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Crítica | Short Trips: Uma Vida Plena

Desinsuportando um insuportável.

por Luiz Santiago
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Que a Big Finish é capaz de tornar personagens odiados ou pouco apreciados de Doctor Who em grandes ícones, a gente já sabe. Mas sempre será difícil lidar com essa situação à primeira vista, pelo menos para mim. Enquanto eu ouvia a voz madura de Matthew Waterhouse e comemorava o fato de que ele estava interpretando uma versão genuinamente palatável (não… mais do que isso… excelente!) de Adric, não conseguia ajustar bem os sentimentos em relação ao personagem. Penso que esse é o tipo de “mágica” que enredos como os de Uma Vida Plena nos trazem. Produzida num modo similar às Crônicas dos Companions, essa interessantíssima pequena viagem explora com muito cuidado uma realidade onde o insuportável rapazinho de Alzarius não morre do jeito que a gente conhece, em Earthshock. E, em vez de fazer uma trama melosa, com um atropelo de atos e novas ideias e discursos de Adric nessa linha do tempo diferente, Joseph Lidster investiu num caminho firme para um paradoxo temporal que é encantador.

O 4º Doutor, Romana II e Adric estão no planeta Veridis, onde o inventor Tivorg concebeu uma máquina para trazer os mortos de volta à vida. É nesse contexto que o roteiro discute o quanto a vida de Adric esteve cercada de mortes, perdas e separações — todas muito chocantes e intensas, não apenas aquelas a que estamos acostumados no cotidiano. Um Adric já idoso utiliza um gravador para contar a história ao público, e à medida que vamos conhecendo melhor essa realidade que se cria entre State of Decay e Warriors’ Gate, entendemos o dilema ético, moral e civilizacional que se abateu sobre Veridis, sem contar o colapso econômico e os outros problemas sociais em torno de uma realidade onde os mortos… não mais permaneciam mortos. Como era de se esperar, não temos uma presença forte e direta do Doutor e de Romana, mas isso não fazem falta aqui. Os momentos em que aparecem e suas poucas falas são o bastante para cercar o protagonista, impulsionar a resolução do problema e batizar a história com cenas essenciais, sempre se voltando para Adric.

Doctor Who já explorou muito bem a ideia de que eventos fixos não podem ser mudados. Ou que o Universo precisa compensar algo que foi feito (ou desfeito) e que nunca deveria ter ocorrido. Nesta aventura, acompanhamos uma junção de tudo isso alinhado a uma concepção fina de ficção científica, com perdas inestimáveis (afinal, este é o tema central em discussão) e uma compensação Universal que, em algum ponto, empurra Adric para aventurar-se novamente pelo espaço. No fim, há uma trilha para possibilidades diversas, mas ela não trai o roteiro e não é aquele tipo de encerramento covarde que, nos últimos minutos, desfaz a construção arriscada (sem desfazer, como a pataquada que um certo showrunner andou fazendo por aí, numa determinada série…). As tragédias de Uma Vida Plena permanecem inalteradas, mas Adric, em dado momento de sua longa [nova] vida, talvez tenha ainda mais uma jornada para cumprir. Simplesmente adorei esse conceito!

Short Trips – 6X09: Uma Vida Plena (A Full Life) — Reino Unido, 29 de setembro de 2016
Direção: Lisa Bowerman
Roteiro: Joseph Lidster
Elenco: Matthew Waterhouse
Duração: 43 minutos

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