Home FilmesCríticas Crítica | Tommaso (2019)

Crítica | Tommaso (2019)

por Ritter Fan
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Protagonizado por Willem Dafoe e filmado em locação em Roma, na Itália, o novo filme de Abel Ferrara é um recorte íntimo de uma vida desregrada que tenta encontrar arrimo somente para ver os fantasmas do passado se aproximarem novamente em uma narrativa que poderia muito bem ser autobiográfica ou, pelo menos, costurada a partir de experiências realmente vividas seja pelo diretor, seja por uma amálgama de pessoas a ele conectado. Mas, como muitas das obras do cineasta, Tommaso é desagradável, feito para incomodar, para tirar o espectador do conforto de seu sofá e colocá-lo pensativo, em muitos casos olhando para si próprio.

Usando câmera na mão, pouca profundidade de campo, iluminação natural e mantendo close-ups e planos americanos e médios quase que ao longo de toda a duração, Ferrara faz sua própria versão do Dogma 95 já no primeiro sinal de que ele não quer o espectador simples e passivamente assistindo seu filme. A pegada de “vida como ela é” coloca o personagem título, um ator americano radicado na Itália e casado com uma mulher belíssima e muito mais jovem com quem tem uma filhinha de três anos tendo que enfrentar suas inseguranças presentes e seus vícios passados, com o roteiro trafegando entre fatos e alucinações que se confundem, retirando a credibilidade da narrativa a partir do ponto-de-vista de Tommaso e deixando-nos à procura de algum tipo de âncora que permita a separação entre realidade e imaginação, algo que não vem assim tão facilmente, se é que vem.

Dafoe é o ponto focal das lentes de Ferrara e mais uma vez o ator, quando recebe esse tipo de atenção, mostra que é capaz de construir um personagem imediatamente relacionável, por mais que sua situação específica possa não refletir a de muita gente. O seu cotidiano pelas ruelas romanas bebendo café, fazendo compras para preparar o almoço e simplesmente passeado com a filha Dee Dee (Anna Ferrara, filha do diretor) não poderia ser mais mundano, mas a felicidade – essa aí estampada na imagem que ilustra a crítica – é, no máximo, seu desejo íntimo inalcançável, já que a diferença de idade, de expectativas e o fato de Tommaso ser viciado em drogas há seis anos sem tocar em uma graças ao apoio de grupos de terapia, transformam esse seu mundo em um enigma que o impede de ver e entender o que sua esposa Nikki (Cristina Chiriac, esposa do diretor, o que só reforça o lado autobiográfico) gostaria de ter e o que ela sente por ele.

Assim como em várias de suas obras, Ferrara faz da Cidade Eterna um personagem, mas nunca usando pontos de referência tradicionais ou turísticos. Sua Roma é a Roma verdadeira, de ruelas de paralelepípedo, galerias e túneis de metrô crivadas de pequenas lojas de bairro com gente que conhece seus clientes pelo nome. Por mais estranho que possa parecer, Dafoe funde-se bem a esse ambiente e seu italiano macarrônico até funciona bem, com o ator mostrando dedicação no trabalho de dicção ao ponto de ser possível compreender o que ele fala sem muito esforço e olha que há muito diálogo nessa língua.

O crescendo de paranoia por parte de Tommaso é lento e propositalmente confuso, já que o objetivo é colocar na tela o estado mental do protagonista que não, não é exatamente – ou nem de longe – maluco, mas sim um homem que, ao tentar ajustar-se, percebe que talvez não mais consiga, não mais tenha esse tipo de flexibilidade, mesmo demonstrando plena flexibilidade física em demonstrações de meditação e yôga impressionantes (não sei se é Dafoe ali ou um dublê de corpo, mas desconfio que seja o ator). Há um pouco de arrasto lá pela metade da projeção, com algumas sequências de delírio ganhando repetições e outras que pouco acrescentam à fluidez do que está sendo contado e desviam um pouco a trajetória, mas o importante é que, como mencionei, Ferrara permanece com Dafoe o tempo todo, colocando o ator como viga-mestre de sua obra.

Tommaso incomoda na mesma proporção que prende o espectador, seja pela magnífica atuação de Dafoe, seja pela maneira críptica como o drama do protagonista se desenrola, seja pela filmagem “de guerrilha”, com câmera na mão que Abel Ferrara imprime na base do doa a quem doer. Seu objetivo não é ser bonito, mas sim cru e autêntico tanto quanto possível sem perder em lirismo e em desafios contemplativos.

Tommaso (Idem, Itália/Reino Unido/EUA/Grécia – 2019)
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Abel Ferrara
Elenco: Willem Dafoe, Cristina Chiriac, Anna Ferrara, Stella Mastrantonio, Lorenzo Piazzoni, Alessandro Prato, Alessandra Scarci
Duração: 115 min.

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