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Crítica | Um Dia Muito Especial

Um sensível ensaio entre relações humanas e a História.

por César Barzine
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A banalidade da história é o ponto central de Um Dia Muito Especial. Aqui o olhar histórico do presente se cruza com a realidade bruta do passado e causa um choque ao percebermos todas as distorções que há entre examinar a história e viver essa história. O roteiro de Scola, Costanzo e Maccari localiza essa história a partir de um olhar natural, de pessoas comuns e fatos banais. O fascismo e o nazismo estão lá pelas ruas e mente dessas pessoas, e tudo isso é encenado com um “senso de contemporaneidade“, isto é, não existe anacronismo no olhar de Ettore Scola; os personagens vivem aquele momento como autênticos seres humanos, e não através da ótica revisionista dos tempos contemporâneos.

Assim, ideologias nefastas são encaradas com uma visão apaixonada, um modo de pertencimento a um futuro próspero. É com esse pensamento que a família de Antonietta (seu marido e seis filhos) saem todos animados para o encontro-desfile de Mussolini e Hitler que reúne quase toda Roma. Porém, Antonietta, mesmo sendo mais uma entusiasta do fascismo, acaba ficando em casa para o cumprimento das tarefas domésticas. Mas devido a um ocorrido ela acaba se encontrando com seu vizinho Gabriele, e daí nasce uma forte relação entre eles. É criado, então, o contraste entre o aspecto pessoal dos sentimentos e o impessoal da ideologia, do indivíduo e do coletivo, do microcosmo e do macrocosmo. Do lado de fora do prédio onde vivem os dois há o triunfo das massas pautado numa linha de pensamento pronta, enquanto que, naquele interior, há a construção de afetos, receios e incertezas.

Ao mesmo tempo, percebemos a incompreensão da realidade vivida, em que por trás do feito histórico há uma noção distorcida da realidade. Desta forma, através do clamor que o fascismo desperta entre as pessoas, Scola sinaliza como ideias totalitárias atingem o povo e sua época. Essas ideias, claramente nocivas para nós, estão no cotidiano de uma nação embriagada por populismo. “Como ele pode ser um antifascista? Ele é uma pessoa de bem“, diz Antonietta ao descobrir que Gabriele é um oposicionista à sua causa. O longa tenta mostrar a cada instante que, por trás dos ideólogos, há seres humanos comuns — sejam eles apoiadores ou negadores de tal ideologia. Por isso que cenas do desfile em questão não são apresentadas, pois o que importa é o subjetivismo de alguns personagens específicos; que opera na ênfase da individualidade, dando luz não às crenças políticas de modo frio, mas às relações íntimas que há entre elas e seus defensores.

Embora o filme não encene este encontro entre Hitler e Mussolini,  ele abre justamente com um cinejornal apresentando o tal evento. A exposição da reportagem, ao invés de uma sequência de imagens silenciosas ou com intervenção da produção do longa, é certeira aqui, pois neste primeiro modelo, além de apresentar as imagens daquele momento histórico, há também a exposição bruta da visão que o próprio objeto mostrado possui de si mesmo. O teor panfletário nos coloca naquele tempo-espaço e nos faz deparar com a autoconsciência de seus agentes. Em seguida, há um choque com o fim desta abertura, que, apesar de se manter neste mesmo contexto, se desloca para o campo pessoal sob a ótica da encenação. Assim, a trama se inicia, explorando, de uma forma perfeita através da decupagem, o território a qual está imersa. A câmera faz uso de uma movimentação fluida com panorâmicas e movimentos verticais que contemplam o espaço em que vivem nossos personagens, o que sugere que Scola está prestes a invadir a vida privada e quebrar o protagonismo da vida pública recém-apontado.

Antonietta é uma dona de casa que, embora não fique tão explícito logo de cara, se encontra meio desolada em sua condição de esposa por não ter nenhum afeto do marido. Ela acaba, então, encontrando em Gabriele um reduto amoroso para se apoiar. Seu sentimento por ele demonstra ir além de uma simples paixão, ele é também uma tentativa de fuga por vezes desesperada da sua desprezível vida. Sophia Loren e Marcello Mastroianni, que interpretam o casal, deixam aqui de terem a figura de grandes estrelas estonteantes que tiveram no passado e passam a contracenar como criaturas vulneráveis, frágeis, que se sentem, cada uma à sua maneira, perdidas. Mastroianni está bem em seu papel que demonstra certo apelo sentimental ao mesmo tempo que se equilibra numa postura, por  vezes, mais reclusa, porém é Sophia Loren que realmente brilha no filme. A atriz faz um uso perfeito de sua gesticulação, exalando uma naturalidade que se encaixa bem com a persona de uma dona de casa com problemas pessoais. Loren vai se assumindo a cada segundo como uma mulher comum dotada de problemas pessoais, uma pessoa em situação tão ordinária que carece de um norte para viver. O resultado acaba sendo uma personagem impossível de não se depositar empatia.

Neste caminho, um dos melhores planos de todo o filme é o que apresenta Antonietta em busca de uma reconciliação com Gabriele. Ele é apresentado à esquerda comendo uma omelete na cozinha, e ela, à direita, em pé e silenciosa em outro cômodo. A simplicidade deste único quadro, que não precisa de nenhuma fala, é sublime. Há, sob um plano geral, os dois personagens separados em cada lado por uma parede, em que ocorre a sugestão do desejo caloroso de Antonietta para se encontrar com ele e a expectativa por parte do espectador para que isso aconteça. Porém, Um Dia Muito Especial não é nenhum Desencanto; existe o desejo recíproco de uma relação entre os personagens, mas não de um caso amoroso. Gabriele é homossexual, uma ligação conjugal entre os dois seria impossível. O que não impede Antonietta de enchê-lo fortemente de beijos, demonstrando o quão devastada ela está. Existem outros planos que, através de seus movimentos de câmera, exploram de uma bela maneira os corpos dos protagonistas. Mas, no final das contas, os sentimentos de Antonietta não passam de uma utopia em que ela própria logo aprende a se conformar.

Curioso traçar uma comparação deste filme com outra produção de Scola, que é Nós Que Nos Amávamos Tanto. Nele, também vemos a fusão entre o estudo sentimental de personagens e o retrato histórico da Itália, mas que, neste caso, se discorre por um total de trinta anos. Já Um Dia Muito Especial se passa todo em apenas um dia, o que fortalece ainda mais esse mergulho dentro daquele presente que é vivido a cada segundo, ao invés de apenas ser exposto de uma forma distante num simples retrato histórico. Neste caso, mais do que retratar, o que Scola promove é um verdadeiro exercício de história, algo que se desloca da mera passividade. O uso da narração radiofônica presente na diegese do filme é um eficaz maneirismo que salienta isso, pois o som que sai do rádio narra o evento em curso, ao mesmo tempo que acompanhamos a vida íntima dos personagens que coexistem em paralelo a isso. Trata-se de um contraste com foco em figuras que são coadjuvantes daquele momento histórico, mas que aqui assumem o papel de protagonismo.

Una Giornata Particolare (Itália, Canadá, 1977)
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Maurizio Costanzo, Ruggero Maccari, Ettore Scola
Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, John Vernon, Françoise Berd, Patrizia Basso, Tiziano De Persio
Duração: 110 minutos.

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