Crítica | Sex Education – 1ª Temporada

“Eu não consigo me masturbar.”

Sex Education é tanto sobre os medos em ser, em viver, quanto sobre os assassinatos dos próprios temores. Os personagens apresentados, nessa série criada por Laurie Nunn, sempre variam entre os espectros da coragem e do pavor, nunca encontrando uma completude em si. Aquela liberdade utópica que parece ser inerente a certas juventudes, mas nunca é, continua sendo utópica. Ninguém está perfeitamente coerente consigo mesmo – e tudo bem com isso. Otis (Asa Butterfield), o protagonista, pode realmente estar ajudando dezenas de garotos e garotas no seu colégio, aconselhando-os sexualmente e amorosamente, porém, precisa de tanta ajuda quanto qualquer um deles. Sex Education, entrecortando suas cores vivas e suas cenas com teor sexual, é preocupada em construir personagens acima de qualquer outra coisa. Os arquétipos são quebrados através de uma contemplação do ser enquanto máquina complicada, particular e crível.

“Eu me viro com isso”, encerra o personagem na última cena do primeiro episódio da temporada, evidenciando uma independência auto-suficiente que é tão efêmera quanto as palavras que disse. Já no próximo capítulo, essa vertente de emancipação perante os problemas já está completamente desconstruída, com o pânico em tornar-se terapeuta sexual para os seus colegas de classe, proposta sugerida por sua amiga Maeve (Emma Mackey), ultimamente aparecendo. O ótimo primeiro episódio, em outra instância, também abre portas para a primeira desconstrução de estereótipo. O melodrama é deixado mais para frente, pois Sex Education usa o absurdismo como possibilidade dramática e consegue convencer nesse ponto. O que é o caso aqui, por conta do “membro grande” do filho do diretor da escola, Adam Groff (Connor Swindells), bully de carteirinha que ameaça constantemente o melhor amigo de Otis, Eric (Ncuti Gatwa), um jovem homossexual.

Mas Adam não é só o bully egocêntrico ou o cara com um pênis acima da média. Maeve não é uma ninfomaníaca, muito menos a “morde-saco”. Otis não é o garoto no canto e Eric não é uma pessoa que para sempre sorrirá. Os personagens estão passando por questões muito específicas. Nem adianta tentar relativizar a dor, entre o que é um problema menor e o que é um problema maior. Adam e Maeve, por exemplo, são os mais desesperançados ao longo da temporada, o que culmina em encerramentos que são coerentes com esse pessimismo costumeiro. Esses são personagens que estão se descobrindo, assim como os espectadores estão os conhecendo. Mas Jackson (Kedar Williams-Stirling), outro coadjuvante, e que parece estar vivendo o sonho dos sonhos, igualmente ganha a nossa empatia. Uma excessiva cobrança dos pais também é um fardo, ora pois. Otis compartilha isso com o nadador, convivendo com um background verossímil.

Com uma comédia engrandecendo-se na maior parte do seu tempo, Sex Education consegue expandir a sua graciosidade, combinando-a a uma ácida proposta por temas mais controversos, como o sexo em sua própria existência, a muitas frentes distintas. A série nunca soa errante. Eis um bom humor que transforma-se em um drama muito mais consolidado que determinadas bobagens que acontecem no depressivo e sério melodrama 13 Reasons Why, da mesma Netflix. A câmera atravessa os corredores que metamorfoseiam-se no espaço de interação por excelência. E esse deve ser, muito provavelmente, o papel mais coeso com o seu intrínseco que Asa Butterfield já assumiu, porque combina, nos momentos bons e ruins do seu personagem, com a própria fisicalidade do ator. O roteiro não é muito bondoso com o garoto, porém. O caso é o de um protagonista que cansa pontualmente, mas o conjunto surpassa alguns equívocos de renovação.

A grande carta na manga que envolve esse estudo de personagem é o relacionamento entre o garoto e sua mãe, interpretada pela incrível Gillian Anderson. O problema é que são oito episódios que se redundam um pouco demais nesse meandro narrativo. Mesmo assim, a série complexa muitos vieses de maneira interessante, como colocar justamente o garoto mais inexperiente, com os impedimentos mais óbvios sexualmente – não conseguir fazer amor próprio, por exemplo -, para ser “psiquiatra”. Já a Dra. Jean, mãe do menino, precisa contrariar as suas próprias contradições, entre ser uma pessoa supostamente progressista, conversando abertamente sobre sexo com o seu filho – e com outras pessoas aleatórias -, com uma vida sexual ativa, e, paralelamente, ser um retrato de um conservadorismo protecionista. Até para abraçar certos clichês, como a mãe que vai à festa de jovens através do seu filho, Sex Education é mais inteligente que outros seriados teen.

Uma mistura das cores noventistas com as músicas dos anos oitenta. O ambiente, porém, é o cenário atual – com celulares, computadores, entre outros equipamentos. Otis até mesmo possui uma vitrola em seu quarto, readaptada para os dias atuais, contudo, ainda uma vitrola. Ou seja, a ironia sexual é transportada aos olhos do público por esse tratamento gráfico mais mágico. Uma piada envolve masturbação ao som de “Dancing With Myself”, de Billy Idol. E assumir cores é emancipar-se também. O medo torna-se pungente para Eric. Como é de praxe na série, entretanto, o seu relacionamento com o seu pai não é pautado em preceitos preconceituosos mais óbvios – os outros parentes são genéricos -, e a igreja, surpreendentemente, assume um papel nessa exportação. Se a briga entre os amigos, um dos conflitos da série, não é suficiente por si só, o arco do personagem é. Uma amistosa dança entre o duo é a cena mais libertadora dessa temporada.

Sex Education comporta conscientização em seu cerne. Mas é que pensar sexualidade, conversar sobre esses temas, não significa necessariamente a vivência – o protagonista exemplifica isso muito bem, sendo virgem. Não é sobre incentivar – e quem achar isso está vivendo no mundo da lua e pronto. A questão é que os jovens estão, queiramos ou não, fazendo sexo, sem usar preservativos, mantendo relacionamentos tóxicos, entre outras inúmeras questões problemáticas que são reais nesse mundo juvenil. Até mesmo a abordagem do aborto, tão particular e sincera em vista do roteiro de Sophie Goodhart e da pequena participação de Lu Corfield, tem a ver com a questão do nosso moralismo em oposição à realidade e o que precisamos fazer frente a isso, não contra isso. A comunicação precisa acontecer, porque, enquanto o tabu é tabu, ninguém aprenderá nada. E, convenhamos, é muito ridículo um garoto virgem educar seus colegas sobre sexualidade.

Sex Education – 1ª Temporada – Reino Unido, 11 de janeiro de 2019
Criado por: Laurie Nunn
Direção: Ben Taylor, Kate Herron
Roteiro: Laurie Nunn, Sophie Goodhart, Laura Neal, Laura Hunter, Freddy Syborn,
Elenco: Asa Butterfield, Gillian Anderson, Ncuti Gatwa, Emma Mackey, Connor Swindells, Kedar Williams-Stirling, Alistair Petrie, Mimi Keene, Aimee Lou Wood, Chaneil Kular, Simone Ashley, Tanya Reynolds, Mikael Persbrandt, Patricia Allison, James Purefoy, Lu Corfield
Duração: 8 episódios de cerca de 45 min. cada

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.