Crítica | The Walking Dead – 9X09: Adaptation

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

The Walking Dead sussurra o futuro que vem sendo encaminhado para a série: a necessidade pela adaptação. Porque, além dos sobreviventes com máscaras de mortos, principais antagonistas dos próximos capítulos do seriado, o contexto também principia essa noção de personagens que precisaram se adaptar, precisam e precisarão. Um passado conecta a todos. Um passado, posterior ao desaparecimento do xerife mais querido de todos, que tornou Michonne (Danai Gurira) uma sobrevivente reclusa em sua comunidade. A adaptação foi essa: recolher os portões e não os abrir para mais ninguém. Como aponta Aaron (Ross Marquand), após a trágica morte de Jesus (Tom Payne), Michonne estava certa. Retornar ao senso de civilidade, comunidades, é adaptar-se?

Os protagonistas se adaptam. Os antagonistas se adaptam. E a própria série se adapta. Andrew  Lincoln quis sair do elenco de The Walking Dead, e Angela Kang precisou se virar com isso. Lauren Cohan também saiu. Curiosamente, o resultado parece ser positivo, porque personagens menores podem ser vistos como não sendo mais personagens menores, verdadeiramente importantes. Em um mundo em que até mesmo Rick Grimes pode morrer, a noção de que Eugene (Josh McDermitt) está vivo, entre outros prévios coadjuvantes, é muito significativo. Adaptation quer usar desse sentimento “nós somos aqueles que sobraram” para mover até mesmo o coração do antigo professor de ciências, em um misto tragicômico imensamente propício para o que vai vir.

Corey Reed, responsável pelo roteiro do episódio, possui uma óbvia inclinação cômica nesse momento, quando Eugene se declara para Rosita, entretanto, enfoca-se muito mais no viés entristecido e consequente à cena. Ou seja, a ocasião não se trata de uma piada gratuita, à mercê apenas das risadas dos espectadores, mas também se amarra com a descoberta de que Rosita (Christian Serratos) está grávida de Siddiq (Avi Nash), apesar de manter um relacionamento com o Padre Gabriel (Seth Gilliam). O seriado, sob esse ponto de vista, é uma adaptação dos quadrinhos, rebuscando o que aconteceu paralelamente nas páginas do gibi. Gabriel, aqui, ocupa um espaço que era originalmente de Eugene, e a gravidez era proveniente de uma traição. Para não tornar Rosita antipática ao público, nem sugerir de forma abrupta um romance tão improvável, adapta-se.

Todo o arco de Negan (Jeffrey Dean Morgan), em uma outra instância, também remete à necessidade pela adaptação dos personagens. Mesmo passando anos atrás das grades, o antigo vilão não está satisfeito com a sua estadia, portanto escapando da sua cela na primeira oportunidade que ganha – mostrada no capítulo anterior, Evolution. Sua jornada no mundo além dos muros de Alexandria relembra um pouco a perdição do Governador depois da queda de Woodbury, na conclusão da terceira temporada. Mas Greg Nicotero está mais inspirado em recriar um mundo pós-apocalíptico mais cru, trajando certas sequências envolvendo o personagem com uma atmosfera de horror mais pura. Os cachorros famintos. A lanterna como guia para a câmera. Nicotero entende do gênero e é ótimo para a série recuperar esse seu quê de aventura novamente.

Regras são regras, mas adaptar-se a elas é o que os protagonistas já vêm fazendo há temporadas, subvertendo os moralismos da antiguidade. A mesma coisa acontece com Judith (Calley Fleming), que deixa Negan viver e aparentemente retornará com o personagem para Alexandria. Em sua jornada narrada nesse episódio, o ex-líder do Santuário desiste – supostamente – de querer algo além de sua cela, mais confortável e mais segura que o universo afora. Negan adaptou-se à realidade em que não é mais líder? As interações do personagem com o cenário do Santuário, residência de outros tempos que o coadjuvante recorre, mas encontra abandonada, são ouro. Um tédio tão grande que até mesmo colocar as coisas no lugar em que se encontravam parece uma alternativa mais normal. O zumbi de seu capanga é um companheiro que se mantém leal à solidão.

O cerne de Adaptation, além de todas essas questões, refere-se principalmente à natureza dos Sussurradores, que se metamorfosearam frente ao caos do apocalipse zumbi. Com a captura de um membro do grupo que matou Jesus, Lydia (Cassady McClincy), os próprios Sussurradores precisam se adaptar novamente a uma situação extrema. Ou seja, saírem das suas máscaras de mortos-vivos para capturarem membros de Hilltop e, com isso, proporem uma negociação. Do outro lado da moeda, Daryl Dixon (Norman Reedus) cuida de interrogar a garota, constantemente a ameaçando de tortura e morte. Henry (Matt Lintz) interrompe Daryl e depois começa a conversar com Lydia. Mesmo assim, a série mostra ser mais inteligente, criando um senso de causa e consequência mais complexo que nos instiga a saber o depois. Dixon, no caso, espiona os jovens.

Também competente como a série, por fim, explora as interações entre Alden (Callan McAuliffe) e Luke (Dan Fogler). Os papéis recebem um bom texto, especialmente Fogler, muito carismático. Um pouco de pavimentação para o sequestro, nos derradeiros instantes do episódio, acontecer. Já Henry (Matt Lintz) não cresce perante o que desenvolveu-se anteriormente com o garoto, e as interrupções a Daryl soam cansativas demais, um tanto por conta de Matt Lintz não possuir muita presença. McClincy é o destaque, um casting que parece ser certeiro à personagem. O medo que Lydia aparentemente sente é muito convincente. Do melodrama por causa da morte de Jesus – a passagem do bastão para Tara é escanteada -, adaptação mostra ser uma coisa que a série é capaz de fazer. Como será continuada essa televisiva revisão ao original arco dos Sussurradores?

The Walking Dead – 9X09: Adaptation — EUA, 10 de fevereiro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.