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Entenda Melhor | Opulência Visual: A Direção de Fotografia de Psicopata Americano

A tradução de Patrick Bateman do livro para o filme sob as lentes experientes do diretor de fotografia Andrzej Sekula.

por Leonardo Campos
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Patrick Bateman é um personagem de opulência hedionda e sua aparição, pelo desempenho dramático de Christian Bale, na tradução do romance Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, para o filme homônimo dirigido por Mary Harron, lançado em 2000, não poderia ser diferente. Ou talvez, teria sido, se a produção tivesse caído em mãos menos experientes ou sem apuro estético, o que não foi o caso, haja vista a assinatura de Andrzej Sekula, conhecido também por seus trabalhos em Cães de Aluguel e Pulp Fiction: Tempos de Violência, de Quentin Tarantino, na condução visual da narrativa de imagens opulentes. Mas, antes de começarmos a versar sobre os elementos estéticos do filme, creio ser necessário filosofar brevemente sobre o termo “opulência”, característico do protagonista, antes da interpretação de algumas imagens selecionadas especialmente para esse texto. Derivada do latim “opulentia”, o termo em questão se refere à abundância, riqueza ou prosperidade em um contexto material, no entanto, seu significado vai muito além da mera acumulação de bens.

A opulência é frequentemente associada a um estilo de vida luxuoso e ostentatório, especialmente no contexto de Bateman, um peculiar personagem ficcional. Na filosofia, a opulência pode ser abordada por meio de diversas perspectivas, incluindo a ética, a estética e a crítica social. A opulência é frequentemente criticada por sua conexão com o consumismo e o desperdício, o que levanta questões sobre a moralidade da acumulação excessiva de riqueza em um mundo onde a desigualdade econômica é cada vez mais pronunciada. Filósofos como Karl Marx e Jean-Paul Sartre criticaram a opulência como um símbolo de opressão e alienação, destacando que a acumulação de bens materiais muitas vezes resulta na exploração dos menos favorecidos. Patrick Bateman, ao longo de sua jornada, não está nada preocupado com essas questões, vide a icônica cena de trato com um homem em situação de rua, desrespeitado pelo personagem que vai além dos impropérios para lidar com a presença de tal criatura que não goza dos mesmos privilégios capitalistas que ele, uma figura social yuppie.

Dentre outras reflexões sobre o conceito, a opulência pode ser explorada por meio do conceito de hedonismo, que defende a busca do prazer como o bem supremo. É assim que o protagonista de Psicopata Americano trafega por seus dias e noites de caça incessante por estímulos que o façam se sentir bem. Para apresentar esse mundo de ostentação e materialismo do personagem esférico desse enredo horripilante, era preciso um profissional qualificado para traduzir em imagens, os aspectos sombrios do livro de Bret Easton Ellis. É ai que entra a direção de fotografia, um dos pilares fundamentais na criação cinematográfica, atuando como uma ponte entre a visão do diretor, o texto dramático do roteirista e a experiência do espectador. A pessoa que assume a direção de fotografia desempenha um papel crucial na formação da estética visual de um filme, utilizando elementos como enquadramentos, movimentação de câmera e iluminação para contar histórias. O enquadramento, por sinal, é uma das primeiras decisões que o diretor de fotografia toma e é essencial para a construção da narrativa.

Ele se refere à forma como os elementos visuais são organizados na tela e pode influenciar a percepção emocional e psicológica do espectador. Enquadramentos diferentes transmitem sentimentos distintos. Como ilustração: um close-up pode revelar a intimidade e vulnerabilidade de um personagem, capturando nuances em suas expressões faciais que podem ser cruciais para a narrativa. Por outro lado, um plano geral pode situar personagens em um espaço amplo, destacando a solidão ou o contexto social das suas ações. Já no âmbito da movimentação da câmera, temos outro aspecto crucial da direção de fotografia. A maneira como a câmera se desloca através de um espaço ou em torno de personagens pode intensificar a emoção, acelerar a narrativa ou até mesmo criar uma sensação de desconforto. Ademais, a iluminação é outro componente essencial na direção de fotografia e desempenha um papel vital na criação de atmosfera e na definição do tom do filme. Nas imagens abaixo, confira alguns recortes dos bastidores de composição da cinematografia de Psicopata Americano:

As escolhas de iluminação, desde a suavidade de uma luz difusa até os contrastes dramáticos de sombra e luz, podem comunicar emoções que vão além das palavras. A luz pode ser empregada para destacar personagens, criar tensão dramática ou evocar um estado de espírito específico. Ao considerar a direção de fotografia, é vital entender que enquadramentos, movimentação de câmera e iluminação não existem isoladamente. A eficácia de qualquer um desses elementos depende da maneira como eles interagem entre si. A sinergia entre eles pode gerar uma visão coesa que reforce a narrativa do filme. E, ao longo dos 104 minutos de Psicopata Americano, Andrzej Sekula nos entrega enquadramentos bem delineados, movimentações de câmera deliberadas e iluminação evocativa, numa composição cinematográfica simples, mas coesa e adequada para atender com coerência, as dimensões físicas, psicológicas e sociais de todos os personagens, em especial, do “monstro” Patrick Bateman. Esses elementos, combinados de forma harmoniosa, não apenas enriqueceram a narrativa, mas também elevaram o filme a uma experiência sensorial assertiva, ainda hoje tema para debates dos mais diversos.

Em tópicos, numa perspectiva didática, as principais tarefas da direção de fotografia. Observem:

Estabelecimento do Ambiente: A direção de fotografia estabelece o ambiente da narrativa, utilizando iluminação, cores e composição de cena para criar a atmosfera desejada. Por exemplo, uma iluminação sombria pode transmitir tensão, enquanto uma iluminação brilhante pode evocar alegria.

Composição Visual: A escolha de como os elementos são dispostos dentro do quadro é crucial. A regra dos terços, linhas-guia e simetria ajudam a direcionar o olhar do espectador, comunicando emoções e hierarquias de forma visual.

Uso de Cores: As cores têm significados emocionais e simbólicos. Uma paleta de cores cuidadosa pode expressar estados emocionais, passar mensagens subjacentes e criar associações visuais que ampliam a narrativa.

Movimento de Câmera: Os movimentos de câmera, como panorâmicas, travellings e zooms, influenciam a dinâmica da cena. Um movimento lento pode aumentar a tensão, enquanto um movimento rápido pode gerar excitação. O modo como a câmera se relaciona com os personagens também pode estabelecer empatia ou distanciamento.

Foco e Profundidade de Campo: A profundidade de campo pode direcionar a atenção do público para um personagem ou elemento específico, enquanto desfocá-los pode criar ambiguidade. Essa técnica pode refletir o estado mental de um personagem ou o tema central da cena.

Textura e Detalhes: A textura visual, que pode ser conseguida com a escolha de lentes e a gravação em diferentes formatos, impacta o sentimento geral do filme. Detalhes do ambiente podem revelar muita narrativa não verbal, inferindo sobre o passado dos personagens ou o contexto social.

Iluminação: A direção de fotografia utiliza iluminação natural ou artificial para moldar a percepção do tempo, do espaço e da emoção. Por exemplo, o uso de luz suave pode criar uma sensação de nostalgia, enquanto luz dura pode enfatizar conflitos.

Ritmo: A maneira como as cenas são iluminadas e enquadradas pode influenciar o ritmo do filme. Transições e cortes rápidos entre diferentes estilos visuais podem alterar a percepção do espectador e intensificar momentos dramáticos.

Narrativa Visual: A direção de fotografia pode contar uma parte significativa da história sem diálogo. A progressão visual, os closes nos rostos dos personagens e as reações podem transmitir sentimentos complexos e ajudar na construção da trama.

Estilo e Identidade do Filme: Cada diretor de fotografia traz um estilo único que pode se tornar parte da identidade de um filme. A escolha de técnicas visuais e a consistência no uso delas ao longo da obra ajudam a criar uma assinatura que pode ser reconhecida pelo público.

Nos primeiros recortes, contemplamos a câmera passeando pelos pratos luxuosos de um restaurante, espaço que delineia bastante a identidade de Patrick Bateman. As imagens se movimentam pelo local, situando o espectador nos ambientes por onde o protagonista passa, como podemos ver na cena dele diante de um espelho, numa boate, a entoar impropérios para uma atendente. A duplicação de Bateman nas imagens é algo constante, parte integrante do design de produção em Psicopata Americano. Geralmente em contra-plano, a figura ficcional é constantemente colocada diante de si, em pensamentos psicóticos, numa perspectiva do duplo, como se esses enquadramentos refletissem a multiplicidade do personagem: um yuppie ambicioso para alguns, bonitão e hedônico, mas também um perigoso assassino, racista, homofóbico e misógino. Ao atravessar o apartamento de Bateman, a câmera delineia cada elemento cenográfico, em tons brancos, inox e demais cores discretas, para entrar em contraste com o sangue derramado em passagens posteriores. Observe ainda nos primeiros quadros, como ele é retratado rotineiramente em planos detalhados, que focam em suas expressões faciais, eficientes em cena, graças ao desempenho dramático excelente de Christian Bale.

Por aqui, podemos observar a importância da profundidade de campo. Apesar de rasa, ela destaca Bateman em seu cotidiano, contemplando filmes pornográficos, algo que é parte de sua personalidade. Nos quadros seguintes, dois planos aproximados refletem a aflição do personagem diante da competitividade em relação aos simbólicos e significativos cartões de visita dos seus colegas de trabalho. Ao perceber que o material dos profissionais que atuam em seu ambiente de trabalho são mais sofisticados, Bateman surta em cena, mas de forma contida, colocando a sua ira pra fora na cena seguinte: o assassinato de um homem negro em situação de rua, num beco de iluminação sombria da cidade, passagem noturna que ressalta a identidade maligna de Bateman em ação quando confrontado. Nos dois quadros seguintes, temos o diálogo com Paul, interpretado por Jared Leto, figura ficcional bastante significativa para interpretamos a jornada de ambiguidades em Psicopata Americano. O primeiro quadro destaca uma breve conversa em contra-plano, onde seu “oponente” se vangloria do status de poder, estando acima de Bateman socialmente, e, no segundo, temos a cena do assassinato, com o protagonista em um leve ângulo inclinado, conhecido como contra-plongée (contra mergulho em francês), uma abordagem audiovisual que geralmente delineia um personagem em situação de poder. Nos quadros finais, temos o hedonismo em destaque, o primeiro com simetria completa e o segundo com o psicopata diante do espelho, a contemplar a sua forma física e desempenho sexual.

E, na última sequência, podemos observar nos dois primeiros quadros, a iluminação cuidadosa da direção de fotografia assinada por Andrzej Sekula. A cena pós-sexo na cama com as prostitutas e o destaque que a luz dá no plano detalhe das armas perigosas do acervo de Patrick Bateman. Nos quadros seguintes, temos duas sequências constantes da narrativa: o personagem diante de espelhos e a contemplação dos edifícios suntuosos da cidade, em especial, o espaço que habita a dimensão social do protagonista, quase sempre colocado em cena em contra-plongée, para exaltar a opulência do local de trabalho do yuppie psicopata. Nos quadros seguintes, acompanhamos o plano-detalhe para a cabeça de uma mulher assassinada, na geladeira de Bateman, e, logo depois, a simetria do jantar com o detetive interpretado por Willem Dafoe, intrigado com os mistérios em torno do executivo cheio de segredos. Nos últimos quadros destacados para essa análise, observe o zenital utilizado com ângulo para captar o espiral das escadas do prédio onde o psicopata empunha uma motosserra para cometer um dos seus mais brutais e misóginos assassinatos. É uma cena que lembra bastante a perspectiva de Alfred Hitchcock em suas jornadas de suspense. Por fim, iluminação em contra-luz para ressaltar a figura enigmática de Bateman em seu closet, próximos aos momentos finais desse enredo fotografado com esmero pela equipe técnica, em um exercício estético assertivo para traduzir em imagens, as passagens horripilantes e ambíguas do romance Psicopata Americano.

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