Crítica | Stargirl – 1X03: Icicle

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

O que exatamente o terceiro episódio de Stargirl quis provar? Que ninguém está a salvo na série? Que Geada é um vilão a ser temido? Que vingança é um prato que se come frio? Afinal, pela janela foi todo o tom leve e aventuresco no estilo Era de Ouro que a série parecia querer imprimir, para ser substituído por afetação e artifícios narrativos que não só são cansativos, como completamente banais, que só impressionam mesmo aqueles que estiverem decididos a gostar de qualquer jeito e a qualquer preço de cada episódio da temporada.

Pior do que isso, mesmo que obviamente tenhamos que considerar que o assassinato a sangue-frio de um adolescente não pode ser encarado como qualquer coisa, a grande verdade é que a temporada não tinha sequer introduzido o personagem, pelo que a morte de Joey Zarick, filho do Mago, é vazia de significado e de emoção. Custava ter trabalhado melhor a presença do garoto e sua relação com Courtney? Era a perfeita oportunidade para trabalhar o lado bem adolescente da série de maneira orgânica e trazer um assassinato realmente corajoso para Stargirl e não algo que, muito sinceramente, esqueceremos muito em breve. E não é muito diferente no próprio caso do Mago, que vislumbramos em S.T.R.I.P.E., mas que já foi limado da história aparentemente sem razão maior que não seja para reafirmar o lado psicopata de Geada.

Até é possível que o vilão tenha um plano que empreste alguma lógica ao que ele faz aqui para “manter a fama de mau”, mas eu sinceramente duvido. Temos que lembrar que o jogo que Jordan aparentemente tem jogado há muitos e muitos anos exige paciência e muita discrição. Seu dois arroubos enlouquecidos no episódio derruba completamente essa lógica de um plano calculado e frio de longo prazo e, se contribui para alguma coisa na temporada é para adiantar a formação de uma nova Sociedade da Justiça, algo que poderia ter sido feito de tantas outras maneiras que dá até pena imaginar.

Pelo menos o lado escolar de Courtney, que eu costumeiramente reclamaria muito, funciona bem. Sua presença disruptiva em relação aos hábitos típicos de valentões ganha boas inserções e desfechos e torna esse drama mais significativo do que as demais bobagens adolescentes (que, na verdade, são de jovens adultos agindo quando muito como adolescentes) que Greg Berlanti produz. Parece que ter o selo DC Universe significa alguma coisa pelo menos.

Também funciona cada vez melhor a relação de Courtney com seu padrasto Pat, com o ponto alto tendo sido a conversa séria entre eles no solene e nostálgico quarte-general da Sociedade da Justiça original, com diversos objetos super-heroicos valiosos tanto dentro quanto fora da série. Além disso, é bom ver que, apesar de a mãe de Courtney ainda não ter mostrado realmente a que veio, pelo menos seu meio-irmão Mike, no alto de toda sua pré-“aborrescência”, é insuportavelmente chato a ponto de ser muito divertido. Espero que o personagem não ganhe poderes ou um uniforme para continuar sendo explorado assim, de maneira mais irreverente e despreocupada, ao longo da série. O que precisa ser lapidado – e rápido – é a atitude “vamos lá bater nos vilões” de Courtney, mas não para eliminar essa inocência dela (o que pode ser tarde demais agora com as mortes, infelizmente), e sim para tornar a coisa um pouco menos estúpida.

Apesar dos sérios problemas de roteiro que apontei no início, que são muito mais oriundos de um planejamento que me pareceu equivocado e apressado para a temporada como um todo e não um problema localizado aqui, a direção de Michael Nankin mostra-se sólida, com uma decupagem que sabe dividir o tempo entre os diversos momentos de “calmaria” e as sequências de tensão e ação. Vale particular nota a já citada sequência na sede da SJA e o momento em que Geada transforma Mago em picolé. Apenas os efeitos visuais é que deixaram a desejar um pouco aqui, especialmente nos voos de Stargirl na garupa de Stripe. Pelo menos a aparência gelada do Geada é bastante profissional e mostra potencial para uma batalha campal no futuro.

Icicle foi um retrocesso para Stargirl por tentar criar um drama sem prepará-lo adequadamente e por acelerar a formação de uma equipe teen sem que os teens estejam desenvolvidos o suficiente sob o ponto de vista narrativo para ganhar seus poderes. A velocidade que foi imprimida por esse capítulo não me parece justificada e não só afeta a lógica do que parece ser o grande plano do Geada como também quebra o tom mais suave e leve que a série vinha tendo. Tomara que os capítulos futuros corrijam o rumo e definam o que a série quer ser, sem deixá-la em um incômodo meio-termo.

Stargirl – 1X03: Icicle (EUA, 1º de junho de 2020)
Showrunners: Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Michael Nankin
Roteiro: Colleen McGuinness
Elenco: Brec Bassinger, Luke Wilson, Yvette Monreal, Anjelika Washington, Christian Adam, Julia Armitage, Mark Ashworth, Christopher James Baker, Olivia Baughn, Elizabeth Bond, Sam Brooks, Meg DeLacy, Wil Deusner, Suehyla El-Attar, Lou Ferrigno Jr., Max Frantz, Cameron Gellman, Eric Goins, Neil Hopkins, Neil Jackson, Hina Khan, Joe Knezevich, Joel McHale, Joy Osmanski, Ashani Roberts, Trae Romano, Amy Smart, Stella Smith, Brian Stapf, Henry Thomas, Annie Thurman
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.