Crítica | Pânico 4 (Trilha Sonora Original)

Poucos casos que demarcam “retorno” de franquias na indústria cinematográfica tiveram desenvolvimento bem-sucedido, tal como Pânico 4, produção que constatou o bom envelhecimento dos personagens, temas e propostas da história dirigida pela primeira vez em 1996 por Wes Craven, cineasta que já havia criado Freddy Krueger, um tópico basilar das narrativas de horror pós-moderno. Ao executar o roteiro de Kevin Williamson, o cineasta trouxe ao mundo Ghostface, o assassino intelectual da contemporaneidade.

A primeira trilogia alcançou altos e baixos e deixou sua marca positiva na história do cinema. O quarto filme, então, inicialmente foi pensado para se tornar outra trilogia, mas o falecimento de Craven algum tempo depois não deixou que isso ocorresse. Cinematograficamente talvez tenha sido melhor outros realizadores não continuarem mesmo, haja vista o fato deste último filme ter sido pontual, dinâmico, adequado, mas com uma história que se fechou em si mesma, com pouca probabilidade de retornar de maneira elegante.

O trio principal retornou, Williamson reassumiu a cadeira de roteirista depois das complicações em Pânico 3 e Marco Beltrami, regente dos acordes do horror também assinou a sua participação. Mais experiente e prestigiado na indústria, o compositor cumpre apenas os requisitos básicos na textura percussiva no quarto episódio da franquia. Isso não significa que o trabalho seja ruim, ao contrário, é bem composto e cumpre seu papel de acompanhar as cenas de perseguição contrastadas com os poucos momentos de arroubos silenciosos, isto é, a pausa para as matanças.

Com exceção de Sid’s Advice e alguns trechos mais intensos de You’re Not Real, Beltrami faz o trabalho sem espaço para inovação. Ao passo que When You Let Someone Go avança, encontramos algumas referências breves ao “clássico moderno” Trouble in Woodsboro, algo pontual para os saudosos e necessário para o devido estabelecimento da atmosfera. Em suma, as 21 faixas de Pânico 4 – Trilha Sonora Original retomam todo o material dos filmes anteriores para ajustes e adequação na jornada de Ghostface na era dos avanços da cibercultura, com mortes planejadas para exibição nas redes sociais e aplicativos, afinal, como apontado por um personagem num momento chave, “novo filme, novas regras”, algo que se aplica muito timidamente ao desenvolvimento musical da produção.

Produzido por Richard Glasser, o álbum teve produção musical de Marco Beltrami, membro da equipe que foi além da composição por encomenda. Na produção executiva, Robert Tawson deixa a sua assinatura, gerenciador da edição sonora de Ben Schor. Antes de adentrar na breve análise das faixas adicionais, isto é, a trilha com versos e artistas com faixas paralelas ao desenvolvimento do álbum, destaco a condução de Your Ingenue Days Are Over, composição que traz alguns traços do famoso tema de Harry Manfredini para Sexta-Feira 13, os famosos acordes emulados de Psicose, com uma mixagem da expressão “kill kill”.

É algo bastante discreto, mas que pode ser percebido quando nos debruçamos com mais sensibilidade para a percepção. Ademais, os elementos percussivos tornam-se mais empolgantes que assustadores, com presença marcante das cordas harmônicas, do coro, do piano que emite seus sons assombrosos e do staccato, elemento de composição que designa o ponto de diminuição da emissão de som do violino, algo com função de dividir o valor de uma figura musical em som e silêncio, ambos com o mesmo tempo de duração. O conceito visual segue a padronização dos anteriores, com algumas imagens do elenco em ação e foco nas personagens de Neve Campbell e Courteney Cox.

Na capa, a máscara de Ghostface aparece como no telão do festival de filmes que ocorre numa fazenda, organizado anualmente pelos estudantes cinéfilos da nova Woodsboro. É menos expressiva que as anteriores, tal como o seu conteúdo musical. Menor expressividade, por sua vez, não indica ausência de qualidade. Aliás, Pânico não alcançou a mesma presença no imaginário musical que que as trilhas inesquecíveis de Psicose, O Exorcista ou Tubarão, partituras que funcionam culturalmente, com ou sem a presença de suas imagens. Seu foco mesmo era a metalinguagem, a contextualização histórica do terror e o desenvolvimento do entretenimento inteligente.

“Bad Karma” e “Something To Die For”, faixas executadas por Ida Maria e pela banda The Sounds, respectivamente, são os dois maiores destaques das faixas não orquestradas. Com presença de guitarras, baixo e vocal, a canção de Ida Maria reforça os males que acompanham Sidney Prescott desde o primeiro filme. Em seus versos, a cantora entoa que “é melhor você acreditar em karma” e noutro trecho afirma que “é melhor você acreditar em Jesus, pois somente ele poderá te salvar”. Pobre, Sidney, final girl resiliente e firme ao longo de todo o filme. A faixa, ao mesclar elementos do indie rock com traços do pós-punk, “urra” diante da condição dos personagens.

Em “Something To Die For”, a banda The Sounds entoa os seus versos com particularidades da música eletrônica, do estilo house e fisgadas de synthpop, arranjos oriundos do subgênero new wave, estilo conhecido por seus sintetizadores dominantes e consonância com a linha de baixo em tom grave e presença de drum machine. Na faixa, o eu-lírico alerta: “você pode achar que me conhece, mas é apenas uma máscara”. Parece simplório. Não deixa de ser. Mas também não pode ser considerado irrelevante e bobo, tendo em vista o desfecho do filme. É preciso ressaltar que a música é executada logo após a clássica sequência de abertura. Pode passar desapercebida, mas revela a condição da narrativa, bem nas palavras do sábio Randy, personagem de Jamie Kennedy: “todos são suspeitos”.

Pânico 4 – (Trilha Sonora Original)
Artista: Marco Beltrami
País: Estados Unidos
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: rock alternativo, textura percussiva

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.