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Crítica | Short Trips: O Homem Que Não Estava Lá

Cadê o explorador?

por Luiz Santiago
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Nada parecia ter potencial de dar errado quando Charley pediu ao Doutor para conhecer um dos heróis que mais a fascinaram na infância e na adolescência. Viagens pelo tempo e espaço existem justamente para isso, não é verdade? Ian Atkins faz aqui em O Homem Que Não Estava Lá um roteiro que transforma essa premissa em paradoxo temporal existencial, uma estrutura que lembra as aventuras vitorianas de Jules Verne (especialmente A Volta ao Mundo em 80 Dias e Viagem ao Centro da Terra) e que faz do explorador Pieter Mon Marchè um ponto de interrogação histórico. Quando a TARDIS pousa em busca do aventureiro, ele simplesmente… não está lá. O que deveria ser um encontro rápido se torna uma investigação sobre alguém estar deliberadamente apagando o homem da história, removendo suas conquistas e, consequentemente, desestabilizando a linha temporal de toda a humanidade. Lançado em 2016, como parte da 6ª Temporada das Short Trips, este drama narrado por India Fisher (que interpreta Charley desde Storm Warning, em 2001) mostra bem a dinâmica entre o 8º Doutor e sua companheira eduardiana num período inicial de suas jornadas, embora as limitações do formato curto se façam sentir em certos momentos.

Atkins trabalha com competência dentro das restrições do formato, usando o humor característico da dupla Doutor-Charley (Fisher imita Paul McGann com exagero estratégico, pomposo e divertido) e um mistério temporal que, apesar de interessante, não tem o tempo necessário para crescer como deveria. O roteiro explora paradoxos da mesma linhagem de A Christmas Carol (onde Steven Moffat reescreveu ativamente a história pessoal de Kazran Sardick) e Robot of Sherwood (onde a questão central era a realidade ou ficção de uma figura lendária), mas a resolução chega rápido demais, sem que o público tenha tempo de sentir o peso das implicações do enredo. O diário de viagem de Mon Marchè é um mapa para a investigação, mas as localizações visitadas acabam servindo mais como cenário do que como elementos narrativos com desenvolvimento próprio. A concepção é verniana na estrutura (uma jornada episódica através de locais exóticos), mas a execução parece só estar interessada no ritmo, não nas implicações próprias de uma trama tão complexa como esta (acho que o autor leva a própria história bem pouco a sério).

Fisher narra com a fluidez deliciosa, alternando entre a básica “contação de história” e o diálogo com transições limpas. O desfecho (sinalizado cedo demais) fecha o paradoxo temporal de forma funcional, numa solução que respeita a lógica interna de Doctor Who sobre eventos fixos, mas sem surpreender ou adicionar camadas inesperadas ao que foi construído. A história de Mon Marchè (e a forma como Charley e o Doutor lidam com sua ausência e presença simultâneas na teia do tempo) é uma brincadeira sobre a escrita e a reescrita da história, sem a ambição de redefinir o que Doctor Who pode fazer com seus próprios tropos, contentando-se em revisitá-los de maneira simpática, muito boa no todo, mas previsível.

Short Trips – 6X11: O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There) — Reino Unido, 30 de Novembro de 2016
Direção: Lisa Bowerman
Roteiro: Ian Atkins
Elenco: India Fisher
Duração: 40 minutos

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