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Crítica | Succession – 2ª Temporada

por Ritter Fan
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  • spoilers.

Por melhor que uma série seja, a estrutura de temporadas normalmente exige novas histórias a cada ano, em um processo que, em mãos pouco hábeis, acaba resultando, ao longo do tempo, em mesmice e, pior, na traição da essência da proposta original. Mesmo hoje em dia, com a oferta de verdadeiras obras-primas televisivas, são raras as séries que estabelecem uma continuidade narrativa perfeita entre temporadas, preferindo acrescentar ao que veio antes no lugar de realmente aproveitar o que foi estabelecido. Succession é um dos pouquíssimos exemplos em que a integralidade de uma temporada serve literalmente de primeiro degrau para a integralidade da segunda e isso é sensacional de se constatar.

Afinal, em pinceladas macro, a temporada inaugural estabeleceu a pseudo-sucessão do magnata Logan Roy que, mesmo com 80 anos e sofrendo um derrame, recusa-se a passar o bastão do controle da Waystar RoyCo, conglomerado de mídia e entretenimento que erigiu. Isso gera conflito com seu filho Kendall, que, mesmo com seu problema com drogas, considera-se o sucessor natural, o que o leva a tramar contra seu pai, algo que é revertido parcialmente apenas no último minuto quando Logan usa a morte de um garçom que Kendall arregimentara para comprar narcóticos de forma a chantageá-lo e trazê-lo de volta para o seio familiar.

O que uma temporada seguinte de uma série “normal” faria? Ela amarraria esse drama em um ou dois episódios e partiria para uma nova “fase”, por assim dizer. Mas Jesse Armstrong, showrunner da série, recusa-se a fazer isso e pega toda a situação anterior que, lógico, envolve o restante dos filhos de Logan – principalmente Shiv e Roman – e cria uma segunda temporada que não tem qualquer semblante de solução de continuidade ou qualquer tentativa de lidar de maneira definitiva com o problema, já que não só é uma situação complexa, com diversos interesses contrapostos em tensão, como também há um vasto material para ser trabalhado somente com esse tema, especialmente considerando a riqueza dos personagens que orbitam Logan Roy.

Portanto, a segunda temporada é focada nas estratégias do patriarca da família para impedir a aquisição hostil de sua empresa por parte de Stewy Hosseini, investidor que entra na diretoria na Waystar RoyCo por “culpa” de Kendall e do magnata Sandy Furness, inimigo mortal histórico de Logan. E, como Logan está, aqui, com a saúde perfeita, sua presença é constante, tornando também constantes suas maquinações e suas manobras para reverter o quadro complicado em que sua empresa ficou, notadamente tentando tornar seu conglomerado ainda maior e, portanto, “incomprável” por meio da aquisição da Pierce Global Media – PGM, empresa jornalística de viés ideológico oposto ao da RoyCo, mas que está com problemas financeiros, o que abre a oportunidade para a introdução de Rhea Jarrell (Holly Hunter), diretora executiva da empresa a favor da venda e que se torna personagem de grande importância na temporada, além de Nan Pierce (Cherry Jones), matriarca da família e quem efetivamente tem o poder de decisão e Naomi (Annabelle Dexter-Jones), sobrinha favorita de Nan que é contra a venda, mas que tem problemas com drogas como Kendall.

Mas por mais rico e fascinante que seja o conflito empresarial que, na temporada, também ganha fortes contornos políticos em razão de uma CPI instaurada contra a RoyCo por Gil Eavis, candidato à presidência dos EUA (uma sátira a Bernie Sanders), em razão do vazamento do escândalo da divisão dos cruzeiros marítimos acobertado por Tom Wambsgans com a ajuda de Greg Hirsch, o grande destaque fica mesmo por conta dos conflitos pessoais que permeiam a narrativa, conflitos estes que são costurados brilhantemente em cada aspecto da evolução dos 10 episódios do segundo ano. É neles que a série realmente brilha e é neles que o espectador pode acompanhar a podridão dessa super-elite que vive em uma outra realidade e que discute em dezenas de milhões (de dólares) e não em meras dezenas ou dezenas de milhares. Dinheiro nesse patamar é algo incomensurável, algo que a série aborda mostrando a locomoção dos membros da família com helicópteros e aviões particulares, além de suas casas e castelos, como a mansão nos Hamptons de nada menos do que mais de 200 milhões de dólares e isso leva à completa imoralidade – ou seria amoralidade, ou seja, a ausência de qualquer moral? – dos atos de cada um deles. Diria que, de todos os exemplos usados na temporada para mostrar esse lado da literal podridão da super-riqueza, nada se compara à “caça” aos javalis na Hungria, uma maldade suprema contra os bichinhos em um patético arremedo blasé de uma caçada que, mais tarde, transforma-se na maneira que Logan encontra para humilhar seus executivos – Greg, Tom e Karl – em um jogo de submissão de dar vergonha e raiva.

Claro que grande parte do foco permanece na relação entre o patriarca e Kendall, com a atuação de Jeremy Strong concorrendo com a de Brian Cox ao longo de toda a temporada. Strong vive um Kendall quebradiço, submisso, suicida até, em meio a uma situação impossível em que ele simplesmente se transforma no capacho do pai, vivendo de migalhas de pseudo-carinho e demonstrações de afeto com um cachorro vira-lata. Apesar de Kendall ser também um personagem detestável – quem não é nessa série, não é mesmo? – a cuidadosa construção (ou seria desconstrução) de Kendall é absolutamente fascinante, com momentos de cortar o coração como quando ele desmantela a Vaulter de maneira cruel e fria, mas claramente contra sua vontade e outros de aplaudir como quando ele desobedece finalmente o pai e, na coletiva de imprensa sobre os cruzeiros, joga toda a culpa no patriarca, ganhando inclusive admiração dele, no discreto, mas importante sorriso de Logan.

Outra relação importante na série é a de Logan com sua filha Shiv. Toda a construção da personagem na primeira temporada a colocava como uma mulher altamente inteligente e independente, mas também fria e calculista – inclusive em relação a seu relacionamento com Tom – que, por outro lado, apreciava ser admirada pelo pai, sorvendo cada mínimo elogio dele exatamente como Kendall. Na segunda temporada, é aterrador ver o pai manobrando essa conexão que ela tem com ele para primeiro afastá-la de seu emprego como assessora da campanha eleitoral de Gil Eaves com a promessa incerta e com meias palavras sobre Shiv ser a verdadeira sucessora dele. Tudo é feito de maneira até mesmo a deixar o espectador na dúvida, querendo acreditar, mas ao mesmo tempo duvidando dessa abertura toda que o pai lhe dá, mas sem realmente inseri-la no jogo empresarial. Sarah Snook não se faz de rogada e sobe o nível de sua performance na série, estabelecendo sua personagem maravilhosamente bem, valendo destaque para a maneira como ela se relaciona com a personagem de Holly Hunter.

O terceiro vértice do seio dessa relação familiar doentia é Roman, com Kieran Culkin mais uma vez acertando em cheio na forma de lidar com seu asqueroso, mas ao mesmo tempo hilário personagem. Percebe-se uma inteligência grande em Roman, mas uma inteligência que ele se recusa a colocar em movimento da maneira como poderia, mantendo-se em uma zona confortável que trafega entre a servitude ao pai e a rebeldia em relação a todos os demais que esconde não só inveja em relação a Kendall e Shiv, como também raiva por seu pai não ver que “obviamente” ele deveria ser o escolhido. Além disso, seus vícios e problemas são muito bem trabalhados na temporada, especialmente a mais do que doentia relação com Gerri Kellman (J. Smith-Cameron), a advogada do conglomerado, bem mais velha que ele, mas que também joga o mesmíssimo jogo.

Correndo por fora nesse magnífico elenco, há Matthew Macfadyen que estabelece Tom como talvez o mais verdadeiro humano de todos os personagens, alguém que não sabe – ou não quer – esconder seus verdadeiros sentimentos por Shiv e pela empresa em que trabalha, mas também não consegue deixar de fazer o que for necessário para agradar ao “pai”, resultando em um Tom frágil, atrapalhado, quase alívio cômico, mas que, na verdade, é um personagem trágico. E, claro, o Greg de Nicholas Braun, basicamente um parasita que não faz nada, mas está em todos os lugares, continua ganhando seu espaço para crescer, ainda que talvez menos do que eu achava que ele cresceria em termos de importância dentro da série.

Ainda que a primeira temporada também tenha se valido de mudanças de ares, com a família saindo de Manhattan, ela se manteve fundamentalmente na ilha americana. Por seu turno, a segunda temporada trouxe mudanças constantes de cenários, quase com cada episódio se passando em um país ou uma cidade diferente sem realmente haver boas desculpas para isso. O resultado disso é que essas mudanças de cenário pareceram forçadas, quase que como artifícios bobos para prender a atenção do espectador para além da história sendo contada, o que, convenhamos, era completamente desnecessário. Faltou organicidade para permitir que isso acontecesse sem que esse artifício chamasse atenção demais para si mesmo. Outro aspecto estranho, mas que permanece da primeira temporada é o uso da câmera levemente tremida para também desnecessariamente estabelecer um tom documental que, francamente, inexiste na história e na estrutura da série. É um pequeno incômodo apenas, claro, mas que se torna razoável em momentos em que a fotografia usa planos americanos ou mais próximos.

E o melhor é que a segunda temporada também não tem um fim em si mesmo e parece ser mais outro degrau que será integralmente absorvido pela próxima, mantendo a unicidade temática e, espera-se, a qualidade. Claro que, exatamente por isso, Succession não parece ser uma daquelas séries que podem seguir adiante indefinidamente ou mesmo por muitas temporadas. É essencial que Jesse Armstrong tenha planos claros e firmes sobre quando e como encerrar o épico da família Roy.

Succession – 2ª Temporada (EUA – 11 de agosto a 13 de outubro de 2019)
Criação: Jesse Armstrong
Direção: Mark Mylod, Andrij Parekh, Shari Springer Berman, Robert Pulcini, Matt Shakman, Becky Martin, Kevin Bray
Roteiro: Jesse Armstrong, Jon Brown, Tony Roche, Georgia Pritchett, Will Tracy, Susan Soon He Stanton, Jonathan Glatzer, Mary Laws
Elenco: Brian Cox, Jeremy Strong, Sarah Snook, Kieran Culkin, Matthew Macfadyen, Nicholas Braun, Alan Ruck, Hiam Abbass, Peter Friedman, Rob Yang, Dagmara Domińczyk, Arian Moayed, J. Smith-Cameron, Justine Lupe, James Cromwell, Eric Bogosian, Caitlin FitzGerald, Harriet Walter, Jeannie Berlin, Jessica Hecht, Holly Hunter, Cherry Jones, Annabelle Dexter-Jones, Fisher Stevens, Larry Pine
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 571 min. (10 episódios)

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