Crítica | Vertigo (Um Corpo que Cai), de Boileau-Narcejac

Boileau-Narcejac é o pseudônimo dos escritores Pierre Boileau e Thomas Narcejac (que na verdade se chamava Pierre Ayraud), autores de um grande número de livros policiais que colocam o leitor em uma espiral de pesadelo do qual nunca ou raramente acordam. O segundo livro da dupla, Celle Qui N’était Plus (1952) foi adaptado para o cinema como As Diabólicas, por Henri-Georges Clouzot, que conseguiu os direitos do livro apenas algumas horas antes de Alfred Hitchcock tentar adquiri-los. Em 1954 chegava às livrarias o livro Dentre os Mortos (posteriormente renomeado para Suores Frios), livro “escrito especialmente para Hitchcock“. O Mestre do Suspense de fato gostou muito da obra e a adaptou para o cinema com o nome de Vertigo, obra que aqui no Brasil conhecemos como Um Corpo Que Cai, título que acabou sendo (compreensivelmente) utilizado pela Editora Vestígio para a publicação do livro no país.

A história se passa na França, durante a Segunda Guerra Mundial, e no centro das atenções estão Flavières (um ex-Inspetor afastado da polícia por conta de um caso malfadado envolvendo seu problema de vertigem), Gevigne (um ex-colega de escola de Flavières, agora influente empresário) e Madeleine, a esposa de Gevigne. Esse trio guiará toda a primeira parte do livro, com o marido pedindo ao antigo colega que vigie Madeleine, por motivos um tanto… místicos, digamos assim. Segundo Gevigne, a mulher vem se comportando de maneira estranha e tem uma história familiar que parece atormentá-la, especialmente quando se fala de uma parente chamada Pauline Lagerlac. A contragosto, Flavières aceita a tarefa, passa a seguir a mulher, e é após essa conexão entre os personagens que a aventura realmente começa.

Ainda na exposição da proposta, os autores estabelecem uma camada sobrenatural que vai página a página dominando o enredo e confundindo o leitor de maneira muito positiva, em termos de engajamento. Há uma ideia geral de “vida após a morte” onde o texto mergulha as pistas encontradas por Flavières, trabalhando, em paralelo, a saída do personagem de seu ceticismo e sua entrega cada vez maior a Madeleine, bem como a tudo o que ela dizia estar acontecendo. É uma jornada enigmática e angustiante, tornando-se ainda mais interessante quando chegamos ao final e descobrimos o que de fato está acontecendo. A carga psicológica, moral e ética aliada a esta camada supostamente além-vida coloca o leitor em uma torrente de pensamentos e sentimentos; primeiro compreendendo, depois odiando e depois cobrando a devida punição para o protagonista, de quem até sentimos algum tipo de dó frente ao patetismo de seu fim.

Enquanto a primeira parte constrói um mistério difícil de se penetrar (e que depois descobrimos que não é o verdadeiro mistério do livro), a segunda parte joga mais com o estado de saúde mental de Flavières, fazendo-o sentir o espaço onde está vivendo, as memórias, as manias e a amargura que devoram o homem. Ao se ver, de certa forma, revisitado por um fantasma do passado, ele passa a agir como um manipulador, agressivo e ditatorial indivíduo frente a uma mulher que ele acha que… é outra mulher, sua paixão morta alguns anos antes. Certas cenas repetidas e a constante dúvida que o próprio leitor compartilha em relação ao caso dificultam a resolução do enigma, mesmo que a gente já consiga aludir, com uma cera antecedência, o verdadeiro caminho da resolução.

Vertigo: Um Corpo que Cai é uma saga de manipulação, jogos psicológicos infames, crime muitíssimo bem arquitetado e uma sensação de perdição do mundo que nos faz terminar o volume com um gosto amargo na alma. Isso também se deve, é claro, à queda de qualidade que o livro sofre no início da segunda parte, onde a trama parece andar pouco e o que se consegue poderia ser abreviado e dado como resolvido em menos tempo, sem o prejuízo de parecer corrido. Isso porque a primeira parte já tinha plantado muito bem as possibilidades, então passar por tudo aquilo de novo (mas sob um ponto de vista inverso) não é algo que começa muito bem… mas certamente acaba muito bem, mesmo que sem uma gota de esperança. O mundo desses personagens está destruído pela guerra, os espíritos de alguns jamais se recuperarão e os crimes de outros acabam encontrando um fim mais cármico do que jurídico, o que é bem irônico se pararmos para pensar no jogo de ocultação que os autores criaram ao longo da obra. Aquele momento em que o “aqui se paga” ainda não é o bastante.

Vertigo: Um Corpo que Cai (D’entre Les Morts/The Living and the Dead) — França, 1954
Autor: Boileau-Narcejac
Tradução: Fernando Scheibe
Editora original: Éditions Denoël
No Brasil: Editora Vestígio (2016)
192 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.