Crítica | Peaky Blinders – 3ª Temporada

I can charm dogs and those I can’t charm I can kill with my bare hands.
– Shelby, Tommy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Quando a terceira temporada de Peaky Blinders começa, somos informados de um salto temporal de dois anos e, quando vemos Tommy pela primeira vez, ele está se casando com Grace em um capela com metade dos convidados sendo soldados britânicos fardados do lado da noiva em contraste com a família Shelby. Não demora e não só percebemos que a capela se localiza em uma propriedade privada, como esse gigantesco lugar é a mansão onde Tommy e Grace moram. É, sem dúvida, um choque ver o gângster de Birmingham nessas circunstâncias, mesmo considerando sua vitória ao final da segunda temporada.

Todo esse primeiro episódio é dedicado à climatização do espectador e essa não é uma tarefa lá muito fácil, mas, na medida em que a trama progride, percebemos o Tommy que conhecemos fazendo seus negócios, incluindo lutas, apostas e assassinatos enquanto a festa come solta na mansão que ele agora chama de lar. É ainda nesse capítulo inaugural que boa parte da complexa trama mestre da temporada é apresentada, com Tommy sendo ordenado por uma organização secreta que trabalha em conluio com Winston Churchill a ajudar os aristocratas russos expulsos de seu país pela Revolução de 1917.

Diferente das duas temporadas anteriores, essa narrativa e suas ramificações ganham atenção quase exclusiva, com o plano de Tommy de galgar mais outro degrau em sua ascensão meteórica ficando costurada nessa trama e não correndo em paralelo. Com isso, o grande incômodo das elipses claudicantes que senti nos dois anos anteriores desaparecem por completo aqui, tornando a cadência narrativa perfeitamente fluida sem que Steve Knight se furte de pular no tempo quando precisa.

Com os dois anos que se passaram, algumas coisas mudaram. Ada voltou ao seio familiar largando seu idealismo comunista furado, Arthur casou-se com uma mulher profundamente religiosa que tenta afastá-lo da bebida, das drogas e da violência e Polly ainda luta contra seu trauma decorrente de seu estupro por Campbell e o assassinato do policial por suas mãos. Some-se a isso a evolução de Michael como um jovem ambicioso que muito claramente quer ser o próximo Tommy e, claro, a vida conjugal de Tommy e Grace, com seu filhinho Charlie e pronto, é como um recomeço, mas um recomeço que já parte da incapacidade – diria até impossibilidade – de Tommy realmente desvencilhar-se de seu passado, do que ele é, como seu discurso ao final do último episódio deixa muito claro. A comparação com Michael Corleone e seu suplício para fazer o mesmo na Trilogia O Poderoso Chefão é inevitável, ainda que a série parta de raízes bem diferentes e estabeleça uma visão de baixo para cima e não o contrário como nas obras-primas de Francis Ford Coppola.

Como grande vilão, vemos emergir o padre John Hughes (Paddy Considine), emissário da Seção D (ou Liga Econômica, que realmente existiu e tinha como objetivo fomentar a liberdade econômica abafando núcleos de esquerda no país) que, apesar de não conseguir chegar ao patamar maquiavélico e revoltante de Campbell, acrescenta um ar sinistro imediato que é exprimido com terríveis ameaças que são efetivamente concretizadas e com a impressionante sequência em que o crânio de Tommy é rachado contra a parede, momento angustiante que muda o jogo da temporada lá pela sua metade.

Os russos exilados representam a mais completa e nojenta decadência da aristocracia, com direito a uma vida de esbórnia custeada pelo estado britânico que conta com restaurantes dos mais caros, caviar comido como se fosse margarina e, claro, os essenciais bacanais semanais no conjunto de mansões em que vivem como se ainda estivesse na Rússia pré-1917. Esse conjunto de personagens, apesar dos traços obviamente vilanescos, acabam com ares muito mais farsescos e satíricos que espantam e ao mesmo tempo divertem o espectador. O destaque, claro, fica por conta da espertíssima e belíssima Grã-Duquesa Tatiana Petrovna (Gaite Jansen), personagem que manobra Tommy, a Seção D e sua família como um marionetista manobra seus títeres e cuja partida ao final – em um excelente twist – eu realmente senti, pois ela faria um par perfeito com o líder da família Shelby.

Sei que é chover no molhado, mas é necessário mais uma vez aplaudir o elenco dessa série. Cillian Murphy, que sempre fez seu Tommy substancialmente do mesmo jeito, tem o desafio de fazer seu personagem evoluir francamente a partir da tragédia do assassinato de Grace, algo que o ator tira de letra. Vemos a obstinação de Tommy ser temperada com uma profunda melancolia pelo ocorrido, algo que permanece com o personagem ao longo de todos os episódios, em todos os momentos, jamais deixando-o sequer por um segundo, mesmo em sequências alegres, que são bem poucas, aliás. Tom Hardy, apesar de aparecer pouquíssimo com seu Alfie Solomons é outro que mastiga cenários, valendo especial destaque para sua discreta, mas muito eficiente maquiagem que desfigura levemente seu rosto, quase que querendo transmitir sua podridão.

No entanto, mais uma vez os troféus de performance vão para Helen McCrory e Paul Anderson. Polly é uma alma torturada, profundamente ferida pelos acontecimentos da temporada anterior e por seu desejo de afastar Michael da sujeira da família. Seu relacionamento hesitante com o pintor Ruben Oliver (Alexander Siddig) é uma gostosura de se ver, assim como os momentos em que se choca com Tommy. Arthur, por seu turno, é um homem que, se antes era torturado por traumas de guerra que amplificavam sua violência, agora é um bastião de autocontrole, fazendo o máximo para afastar-se de todo tipo de tentação e sofrendo tremendamente quando não consegue. Ver McCrory e Anderson atuando me dá vontade de desejar secretamente duas séries spin-off só de seus respectivos personagens…

A evolução no departamento de direção de arte continua a todo vapor. Se Small Heath agora é apenas um detalhe na história considerando o endinheiramento dos Shelby, ganhando, portanto, pouco ou nenhum destaque, o trabalho de reconstrução de época com a utilização de filmagens em palácios e uso de automóveis e figurinos da época específica, com especial destaque para os russos decadentes, é de cair o queixo. O que vemos na telinha, aqui, não deixa nada a dever a grandes produções hollywoodianas de época, não tenho dúvida.

Peaky Blinders vem em um crescendo de tirar o fôlego. A primeira temporada já imediatamente mostrou a que veio, sendo superada pela segunda em complexidade e amplitude, mas a terceira faz a série chegar a seu ponto mais alto. Chega até ser difícil imaginar como é que ela vai se superar, se é que vai.

Peaky Blinders – 3ª Temporada (Reino Unido, 05 de maio a 09 de junho de 2016)
Criação: Steven Knight
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson, Annabelle Wallis, Joe Cole, Sophie Rundle, Finn Cole, Harry Kirton, Natasha O’Keeffe, Ned Dennehy, Benjamin Zephaniah, Daryl McCormack, Aimee-Ffion Edwards, Tom Hardy, Paddy Considine, Alexander Siddig, Jan Bijvoet, Dina Korzun, Stephanie Hyam, Kenneth Colley, Bríd Brennan, Frances Tomelty, Gaite Jansen
Duração: 337 min. (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.