Home FilmesCríticasCrítica | Sonhos de Trem

Crítica | Sonhos de Trem

Viver a vida.

por Ritter Fan
4,3K views

A dupla Clint Bentley e Greg Kwedar, responsável pelo belíssimo longa prisional Sing Sing, retorna com Sonhos de Trem, mas com Bentley e não Kwedar na direção, novamente oferecendo uma obra para contemplação e para ser absorvida com calma e vagar pelo espectador. Baseado em aclamada novela de Denis Johnson, o filme é uma jornada pelos 80 anos de vida de Robert Grainier (Joel Edgerton) do final do século XIX até o final de 1968, que funciona também como um retrato das transformações profundas sofridas pelos Estados Unidos no mesmo período, um país ainda sofrendo por ecos divisivos da Guerra Civil, terminando sua malha ferroviária e, no processo industrial, devastando suas florestas. É um épico geracional, mas um épico visto a partir do ponto de vista micro e pessoal de um homem comum vivendo uma vida comum.

Grainier nunca conheceu seus pais, viveu essencialmente solitário até sua vida adulta, quando encontrou Gladys (Felicity Jones) sua esposa e o amor de sua vida, passando a viver em uma cabana de madeira à margem de um rio e com quem tem uma filha que, porém, ele vê pouco em razão de seu trabalho sazonal distante construindo ferrovias ou cortando árvores. Um homem de poucas palavras, mas que estima profundamente o pouco contato humano que tem, seja com a esposa e filha, seja com os colegas de trabalho que, às vezes, tornam-se amigos que ele revê em lugares diferentes tempos depois, como é o caso do veterano especialista em explosivos Arn Peeples (William H. Macy em mais uma daquelas atuações dele que dá vontade de correr para a tela para abraçá-lo) ou de uma rara constante fora de seu seio familiar, Ignatius Jack (Nathaniel Arcand), dono de uma loja na cidadezinha próxima de onde vive.

Entre acontecimentos felizes e trágicos, a vida de Robert Grainier passa como todas as vidas passam. E, como a maioria das vidas, ela passa sem grandes acontecimentos, sem momentos marcantes para além da maravilha que é viver ao lado de quem ama, de encontrar seus amigos e de simplesmente ser. Sonhos de Trem é sobre isso, lá no fundo: viver a vida da maneira que ela nos é presenteada, extraindo dos momentos mais prosaicos sua felicidade e carregando o fardo da eventual culpa e responsabilidade que se tenha. A vida não é uma sucessão de sequências de ação, assim como não é feita de “finais de semana” e o longa nos lembra disso, lembrança que, diria, será mais apreciada por aqueles já com alguma idade e maturidade, que possam olhar para trás e entender exatamente o que o roteiro passa com suas imagens serenas, em meio à natureza majestosa.

Mas Sonhos de Trem é também inafastavelmente sobre os Estados Unidos, sobre um país se reconstruindo e, no processo, se destruindo com a industrialização sem freios e com a perda justamente dessa capacidade de deixar que seus cidadãos vivam suas vidas serenamente. O preconceito e a violência se fazem presentes já cedo na película e marcam profundamente a vida de Grainier que, porém, continua vivendo, apenas acrescentando mais um fardo a carregar em suas costas por todos os seus anos, mais um elemento que, bem mais para a frente, permite que ele enxergue o panorama do que viveu e encontre sentido, algo que só mesmo o tempo permite quando temos sorte.

Com filmagens em locação em lugares idílicos e florestas primais, o filme faz esforço para capturar a conexão do homem com a natureza, com a deslumbrante direção de fotografia de Adolpho Veloso beneficiando-se do tempo que o comando de Bentley nos oferece para simplesmente contemplar a vida. Com a constante quebra da Regra dos Três Terços e o posicionamento de homens, especialmente Grainier, no terço inferior do enquadramento, Bentley e Veloso fazem a natureza ainda mais majestosa, envelopando e apequenando os personagens, mesmo que o mote da narrativa seja, em muitos aspectos, os últimos suspiros das florestas intocadas, sem a interferência humana, com sequências de cunho espiritual que poderiam muito bem vir de Terrence Malick. E o australiano Joel Edgerton revela-se, talvez também com a chegada da idade e de seu amadurecimento como ator, qualidades que antes só eram mais discretamente vistas em seus trabalhos como Guerreiro e Destino Especial, uma espécie de resignação pela experiência de vida, um vislumbre do que poderia ter sido, talvez até mesmo a compreensão constante, ainda que inconsciente muitas vezes, de que a vida é como um caminho e que a única coisa que temos a fazer é seguir adiante, mesmo que por vezes tenhamos que tirar ou desviar de obstáculos ou até mesmo retroceder alguns passos.

Mesmo comumente apreciando narrações em off (nado contra a maré e adoro a narração de Harrison Ford em Blade Runner, por exemplo) e mesmo gostando muito da voz de Will Patton nessa função, aqui a quase “leitura do livro” por ele ao longo de toda a duração do longa conseguiu um resultado estranho e, ironicamente, em antítese ao que o filme se propõe. No lugar de deixar o espectador realmente contemplar a vida – a sua própria, a de Grainier, ou mesmo em abstrato – a narração muitas vezes intrusiva força conclusões e as entrega de bandeja muito rapidamente, sem dar tempo ao tempo, sem permitir a maturação. A intenção é fundamentalmente boa, já que o filme, sem esse recurso, poderia ser críptico demais, mas a constância da presença de Patton explicando o que vemos é bem maior do que a realmente necessária. A vida não é para ser explicada e sim para ser sentida e vivida e Sonhos de Trem, por ser uma expressão da vida, também. Quando uma voz desencarnada nos diz o que temos que sentir ou compreender de determinado momento, nosso livre arbítrio, nossa capacidade de simplesmente ruminar sobre o que acabamos de ver – e não necessariamente compreender, pois nem tudo na vida precisa ser compreendido – é reduzida e, às vezes, atrapalhada. Não é, porém, uma intromissão que desabone ou invalide a jornada, apenas, talvez, um obstáculo transponível nela, mas que, pelo menos para mim, a impede de alcançar o patamar que a obra talvez de outra maneira merecesse.

Sonhos de Trem (Train Dreams – EUA, 21 de novembro de 2025)
Direção: Clint Bentley
Roteiro: Clint Bentley, Greg Kwedar (baseado em novela de Denis Johnson)
Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Clifton Collins Jr., Kerry Condon, William H. Macy, Chuck Tucker, Rob Price, Beau Charles, Paul Schneider, John Diehl, Alfred Hsing, Nathaniel Arcand, Johnny Arnoux, John Patrick Lowrie, Will Patton
Duração: 102 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais