- Há spoilers.
A mente criativa de Genndy Tartakovsky merece ser explorada. Depois de matar Spear na famigerada segunda temporada de Primal e de rumores terem circulado de que o retorno da série seria na forma de antologia, eis que o terceiro ano aporta na telinha para lidar com um protagonista zumbi que, ao longo de 10 episódios, lentamente volta ao seio da humanidade ao lado de seus parceiros Fang, Fanguinhos e Mira, além da Mirinha, claro. Foi definitivamente uma escolha ousada e muito bem executada que, porém, perde a potência nos três episódios finais e que termina da maneira mais fácil e domada possível, de certa forma traindo uma premissa que, por mais bizarra que possa ter sido, mostrou-se vencedora em grande parte da temporada.
O que funciona de verdade aqui é o foco no longo processo de humanização de um zumbi, com direito à pancadaria sanguinária de sempre, mas também diversas passagens belíssimas que vão da lisergia total até momentos dolorosos de percepção da realidade. Pode-se dizer que, até a metade da temporada, tudo funciona muito bem, com Tartakovksy dando tempo ao tempo, sem demonstrar pressa o afobação. A partir da segunda metade – apesar de o melhor episódio da temporada ser justamente nesse intervalo – o projeto do artista russo começa a mostrar rachaduras e a trilhar caminhos mais fáceis, ainda que o enigma sobre qual afinal será o fim de Spear seja mantido até próximo do final.
Infelizmente, porém, a trilogia de episódios que encerra a temporada destoa do todo e entrega um encerramento que não só é conveniente, como um tanto quanto covarde, mesmo que isso possa significar o retorno da série à forma, ainda que eu duvide disse depois de toda a “fofura” demonstrada. Seja como for, Tartakovsky entrega o inesperado, mesmo que ele não siga até o fim assim. Fica a torcida para que, em eventual quarta temporada, tenhamos algo mais próximo do que foi a primeira.
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Como fazemos em toda série ou minissérie que analisamos semanalmente, preparamos nosso tradicional ranking dos episódios para podermos debater com vocês. Qual foi seu preferido? E o que menos gostou? Mandem suas listas e comentários!
10º Lugar:
A Coroa Vazia
3X09
Os diversos novos desafiantes pela coroa cansaram. Se eles já haviam conseguido esse feito em O Desague da Vida, aqui nem mesmo a tentativa de Tartakovsky de criar personagens diferentes um do outro funcionou de verdade, mais parecendo pastiche do que algo com a mesma pegada da série como um todo. Sim, é simpático Spear ver sua filha em todo lugar e ele começar a construir um brinquedo para ela com espólios de suas vitórias (nada como um brinquedo com história de sangue e violência para construir caráter…), mas o preço cobrado para que isso aconteça é a repetição ad nauseam do que já havia sido feito na semana passada, o que alimenta ainda mais a percepção de que Spear zumbi deixou de ser zumbi de um segundo para o outro, sem que os 40 e tantos minutos dos dois capítulos somados fossem usados para criar a impressão de passagem de tempo e de re-humanização do protagonista.

9º Lugar:
O Desague da Vida
3X08
Ao final, o que temos é a montagem do tabuleiro para o resgate de Spear por Mira munida de mapas da região vulcânica e por Fang (muito provavelmente ao lado dos Fanguinhos) cujo faro pegou o forte cheiro de morte que cerca o neandertal. Fica a torcida para que Tartakovsky tenha um bom plano para os dois episódios finais, seja revivendo ou matando Spear de vez, pois a terceira temporada vinha, contra todas as probabilidades depois da decepção que foi o segundo ano, sobretudo a segunda metade, conseguindo retornar à glória da primeira, mesmo com a decisão ainda não facilmente deglutível de transformar Spear em um zumbi. Façam suas apostas!

8º Lugar:
O Eco da Eternidade
3X10
Estou exagerando, claro, mas é somente para transmitir de maneira mais assertiva uma mensagem básica: Primal é mais do que fofuras pré-históricas, mais do que uma família disfuncional. A série nasceu quase como uma tragédia shakespeareana, tensa, violenta, selvagem até a raiz do cabelo. Infelizmente, com esse final que não cobra preço algum e que é somente um grande retcon, Tartakovsky a transformou em uma versão “Ursinhos Carinhosos” que é uma sombra do que foi, mesmo que sete dos 10 episódios da temporada tenha sido um retorno à forma. Exigências da produção levaram o criador a esse caminho? Eu duvido, pois o Adult Swim é justamente a caixinha de areia livre em que todo mundo faz o que quer, doa a quem doer. Um intervalo para um caminho futuro que não suavize nada para os personagens? É isso que espero com todas as forças. Pelo momento, apesar de ser tecnicamente um final bom, o que temos é Primal Light, um produto sem cafeína e sem açúcar, com apenas uma lembrança do gosto que tinha originalmente.

7º Lugar:
Caverna dos Horrores
3X06
Apesar de necessário para a formulação do plano de ataque de Mira, a repetição do ritual dos javalis no interior da caverna em que vemos humanos sendo jogados no fosso que é a “despensa” das criaturas, alguns sendo comidos pela javali albina matriarca que, então, deita para que os demais bebam seu leite é um momento cansativo em um episódio que, pela sua natureza, deveria ser dinâmico. Tartakovksy escolheu mostrar isso antes na temporada para criar atmosfera para o perigo que seria enfrentado, mas essa decisão custou o suspense e revelação que poderiam ter sido trabalhados aqui, o que resulta em uma das poucas “barrigas” de uma temporada muitos consistente em termos de equilíbrio entre contemplação e ação. Não é algo que estrague a apreciação do episódio, mas ele perde seu elã justamente por isso.

6º Lugar:
Presa dos Selvagens
3X04
Presa dos Selvagens, portanto, procura fazer a ponte entre o final pré-epílogo de Ecos da Eternidade e tudo o que vimos até agora na nova temporada com Spear zumbificado, mantendo o foco em Mira, Fang e sua prole, depois que a aldeia de Mira é atacada por monstruosos entelodontes que, não sem mérito, têm o apelido de porcos do inferno, que capturam alguns aldeões, incluindo uma criança que brinca com os Fanguinhos e que vemos ser admoestada por Fang quando ela, sem querer, imita Spear. Até a chegada dos delicados javalis que seriam osso duro de roer até para Obelix, a abordagem é de luto e pesar pela morte de Spear e uma lenta adaptação ao novo status quo tanto por Mira quanto por Fang, ambas sofrendo pelo ocorrido, em clássicas sequências de calma antes da proverbial tempestade que acaba desaguando em uma equipe liderada por Mira que sai em busca das presas dos entelodontes. Só um parêntese para retornar ao assunto do primeiro parágrafo, diferente dos episódios anteriores, o roteiro e o ritmo da história, aqui, faz a jornada do grupo parecer curtíssima, de algumas horas, o que realmente faria sentido diante da situação, mas que não combina com a distância que Spear parece ter percorrido até esse ponto.

5º Lugar:
A Vingança da Morte
3X01
Mas o encaixe exato com o que vimos antes, muito sinceramente, não interessa muito. O que interessa é o novo status quo, especialmente depois que o xamã é morto e Spear parece congelar, sem um comando determinando o que ele tem que fazer, para onde ele tem que ir. Tartakovsky usa o silêncio e a imobilidade como magníficos instrumentos narrativos, não só permitindo lampejos ao zumbificado Spear, que reage à luz do sol e a esboços de lembranças de seu passado, como também pedindo ao espectador para aproveitar o presente, para compreender que, agora, estamos em uma “fase seguinte” do projeto criativo desse fascinante universo. Claro que ficam todas as reticências deixadas pela temporada anterior, todos os descaminhos de Tartakovsky para tentar abrir o leque de possibilidades, mas tenho para mim que não adianta ficar chorando pelo proverbial leite derramado. Temos que seguir em frente e o que podemos fazer – mesmo que exija esforço, o que, confesso, não é meu caso – é aceitar que, a partir de agora, acompanharemos um Spear zumbi lentamente lembrando de seu passado e indo atrás dele.

4º Lugar:
Nenhuma Sombra entre os Mortos
3X05
Dentre todas as maneiras que Genndy Tartakovsky poderia ter promovido o tão aguardado reencontro de Spear com Mira, Fang e os Fanguinhos, confesso que eu não imaginaria uma escolha tão doce e meiga, ainda que o termo que melhor defina o momento seja agridoce. Mais ou menos como o russo dividiu Reino do Luto, os 10 minutos iniciais de Nenhuma Sombra Entre os Mortos são dedicados a momentos delicados, sem ação, que retratam estados de espírito, que nos fazem compreender o significado da revelação de que Spear agora é bem diferente do que ele um dia já foi por diversos pontos de vista diferentes, todos eles igualmente válidos e com construção lógica inafastável, do tipo que faz pleno sentido dentro do que já aprendemos sobre cada um dos personagens, até mesmo sobre os dois guerreiros coadjuvantes. E isso tudo com um roteiro que não se leva muito a sério, equilibrando drama com genuínos momentos cômicos que chegam até mesmo a subverter expectativas.

3º Lugar:
Festa da Carne
3X03
Quando voltamos à superfície, a poesia também volta. O gafanhoto morreu, mas aquele era apenas “um” gafanhoto e não é isso que Spear procura. O neandertal zumbi está atrás de Fang, não de qualquer dinossauro. É Fang que dá sentido à sua (não)vida, é Fang que o faz seguir adiante, é Fang que, a cada passo dado, faz Spear voltar a ser o que um dia foi ou, pelo menos, aproximar-se desse objetivo. Ver Spear esfacelar-se diante da câmera é triste, mas seu retorno simbólico à humanidade é uma jornada que sem dúvida vem valendo muito a pena. Como disse na crítica anterior, não faço ideia do que Tartakovsky pretende fazer, mas estou 100% engajado nesse seu estranho, mas irresistível projeto.

2º Lugar:
O Reino do Luto
3X02
Não tenho ideia do que se passa na cabeça de Genndy Tartakovsky, minha frustração com a temporada anterior de Primal ainda não passou e, sinceramente, não sei se vai passar, e, ainda por cima, continuo sem saber se gosto ou não do conceito de Spear zumbi, mas eu admiro profundamente a capacidade do russo de contar uma história visual arrebatadora, capaz de hipnotizar o espectador do início ao fim. Das sequências contemplativas com uma manada de sivatheriums pastando em uma savana até quando vemos o neandertal sair vitorioso em sua luta contra um gigantesco leão cinza de juba preta (que momentaneamente me lembrou de Golias, na clássica animação Sansão e Golias, da Hanna-Barbera) e seguir sua longa caminhada quase instintiva (pois não creio que Spear ouça mesmo os rugidos) em direção a Fang, Reino do Luto é um primor audiovisual que, de maneira até contrária ao espírito de qualquer série, parece ter um fim em si mesmo, como se o episódio estivesse nos desafiando a aceitá-lo sem nenhuma outra consideração que não seja o fato de ele existir como é.

1º Lugar:
O Coração do Morto-Vivo
3X07
Claro que o grande momento do episódio, que reitera esse processo evolutivo de Spear, é quando ele, fugindo de seus perseguidores, acaba na região das cachoeiras em que ele realmente se vê pela primeira vez e compreende o porquê de ele ser rejeitado. Vemos Spear zumbi lembrar de verdade de sua versão viva e vemos Spear zumbi sofrer por isso, percebendo que ele, agora, está muito distante de quem ele foi. Além disso, essas imagens espelhadas nas águas límpidas são nítidas e não mais enevoadas como anteriormente, indicando, ao que parece, que o que era instinto tornou-se memória, aproximando o protagonista de sua humanidade. É trágico, mas muito bonito notar essa constatação e como ela leva Spear zumbi ao desespero, talvez o ponto alto de sua humanização, pois é o desespero de finalmente descobrir que ele não mais é humano que qualifica sua tragédia e, no final das contas, sua rejeição de si mesmo. Tartakovsky magistralmente invoca clássicos literários como Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro e O Fantasma da Ópera, dentre outros, para construir sequências de horror pela realização do que Spear agora é, que é impossível não sofrer pelo tão maltratado personagem que tem apenas em Mira um vislumbre de aceitação.

