Na tarde de 15 de janeiro de 2026, algo terrível aconteceu comigo. Eu estava tranquilo, em minha distinta choupana, aproveitando meus últimos dias de férias, quando um minion de Cthulhu adentrou sorrelfilflando enxofre pelo recinto e, com seu riso que borbulia a lava e as varejeiras recém-saídas da lama cósmico-aquática dos infernos de um Buraco Negro, revelou para mim a sua horrenda e pestilenta fuça:

K’vyrn R’ekkath, O Riso das Profundezas
Nada pude fazer. Quando dei por mim, estava envolto em seu bafo apodrecido e, neste plano de existência… morto. Quando despertei, “do outro lado“, estava diante de um outro ser abjeto. Uma bolha esponjosa, laranja e disforme, da qual bolotas de pus e danação estouravam como gêiseres, empesteando todo o ambiente, resmungava os seus mais de 900 anos. Esta bolha disforme, que atende por vários nomes, me disse que eu tinha uma chance de voltar à vida se trouxesse uma de suas necro-larvas para a Terra, onde criaria uma carcaça modorrenta e, ao lado de K’vyrn R’ekkath, faria o serviço do Universo nas Montanhas da Loucura até que todo o planeta estivesse consumido por cogumelos de urânio. Sem escolha, fiz aquilo que fui orientado, e ressuscitei. Quando abri os olhos, Ritter Fan acabava de me chamar em nosso Escritório (PC: AE) e Kevin Rick terminava de colar seus macarrões na cartolina, ainda chorando. E pela primeira vez desde que 2026 deu as caras, Ritter fez algo que prestasse, transmitindo um comentário com uma sugestão educada e incrível de um de nossos leitores: O 8° Passageiro. E como tudo o que é sugerido com carinho e educação por aqui, nós levamos a sério, discutimos possibilidades, consultamos o alinhamento das estrelas, o cruzamento das auras e o fechamento dos portões do Sete Além, chegando à conclusão que seria incrível uma coluna mensal de indicações aqui no Plano Crítico. É isso mesmo. Recebam.
O Plano Indica aparecerá aqui todo último dia útil do mês, e trará indicações de coisas que os responsáveis da vez acharem interessante indicar. Pode ser que haja uma lista individual. Uma lista temática. Ou, como esta, uma lista conjunta com indicações próprias e sem relação entre si. O céu é o limite! Vocês podem deixar nos comentários dicas de coisas que gostariam de receber indicações, sugestões de estrutura e opiniões sobre aquilo que indicarmos. Quem sabe não é um presente de grego? Quem sabe não é a melhor coisa que você já consumiu na vida? Ou a pior? Quem sabe você nunca entenderá por que recebeu essa indicação? Quem sabe ᛚᚢᛁᛉ ᛊᚨᚾᛏᛁᚨᚷᛟ não te indicou exatamente o que você precisava neste momento? Vai saber… A partir daqui, não há mais volta! Então, sintam-se em casa em nosso Plano Indica e aproveitem o que for possível!
Kevin aqui. Alguém pode me explicar por qual motivo eu virei o Hagar na imagem feita por IA?! Hahahahaha Esse Luiz me ama demais, viu…
Hagar? Hagar? Só se for o Hagar de Chernobyl, aí faz sentido!
.
Ritter Fan Indica:
Beba Café sem Açúcar

Vocês acharam MESMO que a primeira indicação da primeira edição do Plano Indica seria meramente um filme, uma série, um livro ou uma HQ? Nada disso. O objetivo da coluna é fazer indicações e começar pelo café sem açúcar é tanto uma forma de dizer que vale tudo por aqui, como também um serviço de utilidade pública. Sim, sei que cada um come e bebe o que gosta, do jeito que quiser, o que é bem mais verdade quando se é jovem do que quando se alcança a minha idade, mas meu objetivo não é antagonizar ninguém. O que eu acho bobagem é usar o clichê de que a vida é amarga demais e, por isso, o café tem que ser doce, pois, não só o consumo em quantidades enormes de bebidas amargas é um padrão na sociedade (cerveja, uísque, conhaque e assim por diante), como o café, diferente do que se imagina, é doce mesmo sem a adição de açúcar ou adoçante. Claro que ele não é doce como o açúcar ou o adoçante, ainda que o café com leite (especialmente o aerado) seja quase isso, mas essa doçura sutil só pode ser percebida se os oito torrões de açúcar refinado não forem jogados na xícara. Meu ponto é: experimente, desafie-se. E continue experimentando e se desafiando. Passei os primeiros 30 anos de minha vida sem tomar café algum. Era um tabu quando jovem que eu mantive até que “almoços de negócio” se intensificaram. Comecei relutante com café com açúcar e gostei e, depois de um tempo, passei para o café com adoçante e gostei menos, mas continuei. Depois de algo como 10 anos sendo aconselhado algumas vezes por um pai de um grande amigo meu que café sem açúcar era melhor, finalmente resolvi encarar o desafio e, depois de passar um bom tempo (sim, meses) me adaptando, hoje posso dizer que não consigo me imaginar retornando aos velhos hábitos. A insistência é recompensada aqui, tenham certeza, algo que é reiterado por minha esposa que, depois de uma vida inteira tomando café com açúcar (e, no caso dela, desde muito jovem, entornando açúcar com café, sem é que me entendem), trilhou o mesmo caminho e, hoje, só consome café puro. E não estou dizendo que temos que tomar cafés “gourmets”. Ainda que seja bom evitar café solúvel – que eu nem consigo mais classificar como café, sendo sincero – e cafés de cafeterias “tipo” Starbucks, o bom e velho “café de meia” ou “café de padaria” torna-se melhor sem a adição do pozinho branco ou marrom, dependendo do tipo. Quando o “copo de geleia de mocotó” com café da padaria de esquina passar a ter um gosto melhor e você começar a sentir a suave doçura mesmo de cafés feito com grãos moídos há meses (ou industriais), talvez você sinta interesse em passar para o estágio seguinte, que é o do café moído na hora, mas não é com esse objetivo que escrevo essa “dica”, pelo menos não em um primeiro momento (e uma sugestão: não beba café quente demais, pois o gosto bom vem mesmo com ele lá pelos 65 graus centígrados). O café é melhor de verdade sem açúcar e adoçante, eu garanto, mas é importante não desistir quando aqueles primeiros goles não descerem bem e, também, não roubar, comendo algo doce junto ou mesmo adicionando leite. Tem que ser “só café” por um bom tempo. Vão em frente, tentem. O máximo que pode acontecer, se vocês realmente não se adaptarem ao final de meses (e eu aposto que vão se o esforço for sincero), é vocês voltarem aqui para me xingar. Mas eu aguento xingamentos, fiquem tranquilos, especialmente porque serão xingamentos lidos e respondidos enquanto eu bebo meu café coado purinho, com grãos moídos minutos antes!
.
Kevin Rick Indica:
Os Filmes de Christopher Guest

Não demorei muito para saber qual seria minha primeira indicação do novo projetinho do site. Há algo em torno de dez anos, assisti Mascots, um filme esquecido da Netflix que tinha o formato curioso de mocumentário. Até aquele momento, ainda não tinha tido tanto contato com o subgênero, com exceção de algumas sitcoms famosinhas, então acabei ficando interessado em ver mais trabalhos cinematográficos com a mesma abordagem. Minha primeira pesquisa foi pelo nome do diretor de Mascots, o que acabou abrindo as portas para eu descobrir a maravilhosa filmografia de Christopher Guest como diretor/roteirista — minha indicação. Como cineasta majoritariamente de mocumentários, um subgênero que ele não apenas ajudou a consolidar, mas praticamente ensinou o cinema a levar a sério (inclusive, ele prefere o termo “documentário falso”, por não estar mocking/caçoando diretamente seus personagens), o corpo de trabalho de Guest virou um pequeno nicho que ninguém próximo de mim conhecia. Até aqui, inclusive, estamos devendo mais críticas do cineasta no site, tendo apenas Isto é Spinal Tap dentro dessa linha temática do artista. Em filmes como Esperando o Sr. Guffman, O Melhor do Show e A Mighty Wind, Guest constrói universos inteiros a partir de comunidades minúsculas, obsessões específicas e personagens que vivem na fronteira entre o patético e o profundamente comovente. Seu humor nasce menos da piada explícita e mais da escuta, do constrangimento prolongado e dos excessos que emergem quando alguém acredita demais na própria vocação, seja ela o teatro amador, a criação de cães de raça, a música folk ou a corrida pelo Oscar. A improvisação controlada, o estilo de filmagem inusitado e o texto deliciosamente satírico transformam esses filmes em raras joias. Fica aí a indicação e também o convite para quem quiser me acompanhar no especial que farei do diretor este ano!
.
Luiz Santiago Indica:
Tarot do Fim do Mundo
Quando o nosso ritual de criação foi encerrado e as diretrizes do Plano Indica se estabeleceram, eu comecei a cultivar a ideia de que indicaria uma coisa completamente fora do óbvio, o que gerou até mesmo uma tentativa desesperada de K’vyrn R’ekkath tentando adivinhar o que seria. Bem, vamos aqui a um breve contexto: para os que ainda não sabem (talvez por não terem lido os “textos certos“, hehehe), eu sou fascinado por tarô e estudo os arcanos há um tempinho já, tendo entrado para essa trilha por influência de quatro artistas que admiro imensamente e que, além de tarô e Cabala, mergulharam em estudos e práticas meditativas, mágicas, ocultistas, de autoconhecimento ampliado e/ou pluralmente espirituais: David Lynch, Alan Moore, Alejandro Jodorowsky e Grant Morrison, especialmente os dois do meio. Minha indicação tem a ver com o tanto que eu gosto do projeto criado pela artista brasileira Elisa Riemer e o quanto eu acho que esse tarô combina com 2026… em tantos aspectos que dá até medo de pensar. A arte de Riemer, misturando pinturas, ornamentos e colagens, é um verdadeiro espetáculo. Seu destaque para variados corpos e culturas, seu foco em mulheres encarnando os arquétipos, seu questionamento sobre a perda do amor e a ideia simbólico-realista de um “fim do mundo” (seja o impedimento de algo se completar — ou seja, de “formar o mundo” –; seja a destruição de algo que já tinha se completado) fazem desse baralho uma revelação para tempos de tensão, onde o Relógio do Apocalipse volta a ameaçar bater meia-noite. A interpretação da artista para os arcanos menores (cálices com corações sangrando para copas; dentes de ouro para ouros; ossos para paus; e cérebros com adagas para espadas) mostra uma escolha inteligente que reflete o espírito de sua época, como vemos também no uso do Kinga para os Reis, por exemplo. A beleza vintage, levemente kitsch, a mescla étnica, a amplitude de referências e a história que cada composição arcana da artista nos conta tornaram este um dos meus decks favoritos. E é por isso que o indico para vocês. Ao cabo, fica o convite para que vocês conheçam o trabalho artístico de Elisa Riemer como um todo! Nas redes sociais dela, há vídeos com o processo de criação de suas telas. É um conceito visualmente muito interessante e que, para além desse maravilhoso Tarot do Fim do Mundo (subtitulado “Para Corações Despedaçados“), chama muito a nossa atenção.

Ainda estão vivos? Pergunta séria, gente. Depois de café sem açúcar queimando a língua, mockumentários ensinando que fracasso pode ser arte e cartas de tarô confirmando que o apocalipse não é metáfora, é sempre bom checar os sinais vitais. Vocês chegaram ao fim desta primeira edição do Plano Indica, o que significa que ou vocês são corajosos, ou masoquistas, ou simplesmente não têm mais nada melhor pra fazer num último dia útil de janeiro. Qualquer uma das três hipóteses nos agrada. Deixem nos comentários o que acharam, o que gostariam de ver indicado no próximo mês, ou simplesmente xinguem a gente… desde que com carinho e educação, como o leitor que sugeriu tudo isso. Voltaremos no último dia útil de fevereiro! Isso se K’vyrn R’ekkath não destruir o site até lá. Ou se a bolha laranja não cobrar a dívida cósmica antes. E se o Relógio do Apocalipse der um tempo, claro. Até segunda ordem, tomem café amargo, vejam filmes que tocam o foda-se e abracem o fim do mundo, mesmo com o coração quebrado. É tudo o que nos resta mesmo.

