação cabal dos conflitos dramáticos em Pânico 2. A canção deixa a entender que há planos da “mão direita vermelha” impossíveis de encontrar a resolução ideal por humanos, pois se trata de estratégias traçadas pelo divino. Remixada por DJ Spooky especialmente para o filme, a faixa inspirou-se livremente na canção Way Down in The Hole, de Tom Waits, veiculada no meio musical em 1978, além de trazer os trechos do poema de Milton, em especial, o Livro II, versos 170-174.

No que tange aos aspectos visuais do álbum, a sua apresentação mais expressiva que o álbum antecessor, mas não muito diferente do que se estabelecerá nos padrões: parte superior do cartaz original na frente, com a imagem de parte do elenco no verso. Há na parte interna algumas cenas do filme, justapostas com fundo chapado preto, arte desenvolvida pela dupla formada por Tommy Steele e Ross Patrick. O resultado geral é positivo, numa trilha que reflete cuidadosamente os elementos dramáticos trabalhados pelo filme que integrava a segunda parte de uma das melhores trilogias do cinema contemporâneo. Ghostface iria atacar outra vez, em 1999, acompanhado da trilha que teve a produção executiva do grupo Creed, escolha que reflete o desenvolvimento do terceiro filme, isto é, um conjunto de escolhas questionáveis, mas que ainda assim obtiveram resultado satisfatório.

Pânico 2 – (Trilha Sonora Original)
Artista: Marco Beltrami
País: Estados Unidos
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: rock alternativo, textura percussiva

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.