Crítica | When the Streetlights Go On

When the Streetlights Go On é a primeira série de ficção do Quibi, o mais recente serviço de streaming com conteúdo próprio (saiba mais sobre ele aqui), a chegar a seu fim. E é, ao que tudo indica, um fim efetivo, sem deixar portas abertas para uma eventual segunda temporada, o que é a primeira boa notícia que posso dar.

A segunda é que a minissérie (ou “filme em capítulos” como o marketing do Quibi insiste em afirmar, o que é uma besteira) de brevíssimos 77 minutos consegue prender a atenção do espectador com sua trama que começa de um jeito, com o assassinato de uma adolescente e de seu professor com quem tem um caso secreto, e se desenvolve não como um whodunit investigativo, que seria o caminho mais óbvio, mas sim como um filme sobre amadurecimento (o famoso coming of age) narrado pela versão adulta do jovem Charlie Chambers (Chosen Jacobs, o Mike de It: A Coisa), vizinho da vítima que tem uma queda por Becky Monroe (Sophie Thatcher), a irmã dela.

O roteiro dos quase estreantes Eddie O’Keefe e Chris Hutton tira o máximo proveito da estrutura da narrativa com base em lembranças de um passado inocente para entregar uma obra que não esconde sua natureza episódica e que serpenteia principalmente pelas vidas de Charlie, Becky e outros adolescentes nos meses posteriores ao duplo assassinato com tudo o que podemos esperar de uma situação como essa: namoros, arrependimentos, suspeitas e, claro, um clímax razoavelmente pesado e, de certa forma, catártico. A dupla de roteiristas não tem a intenção de criar complexidade ou qualquer sombra de hermetismo. Ao contrário, eles sabem muito bem usar os clichês do gênero para criar uma atmosfera bem concatenada que vai gradativamente ficando mais sombria no seio estudantil, com o mistério das mortes (que são mostradas em detalhes nos primeiros minutos do filme) mantido sempre como uma nuvem escura no horizonte que afeta humores e a vida de todos de maneiras diferentes.

O elenco jovem é muito bem azeitado, com destaque para a jovem Thatcher, que é brindada com a personagem mais desenvolvida da história e que começa como a irmã antipática e rebelde que fica à sombra da irmã popular e amada por todos e vai, aos poucos, ganhando capilaridade e desabrochando de maneira orgânica, sem exageros histriônicos. Jacobs também está muito bem, mas seu destaque na telinha não é imediato, demorando para que o personagem realmente engrene e se insira de vez na narrativa.

Traduzindo bem o roteiro para o audiovisual, a direção de Rebecca Thomas, também com bem pouca experiência em sua cadeira, é certeira em focar no lado humano da história, mantendo os adolescentes no foco constante de sua câmera, mas sem tentar embelezá-los demasiadamente, o que poderia artificializar as imagens e transformar a minissérie em mais uma bobagem juvenil ofertada aos borbotões por aí. Há uma certa suavidade em abordar o doce Charlie da mesma maneira que Becky ganha seu destaque não por sua beleza, mas sim pelo que a câmera nos deixa apenas entrever, ou seja, sua dualidade de sentimentos como a jovem que perdeu a irmã de um lado e a jovem que ganhou celebridade de outro.

When the Streetlights Go On lida bem com a angústia adolescente dentro de um enquadramento de investigação de assassinato que muitos potencialmente acharão enganoso, mas que, na verdade, só existe mesmo para funcionar como um tempero discreto para a narrativa que se preocupa muito mais – ou quase exclusivamente – com o amadurecimento forçado dos jovens que a lente foca. Como parte da primeira onda de produtos exclusivos de um novo serviço de streaming, a breve minissérie (ou filme, sei lá) chega até a surpreender por não trilhar apenas as obviedades do gênero em que se insere.

When the Streetlights Go On (EUA – 06 a 16 de abril de 2020)
Direção: Rebecca Thomas
Roteiro: Eddie O’Keefe, Chris Hutton
Elenco: Chosen Jacobs, Sophie Thatcher, Ben Ahlers, Tony Hale, Queen Latifah, Sam Strike, Mark Duplass, Kristine Froseth
Duração: 77 min. (divididos em 10 mini-episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.