Não é sempre que a gente se depara com uma história de Bernice Summerfield abrindo o coração, colocando-se de maneira sensível, frágil e totalmente desesperançada, mas é justamente isso que acontece nessa história de James Goss, o décimo segundo e último episódio da 6ª temporada das Short Trips, lançado pela Big Finish em 23 de dezembro de 2016, dois dias antes do Natal, numa deliberada jogada de especial natalino. Bernice, a professora arqueóloga do século XXVI criada por Paul Cornell em 1992, no romance Amor e Guerra, conta sua história a um robopsicoterapeuta, numa base narrativa que duplica a tensão emocional porque, enquanto narra, o ouvinte percebe que ela própria está processando algo que mal consegue encarar. Lisa Bowerman, que interpreta a personagem desde os primórdios da Big Finish e que aqui também assume a direção, carrega o peso total da história, incluindo todos os outros papéis, com uma destreza de veterana que transforma um simples conto natalino (e macabro) num ensaio sobre o que significa amar alguém a ponto de apagar sua existência da própria cabeça.
O começo, infelizmente, é bastante confuso, de um jeito que deixa o ouvinte sem saber para onde a história vai, mas que depois faz todo o sentido quando a estrutura real se mostra: Bernice está narrando de dentro de uma armadilha cognitiva, e a desorientação inicial é parte da armadilha que ela armou para se ver livre de um vírus. Na trama, o 7º Doutor leva sua companion para um planeta que celebra o Natal com devoção quase patológica, onde o período festivo só pode ser invocado na quinzena que o antecede, o que transforma essas duas semanas numa explosão de neve, torta de frutas e ponche, de uma seriedade cerimonial cômica e afetuosa. Só que uma força ancestral, uma espécie de vírus consciente que viaja pelas hesitações e “uuummmms” e “ããããs” da fala humana, rastreou o Doutor até ali e infectou o planeta inteiro, obrigando Bernice a tomar uma decisão absolutamente terrível: apagar o Doutor da própria memória para enganar a criatura e salvar o Time Lord. Isso nos faz entender a escolha narrativa de Goss, mas não elimina a sensação estranha e de afastamento dos primeiros minutos, como se a história estivesse deliberadamente nos colocando no mesmo estado de desorientação de Benny. O problema genuíno está no que acontece durante o “buraco de tempo” enquanto Bernice tenta apagar o Doutor da memória dela: a história deixa esse intervalo tão vago que o ouvinte fica pedindo mais contexto, mais elementos daquele momento de perda que nunca chegamos a “ver” com profundidade. A criatura antagônica é engenhosa, com um mecanismo de transmissão amedrontador, mas a resolução aposta demais na velocidade e de menos na consequência emocional, deixando buracos de lógica interna, como a dúvida legítima sobre o que acontece com os outros infectados no planeta.
Doctor Who vira e mexe nos lembra da importância da memória e de como perder o Doutor da cabeça é perder uma coordenada do próprio universo, algo que Journey’s End e Hell Bent já trataram com toda a brutalidade emocional possível. O Desvio da Hesitação nos faz lembrar dessas atmosferas, só que com menos drama, e há algo tocante na escolha de Goss ao tratar Benny quase como uma figura de despedida, narrando seu sacrifício com a mesma ironia seca e o mesmo afeto contido que definem a personagem há mais de três décadas. Só que o formato das Short Trips tem suas limitações, e a história acaba pagando esse preço: o que poderia ter sido devastador acaba sendo apenas simpático, funcional na medida certa, bem executado por Bowerman, mas incapaz de ir além. Não é uma obra que vai reconfigurar o cânone nem marcar definitivamente quem a ouve, mas é uma que vale o tempo, principalmente por lembrar que Bernice Summerfield sempre foi, antes de tudo, uma mulher disposta a perder tudo por quem ama, mesmo que isso a deixe sem saber exatamente o que perdeu.
Short Trips: O Desvio da Hesitação (The Hesitation Deviation) — EUA, 23 de dezembro de 2016
Direção: Lisa Bowerman
Roteiro: James Goss
Elenco: Lisa Bowerman
Duração: 42 min.
