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Crítica | Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein

por Ritter Fan
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Quem conhece Robert A. Heinlein apenas por sua potencialmente mais famosa obra, Tropas Estelares, não conhece realmente o autor e possivelmente já o classificou como militarista e, pior ainda, fascista. Se de fato o livro de ficção científica que explora um futuro em que a Terra entra em conflito com insetos espaciais pode passar essa impressão, ela não deve ser monolítica e imutável, especialmente quando consideramos a bibliografia de Heinlein como um todo, notadamente o livro seguinte, Um Estranho Numa Terra Estranha.

Aliás, este é o “livro seguinte” a Tropas Estelares só mesmo porque o autor, que desenvolvia a premissa desde nada menos que 1948 com base em ideia de Ginny, sua terceira esposa e com quem partilharia a vida até seu falecimento 40 anos depois, parou a escrita de seu romance para especificamente redigir “rapidamente” sua história belicista como parte de seu protesto contra o fim dos testes nucleares americanos. Quando ele finalmente entregou o manuscrito a seu editor, diversas modificações drásticas foram pedidas (ou mais do que apenas “pedidas”), como a retirada das passagens mais controversas relacionadas com sexo e religião, basicamente a essência do livro. Para ver sua obra publicada, Heinlein, que havia escrito para um amigo que cortar o que era pedido era como acabar com “um martini sem alcóol”, acabou chegando a um acordo em que o conteúdo apimentado ficaria em troca da redução do número de páginas (a versão objeto da presente crítica, porém, é a “sem cortes” de 1991, reconstituída por sua esposa com base em seus manuscritos após sua morte – se alguém souber se a edição da Aleph, que citei na ficha técnica, é a de 1991, peço que tenham a gentileza de me avisar, já que li no original em inglês).

Um Estranho Numa Terra Estranha é um convite para que o leitor ocidental – sim, especificamente o ocidental – reveja seus conceitos sobre religião e sexo. Não é, como o Heinlein teve que afirmar até sua morte, sua visão de como uma sociedade ideal deveria ser constituída, algo que muito apressadamente a contracultura sessentista e setentista afirmou, usando seu romance como uma de suas “bíblias” (houve até um rumor imbecil que o livro teria inspirado Charles Manson!). É exatamente como em Tropas Estelares: a utopia militarista vista no livro também não é Heinlein dizendo como o mundo deve ser organizado. Heinlein é o mestre da sátira e seu livro de 1961 é uma deliciosa sátira sobre hedonismo, crença, religiosidade, conforto com seu próprio corpo, com suas próprias escolhas e sobre nossa reação em relação ao desconhecido, tudo envelopado como uma ficção científica, ainda que esse seja apenas um dos rótulos possíveis.

A história é enganosamente simples. Um terráqueo nascido e criado em Marte por marcianos é achado e trazido para a Terra quando tem 20 anos de idade. As circunstâncias de sua “origem” são explicadas muito rapidamente no início, pois não são o foco da narrativa, pelo que nem mencionarei aqui. O ponto é que o tal “estranho em terra estranha”, batizado de Valentine Michael Smith, mas também comummente chamado de Mike ou “Homem de Marte”, tem fantásticos poderes adquiridos durante seu tempo no Planeta Vermelho, além de costumes de forma alguma relacionáveis com os terrenos, pelo menos não no puritano e geralmente hipócrita Ocidente e, usando-os, ele funda uma religião baseada em sexo livre e habitação comunal, além de desafio completo à autoridade (daí a adoção do livro pela contracultura da época).

Mas Heinlein não tem pressa em chegar a esse ponto. A construção de Smith é compassada e muito bem desenvolvida desde sua chegada na Terra em estado aparentemente catatônico, até sua conexão com o jornalista investigativo Ben Caxton, a enfermeira Jill Boardman e, principalmente, com o experiente advogado e escritor Jubal Harshaw (sem dúvida representando o próprio Heinlein) que vive em semi-aposentadoria em sua mansão na Pennsylvania e que serve de refúgio ao estranho terráqueo. São essas conexões humanas, notadamente Jubal, que permitem que o leitor aprenda mais sobre Mike, suas habilidades e sua visão sobre a vida e a morte.

Jubal, na verdade, não só é o veículo que Heinlein usa para fazer seus apontamentos satíricos, filosóficos e políticos para os leitores, como também funciona, dentro da trama, como a grande influência sobre Mike e suas atitudes, mesmo que essa influência seja inadvertida e não exatamente planejada, como uma conexão imediata entre pai e filho, entre mentor e pupilo. Além disso, na medida em que a história progride, Heinlein usa Jubal e Mike, inicialmente vistos como personagens com raciocínios parecidos, como um artifício narrativo para separá-los física e filosoficamente entre duas correntes de pensamento – que talvez possam ser interpretadas como as duas correntes do libertarismo (ou libertarianismo para quem preferir o anglicismo) em um magnífico exercício de argumentação que Heinlein aperfeiçoa e muito, especialmente se visto comparativamente com a forma mais de sermão que Tropas Estelares tem, mas ainda sem a sofisticação final que viria com The Moon is a Harsh Mistress, cinco anos depois.

Apesar da estranheza quase etérea que o Homem de Marte evoca, diria que é o veterano Jubal o grande personagem do romance, com diálogos – monólogos muitas vezes – de viés deliciosamente rabugento e de uma visão sobre a vida absolutamente cativante. Tanto é assim que, lá pelo longo terço final, quando a presença de Jubal é reduzida drasticamente para abrir espaço para o desenvolvimento final da religião de Mike, o livro perde grande parte de seu frescor e profundidade, ainda que, claro, se mantenha relevante e interessante, ainda que talvez realmente um pouco longo como o editor original de Heinlein disse para ele.

Um Estranho Numa Terra Estranha não é um livro para se achar respostas. Muito ao contrário, é um livro que coloca as perguntas e deixa o leitor tirar suas próprias conclusões sobre os temas-tabu que aborda. É assim que as melhores obras devem se comportar, desafiando e não entregando tudo de bandeja, trazendo as questões e abrindo espaço para debate, efetivamente clamando que os leitores “grokem” seus possíveis significados. Heinlein mostra toda sua versatilidade aqui, destrói o raciocínio simplista sobre seu alegado fascismo, e cria outro grande exemplar de literatura de ficção científica.

Um Estranho Numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land, EUA – 1961/1991)
Autor: Robert A. Heinlein
Editora original: G. P. Putnam’s Sons
Data original de publicação: 1º de junho de 1961
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil (edição da Aleph): 24 de março de 2017
Tradução (edição da Aleph): Edmo Suassuna
Páginas (edição da Aleph): 576

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