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Crítica | Quando Voam as Cegonhas

por Fernando JG
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Até a morte de Stalin, e ainda alguns anos depois, a arte produzida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) tinha como base o conceito de Realismo Socialista, em que a estética da criação estava minada pelos agentes do Estado, que decidiam o modo que a arte deveria ser produzida, e comumente apresentava o bem-estar soviético, o proletário como força de movimento, as paisagens rurais e o êxito do regime, como Lênin em Outubro (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev. Logo após essa centralização artística na URSS – que, convenhamos, não há nada de novo sob o sol de um regime totalitário, ainda que socialista -, a chave vira e Stalin morre, em 1957, e é então o momento em que a produção cinematográfica ganha novos ares e uma maior liberdade no ofício das artes. No ano seguinte da morte de Stalin, Quando Voam as Cegonhas ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes ao retratar amor e guerra em um longa real e sentimental. Diferente da grande idealização de mundo proposta pelo realismo, Quando Voam as Cegonhas, ainda que dentro da influência do Partido, mostra também o outro lado da moeda ao filmar os destroços da Grande Guerra. É a partir deste instante que o cinema soviético abre caminho para a transição, cujo grande nome dessa mudança estética é Andrei Tarkovski com seu projeto simbólico e poético. 

Particularmente, vejo que esse filme se aproxima de muitos outros que foram lançados mais para frente, como A Infância de Ivan (1964), do Tarkovski, e A Russian Youth (2019), de Alexander Zolotukhin. O traço comum em todos eles é que decidem tratar de um tema tão difícil com sensibilidade e delicadeza, com belos enquadramentos e um descritivismo excelente através da mise-en-scène. Se em Tarkovski e em Zolotukhin a guerra é vista pela ótica de uma criança, em Quando Voam as Cegonhas este mesmo tema é visto por sobre as lentes do amor entre dois jovens, que têm suas vidas mudadas pela tragédia. 

Boris (Aleksey Batalov) e Veronika (Tatyana Samoylova) caminham pela avenida, embebidos de paixão um pelo outro em um cenário hollywoodiano onde o amor é possível: É assim que começa o longa.  Enquanto isso, no Céu, lá no alto, cegonhas voando, indicando mudança: é amor ou guerra? O diretor apresenta, com uma disposição cênica cheia de poesia, o casal de namorados, que segura um primeiro ato com planos e uma intensa vontade de estarem um ao lado do outro. É uma paixão jovem, avassaladora, que vai sofrer um processo de ruptura doloroso. Boris é proletário em uma fábrica, Veronika, uma enfermeira. Enquanto planejam uma vida juntos, a dois, Boris não deixa de pensar, por outro lado, que a guerra está batendo na porta e ele quer servir como voluntário – novamente esse heroísmo remanescente do realismo socialista aparece -, mas Veronika não concorda com essa ideia, e quando chega a carta de convocação, se desespera. Para ela, não é justo. E então Boris parte para a guerra, deixando Veronika, mas prometendo voltar. É um jovem nacionalista que quer salvar a sua nação do imperialismo nazista. Ao se separarem, ela acaba se casando com o primo de Boris algum tempo depois, enquanto este acaba por falecer no campo de batalha. Ela, em uma esperança quase messiânica, espera que o seu grande amor retorne, mas infelizmente já não é mais possível. 

O diretor vê o seu próprio filme através de uma técnica chamada Chiaroscuro, apostando em contrastes tonais de Luz e Sombra para dar conta de uma carga dramática que oscila entre os temas do amor e da guerra. O uso estético diz tanto quanto o diálogo, já que a fotografia conta, por si só, a história. A câmera de mão visita minuciosamente, no primeiro momento, a beleza da cidade de Moscou. As luzes e a clareza da cidade se confundem com esse lirismo dos pombinhos enamorados. Vestida de branco, Veronika vive os seus melhores dias e é por ela que a gente conhece as belezas de uma Rússia pré-guerra. É lindo no ato inicial quando luz e sombra se camuflam e se sobreposicionam, como se uma entrasse dentro da outra, algo parecido com o que o Bergman fez em Persona (1966) quando funde e mescla Alma e Elisabet. 

Quando Boris vai para a guerra, predominantemente a sombra toma conta da ambientação, e o que antes era um cenário límpido e de possibilidade, como as ruas de Moscou no início do longa, dá lugar a um cenário de guerra, com trincheiras e barreiras por toda parte. A direção insiste em fazer esse contraste: o antes e o depois, demonstrando desastres por onde passa. É a versão soviética da guerra, abrindo para o público os horrores que a invasão alemã causou. Quando a direção decide retratar o abrigo, lugar que todos vão quando eclode uma guerra, ela o faz de maneira a mostrar o desespero e a desesperança em cada rosto, junto de um sombreamento característico. 

A cena da explosão no apartamento, em que ela já está com o primo de Boris – e insatisfeita, óbvio, pois não o ama -, é um ótimo momento para mostrar a força desse expressionismo de luz e sombra, preto e branco, que atuam na construção cênica, como Murnau faz em Fausto (1926). Nesta cena, do segundo ato, Moscou sofre um ataque aéreo, enquanto isso, o casal está dentro de casa tentando se proteger. A sombra toma conta da ambientação, junto com a carga dramática de um piano feroz. Veronika está vestida com uma mescla de cores brancas e pretas, e logo em seguida ela passa o resto do segundo e do terceiro ato vestida de roupas pretas. É a própria figura da sombra, representação da guerra e do luto. Ela passa por uma perda objetal e sofre de melancolia por essa perda causada pela guerra. Mesmo que demore a descobrir que seu amado foi morto, ela sofre pela ausência e as cores do seu vestuário denunciam esse sentimento de falta, bem como a acentuação de luz ou de sombra também indicam os sentimentos do momento. Ao final do filme tudo retorna em branco: A luz do dia, a roupa de Veronika, as flores brancas. É o fim da guerra. As últimas cenas têm um forte apelo socialista, e é visivelmente influenciado pelos filmes de King Vidor, sobretudo pelo espírito de coletividade em O Pão Nosso (1937).

Cada cena parece ser pensada com detalhe, além de ter uma importância única na construção fílmica. Tudo é aproveitado. O plano-sequência de Veronika atravessando a casa indo abrir a porta para a mulher que entrega cartas, ansiosa para ver se tem algum recado para ela, é  esteticamente lindo e tecnicamente impecável, com foco em cada movimento de avanço, em cada passo que ela dá. A câmera espiral, no momento em que Boris falece, seguida da alucinação é outro trunfo. Muito semelhante ao que Alejandro Jodorowsky fará em seu A Montanha Sagrada (1973), com movimentos de câmera que se afastam do objeto como em um zoom, levando a quem assiste a um efeito hipnótico, o diretor aposta nesse distanciamento objetal no momento da morte de Boris, construindo um efeito prazeroso de assistir. Bem como a cena de Veronika atravessando os tanques de guerras numa atitude épica. Não surpreende em nada Quando Voam as Cegonhas ter obtido a Palma de Ouro em Cannes. 

Para falar de amor, o longa é apenas um soco no estômago. A trama da promessa de um amor eterno e do encontro de almas entre Boris e Veronika é de um romantismo ímpar. No entanto, tudo isso rompe com a eclosão da guerra. O tema da ausência e do abandono é o que impulsiona o drama. O diretor deixa a temática muito explícita na cena em que ouvimos o lamentar de um soldado ao descobrir que sua esposa o abandonou, e ele então deseja morrer naquele exato instante em que descobriu que foi trocado. O filme se utiliza da guerra para discutir também o amor. Veronika é, de algum modo, abandonada pelo marido que vai à guerra, e ela, por outro lado, não o espera retornar, casando com seu primo. Isso reverbera na própria situação das milhares de mulheres que perderam seus maridos, ou ficaram a uma eterna espera pelo retorno de alguém que não vai mais voltar. É uma fratura amorosa causada pela guerra. Se de um lado é a história épica dos perrengues e da vitória soviética em relação aos alemães, como numa hino de vitória e exaltação da própria União Soviética, por outro lado, é a narração de um coração partido e de uma mulher que sofre com um estado permanente de ausência e abandono em relação à sua perda amorosa, que se perde duas vezes: a primeira quando ele parte, a segunda quando ele morre. Mais a fundo, o roteiro trabalha de modo excelente a partir do mito do eterno retorno, reatualizando um motivo clássico nas artes e adaptando-o para a realidade soviética. 

Um belo filme russo, Quando Voam as Cegonhas trata de uma situação comum no momento de guerra, que é quando o homem precisa partir, deixando família, esposa e filhos. Sem medo de que o melodrama possa atrapalhar a narrativa, a direção aposta justamente nela como fio condutor e obtém um resultado esteticamente impecável e uma narração excelente. Além disso, figura entre os filmes favoritos de Scorsese e do Coppola, o que não é pouca coisa. 

Quando Voam as Cegonhas (Letyat Zhuravli, Rússia, 1957)
Diretor: Mikhail Kalatozov
Roteiro: Viktor Rozov
Elenco: Tatyana Samoylova, Aleksey Batalov, Vasiliy Merkurev, Aleksandr Shvorin, Svetlana Kharitonova, Konstantin Kadochnikov, Valentin Zubkov, Antonina Bogdanova, Boris Kokovkin, Ekaterina Kupriyanova
Duração: 95 min.

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