Crítica | The Tunnel Under the World, de Frederik Pohl (1955)

estrelas 4

Na manhã de 15 de Junho, Guy Burckhardt acordou gritando de um pesadelo. É com essa frase, que mais parece uma paráfrase do início de A Metamorfose (Franz Kafka, 1915), que Frederik Pohl dá início ao seu conto The Tunnel Under the World, publicado inicialmente na Revista Galaxy Science Fiction. O ano de publicação às vezes é indicado como 1954 e às vezes como 1955. Não pude confirmar os dados em fontes seguras e definitivas, mas me parece que, tendo sido publicado em uma revista, parece que as primeiras partes do texto foram lançadas em 1954 e o término ocorreu no ano seguinte.

A pequena história de Pohl serviria de base para inúmeras criações sobre realidades virtuais nos anos seguintes. Simulacron-3 (1964) é uma das mais conhecidas e importantes, uma espécie de extensão dramática e política da ideia de Pohl em The Tunnel Under the World.

O texto é simples, de certa forma cômico e interessantíssimo. Nós acompanhamos a vida de Guy Burckhardt (e, no início, também de sua esposa Mary), que certa manhã tem um pesadelo em que ele simplesmente explodia. Ele compartilha o mal momento com a esposa e, após o café da manhã sai para trabalhar, mas o seu dia parece que não dá muito certo. Seria melhor não ter saído de casa. Ou da cama.

Como o leitor sabe que está lendo uma obra de ficção científica, a luzinha de atenção fica acesa o tempo inteiro. Mas o autor nos engana praticamente durante toda a leitura. Nós temos uma impressão inicial que em poucos parágrafos é derrubada e esse processo se torna um ciclo que nos deixa grudados ao texto, rindo como cúmplices de algo que nos parece divertido mas na verdade é aterrorizante e, para quem já assistiu ao filme O Feitiço do Tempo, tem a perseguição dessa lembrança o tempo inteiro, uma vez que o protagonista acorda exatamente no mesmo dia. Todos os dias.

Há muito mais elementos sociológicos e filosóficos do que políticos e a serem discutidos em The Tunnel Under the World. Frederik Pohl usa da publicidade como catalizador para a construção da realidade virtual e nela edifica a parte das respostas que nos dará na reta final do conto. É claro que o leitor não fica completamente satisfeito, especialmente porque até o meio do conto o texto transparecia ser algo muito maior, mas, ainda assim, o resultado é impressionante. Estamos falando de um texto escrito em 1954/5 onde um personagem se descobre “dentro de uma caixa de metal” e, após se dar conta de que é um robô, revolta-se contra o seu criador.

Perceba que o paralelismo bíblico vem à mente, mas o texto não investe nesse lado da moeda. O conceito é dado, mas não usado como foco. A tecnologia e os seus “benefícios” (entendem as aspas?) para a humanidade é que se tornam o centro das atenções e dentro de uma discussão moral e ética que certamente causaria debates acalorados em certos grupos. Como disse anteriormente, os primeiros capítulos da obra são deliciosamente cômicos, mas com o passar das páginas vamos perdendo o riso e arregalando os olhos. Uma das perguntas que nos vem à mente é: “mas ele [o “Criador” do mundo virtual] poderia fazer isso?”.

image_002

Boas ficções científicas sempre mostraram usos medonhos para corpos mortos (O díptico em Doctor Who: Dark Water / Death in Heaven, é um exemplo) e a cultura da propaganda, dos testes “para o bem de todos” e do uso de alguém ou um grupo de seres com consciência como experimento sempre geraram polêmica, mesmo na ficção. A leitura de The Tunnel Under the World é mais um item para essa lista, a mesma que contém obras como O Mundo Por Um Fio (1973) e Matrix (1999) como representantes. A mesma que, em uma análise mais cuidadosa, contém cada um de nós, dependentes de certos hábitos de consumo ou meios tecnológicos (tem gente que se perder o celular é como se a vida não fizesse mais sentido…). Ao terminar a leitura, muitos com certeza irão procurar algum circuito escondido no corpo ou placas de metal no chão ou na parede. Quem sabe não encontrem mesmo…

The Tunnel Under the World (EUA, 1955)
Autor: Frederik Pohl
Ilustrações: Emsh
Editora: Revista Galaxy Science Fiction, 1955
44 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.